Parabéns amigo Joaquim Caldeira neste dia do teu aniversário.
Que tenhas muita saúde e boa disposição.
Passa um excelente dia junto dos teus familiares e amigos.
Um grande abraço.
Leandro Guedes.
“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma”
(Do Padre António Vieira, no "Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma", na Capela Real, ano 1669. Lembrado pelo ex-furriel milº Patoleia Mendes, dirigido-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar.).
-
"Ó gentes do meu Batalhão, agora é que eu percebi, esta amizade que sinto, foi de vós que a recebi…"
(José Justo)
-
“Ninguém desce vivo duma cruz!...”
"Amigo é aquele que na guerra, nos defende duma bala com o seu próprio corpo"
António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente
referindo-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar
-
“Aos Combatentes que no Entroncamento da vida, encontraram os Caminhos da Pátria”
Frase inscrita no Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar, no Entroncamento.
---
"Tite é uma memória em ruínas, que se vai extinguindo á medida que cada um de nós partir para “outra comissão” e quando isso nos acontecer a todos, seremos, nós e Tite, uma memória que apenas existirá, na melhor das hipóteses, nas páginas da história."
Não
voltaram todos… com lágrimas que não se veem, com choro que não se ouve… Aqui
estamos, em sentido e silenciosos, com Eles, prestando-Lhes a nossa Homenagem.
Ponte de Lima, Monumento aos Heróis
da Guerra do Ultramar
Que tenhas muita saúde e boa disposição.
Passa um excelente dia junto dos teus familiares e amigos.
Um grande abraço.
Leandro Guedes.
O nosso amigo Joaquim Caldeira, também completa hoje mais um aniversario.
Muitos parabéns amigo, muita saude e bem estar.
As melhoras dos doentes.
Um abraço.
Leandro Guedes.
Após a nossa conversa de hoje e depois de termos falado do Dr. Paraíso Pinto, junto o texto do dia em que eu descrevo o meu aniversário em 2 de maio de 1968, data em que fui informado de que tinha sido punido pela perda de um soldado em combate e, por esso motivo, impedido de poder gozar férias até maio de 1969.
Sorte que o então capitão Neves patrocinou a festa do meu
aniversário com uma prenda e a leitura da ordem do dia com a minha punição.
Um abraço, meu caro.
Joaquim Caldeira -------------------
“O SOLDADO CASTRO
Nunca percebi porque sendo
eu apenas um simples furriel, menos que sargento, tivesse que assumir funções
que pertenceriam a oficiais ou, na sua ausência, a sargentos.
Em mais um regresso de Nova
Sintra, comandando uma força de cerca de 30 homens, na qual se incluía o
soldado Castro que até era da secção do sargento Faria, também integrante da
força, sofremos uma emboscada. Mas antes o Faria tinha oferecido o cantil de
aguardente ao Castro e, este, não se fazendo rogado, bebeu talvez em quantidade
razoável. Ficou grogue e, durante o tiroteio, resguardou-se debaixo de umas
raízes de embondeiro e por lá adormeceu. Tropa fandanga.
No final da emboscada,
reunido o pessoal, certifiquei-me de que não tinha havido danos pessoais e,
após comunicar com a sede do batalhão, certifiquei-me de estávamos todos e
mandei prosseguir. Passadas duas horas fui informado de que faltava o Castro.
Pensei logo o pior. Que talvez estivesse morto ou ferido e que, por eu nem
sequer o conhecer - estávamos há muito pouco tempo na Guiné e ele nem pertencia
à minha unidade - não tinha dado pela sua falta. O Faria também não. Nova
comunicação para o batalhão a informar da falta de um elemento. Recebo ordens
para prosseguir e informaram que pessoal da companhia de Nova Sintra, por estar
mais perto do local da emboscada, iria procurá-lo. Mas não o encontrou. Quando
acordou, ainda sob o efeito da cachaça, dando pela nossa falta, caminhou
errante para Nova Sintra. Chegou lá no dia seguinte. Foi um heli buscá-lo para
Tite. E eu tive um processo disciplinar que resultou em castigo de dois dias de
detenção que vim a cumprir fora do quartel, a caminho de Bissássema.
Como não podia deixar de
ser, estes processos são demorados e só vim a saber da minha punição uns meses
depois. Precisamente no dia 2 de Maio, data do meu aniversário. Até foi giro. O
capitão presenteou-me com uma lembrança, um álbum para fotografias e a nota de
culpa.
Quanto ao Castro, por
remorso tentou dar um tiro na boca e eu fui chamado para o impedir. Não me foi
difícil convencer do seu erro, mas sei que ficou marcado para sempre.
Uns anos mais tarde, fui
chamado para ser sua testemunha num processo em que pedia uma pensão de
reforma, que lhe foi concedida por incapacidade motivada por stress de guerra.
Perdi-lhe o rasto, mas gostava de reencontrá-lo.”
C.CAÇ.2314.
Na época de Páscoa pareceu-me boa ideia fazer a evocação de
um amigo cimentado no período mais difícil da vida de um jovem a GUERRA.
E esta amizade só foi quebrada perlka partida para a última
missão que lhe foi confiada.
O FURRIEL LEITE
Estávamos nos finais de 1967 e, à entrada do quartel de
Tomar, cruzei-me com o João que trazia um braço ao peito e vinha abatido. Mal
nos conhecíamos e não nos vía-mos desde os tempos da recruta, muitos meses
antes. Nem sabia o seu nome tal como ele não saberia o meu. Satisfez a minha
curiosidade dizendo que se chamava João Leite e que tinha tido um acidente…
Despedimo-nos nesse dia e só voltámos a rever-nos no
seguinte, na caserna que nos foi destinada. Ficámos a saber que o nosso destino
era comum. Íamos formar companhia para depois seguirmos para o ultramar, mas
nem sabíamos ainda para onde.
Não sabíamos que os dois anos seguintes iriam ser muito
cheios de emoções fortes, perigos, mas também de solidariedade só possível de
construir nos momentos mais difíceis e de grande perigo. E vim a conhecer
melhor o Leite e toda a equipa com quem fizemos grandes amizades.
Passarei a designá-lo por Leite, pois era o nome que
usávamos por lá e mais tarde, já no fim da guerra, quando nos encontrávamos por
ocasião dos convívios.
Afinal, era um homem diferente do que conheci à entrada do
quartel, em Tomar. Era folgazão, brincalhão, sempre de boa disposição e muito
bem-humorado.
Cedo demos conta de que se tratava de homem determinado,
sabia o que queria, como queria e quando queria. Quis o destino que tivéssemos
de viver o desastre de Bissássema onde ele, mesmo na linha da frente por onde o
IN pretendia repetir o assalto, tal como fizera uns dias antes e se
apoderara de armamento, equipamento e prisioneiros, soube
infligir a maior derrota sofrida pelo IN durante toda a guerra que travou com o
Exército português. Esta batalha nem consta da história de guerra do PAIGC.
Outros desastres aconteceram nas nossas vidas e, em todos, o
Leite teve participação com vantagens para o nosso lado.
Desgostoso com o conformismo que reinava na companhia,
decidiu formar o seu próprio grupo indo buscar os melhores de entre os
melhores. E assim nasceu o grupo “OS BRUTOS” que fizeram história deixando um
rasto de medo nos grupos do IN. Estavam sempre na linha da frente. Tive o
privilégio de os comandar nas ausências do Leite. Eram o escol da companhia. E
ajudaram o seu comandante, o Leite, na conquista de uma condecoração justa e
merecida, só atribuída aos bons. Uma “CRUZ DE GUERRA”.
Mas nem sempre foi fácil a vida do grupo. Tiveram as suas
horas más. Entre outras, talvez a pior, o acidente do Viriato Lopes. E assim se
passaram dois anos de uma convivência fraterna, só possível em teatros de
guerra. Fizemos amizades para a vida. Ficaram as saudades dos amigos e de
algumas, muitas vivências.
Só voltei a ver o Leite passados alguns anos, por ocasião
dos convívios a que ele não queria faltar, mesmo vindo de tão longe.
Por fim, soube da sua doença. Fui dar-lhe o meu abraço numa
das suas vindas a Lisboa para tratamentos. A doença venceu o homem. Mas não
venceu o marido, o pai, o profissional bem realizado, o amigo e o camarada de
quem todos sentimos saudades.
O Leite ainda vive em nós. Até sempre, companheiro.
OS BRUTOS
Crachá de os BRUTOS
Não sei em que altura da comissão foi decidida a sua
criação. Era um pelotão com a missão de ir efetuar os golpes de mão e ao
assalto a posições mais fortificadas para abrir as hostilidades e facilitar a
nossa missão.
Era constituído por um grupo de voluntários que desfalcaram
as secções no seu desempenho, mas facilitavam o assalto final, depois de terem
feito o trabalho mais sujo. O seu comandante era o furriel Leite, açoriano de
São Miguel que conheci ainda em Tomar. Na sua ausência, quer por férias ou
outros motivos, cabia a mim e ao Bastos o seu comando.
Fizemos muitas emboscadas em locais inimagináveis, mas
fizeram muitas mais, sempre com grande "ronco",captura de armas e
inimigos, nos sítios mais improváveis. Tinham a seu favor o reduzido número e
atuavam como um grupo de comandos.
Tal foi a sua notoriedade que no final da comissão, o Leite
foi proposto para uma condecoração e foi-lhe atribuída uma CRUZ de GUERRA que
veio a receber, garbosamente, no dia da raça de 1970.
Está doente. Tem passado algo mal. Força, camarada. Os
Brutos estão contigo
O Leite já partiu para a sua última missão. Adeus, amigo
C.CAÇ.2314
RECORDAÇÕES.
Apenas para recordar aos ousados de que passam hoje 56 anos
que, pelas 22 horas, foi travada a maior batalha de Bissássema, e que durante
cerca de 1 hora, após grande carnificina do lado IN e vários feridos nas NT,
esgotadas as nossas munições, tendo originado o medo na NT e alguns se
prepararam para fugir, via mata e atravessando o rio, em direção a Tite . Coube
a mim, após uma bofetada do capitão, ir convencer os fugitivos do risco a que
iriam sujeitar-se e também a que iriam expor-nos após termos sido desfalcados
com a sua ausência.
Cerca das 10 horas da manhã, desse dia, passaram dois helis
que se ocuparam a filmar o recinto e as redondezas. Ainda pensei que poisassem
para nos reabastecerem. Mas foram embora sem dizerem bom dia.
Estupidamente, fomos remuniciados 48 horas mais tarde, por
uma coluna composta de nativos e tropa, comandados pelo cabo escrita e
pelo cabo mecânico, mal armados e
perdidos na mata, quando já todos equacionávamos a fuga em massa.
Abaixo, os buracos nossos abrigos.
Joaquim Caldeira.
Obrigado Caldeira, por teres trazido esta nossa memoria. É um documento historico.
O nosso companheiro Joaquim Caldeira, furriel da CCAÇ 2314, completa hoje mais um aniversário.
Muitos parabéns amigo e votos de rápidas melhoras.
Um abraço e um dia muito bem passado.
Leandro Guedes.
"O Natal da minha infância
Recordo que havia sempre muito frio, por vezes muita neve e,
invariavelmente, gelo que se acumulava nos beirais das casas e nos caminhos e
riachos. A igreja matriz era devidamente enfeitada para poder transmitir aos
fiéis uma onda de misticismo condicente com a época. Passava-se isto na aldeia
de Louriçal do Campo. Para quem não souber onde fica, eu ajudo. É na base da
serra da Gardunha, na vertente sul. Durante cerca de uma semana que antecedia o
dia de Natal, havia um grupo de rapazes mais velhos do que eu, juntamente com
homens que se voluntariavam para arrancar o cepo da maior árvore que houvesse
nas redondezes e carregá-lo para o adro da igreja a fim de, na véspera, se
poder fazer o braseiro que arderia durante vários dias até se extinguir ou a
chuva o apagar. Durante a fase em que ardia, era frequente ver rapazes, -
raparigas não, - a atiçar o lume ou aquecer pés e mãos, enquanto se divertiam.
Em casa, as mães já tinham feito as filhoses em quantidades muito grandes para
poder satisfazer a gula dos mais novos, competindo para fazer a maior quantidade.
Era tradição. Chegado o dia era a entrada solene na Igreja onde o padre muito
bem paramentado aguardava os fiéis enquanto se ouviam cânticos próprios da
época. Seguia-se o sermão onde se explicava a origem da tradição e o seu valor
religioso. Ao lado via-se o presépio sempre muito bem construído e enfeitado.
Ainda hoje dá gosto lembrar. No final era tradição beijar o pé do Menino. Filas
para esse acto. Finda a cerimónia era caminhar para casa para um almoço
diferente. Mas pouco, porque não se vivia com a fartura que há hoje. Após a
refeição, os mais novos brincavam com os presentes, quando os havia. Nesse
tempo, quem queria brinquedos tinha de fazê-los. Eu nunca chegava a entender
como o Menino Jesus nascia em família tão pobre e em dia tão frio para salvar
os homens e vinha a morrer três meses depois já com trinta e três anos. Era
muito pouco tempo para tanto mistério. Por vergonha nunca pedi que mo
explicassem. Talvez ainda hoje não entenda muito bem. Durante esta quadra, por
não haver escola, tinha mais tempo para brincar com os meus irmãos e fazíamos
grandes bonecos de neve que se mantinham por vários dias, até que a chuva ou o
sol os derretesse. As árvores estavam lindas, cobertas de neve, e algumas
partiam com o peso enquanto os ribeiros congelavam e o gelo se formava sob a
terra dos caminhos fazendo um ruído próprio quando pisado. Tudo tão diferente
do natal que comemorei no ano de 1968 em que, em Fulacunda, após uma ceia tão
agradável quanto possível, nos foi servido o filme “O Homem das Pistolas de Ouro”
e, cinco minutos após fomos servidos de um ataque que provocou um rasto de
morte, feridos e destruição. O filme continuou a correr em sala vazia até que
cortaram a energia e tudo parou.
Mais tarde tentei recriar o Natal da minha meninice para o
servir aos meus filhos. Já não era possível. Tudo tinha mudado. Hoje, resta a
saudade. Tenham um bom NATAL.
Joaquim Caldeira"
(dezº2010)
A maioria de vós conhece-me muito bem. Não aceito muitos amigos de amigos porque sinto que não é para mim... quase todos os amigos do FB eu conheci em algum momento da minha vida... não são apenas um número.... mas se estiverem no meu Facebook é porque temos alguma ligação. Adoraria ver se ainda podemos conversar mais do que apenas gostos e escrever algo um para o outro.
Decidi participar de uma experiência chamada ′′ Encontro entre pão."
A ideia é ver quem lê publicações sem foto.
Estamos tão consumidos com tecnologia que esquecemos a coisa mais importante: boas amizades. Se ninguém estiver a ler esta mensagem, será uma pequena experiência social. Mas se acabares isto até ao fim, adoraria que comentasses numa palavra sobre nós. Por exemplo: um lugar, um objeto, um sentimento, uma pessoa, um momento em que te lembras de mim.
Então copia este texto e publica-o na tua página (não partilhes) e irei à tua página deixar uma palavra que me lembra de ti. Por favor, não comentem se não tiverem tempo para copiar o texto. Isto vai destruir a experiência. Vamos ver quem passou o seu tempo para ler e responder de acordo com a história comum fora do Facebook!
Joaquim Caldeira .
Amigo Caldeira. Excelente ideia. Já copiei e colei o teu texto. Vamos lá então ao conteúdo.
Para começar sabes que uma imagem vale mais que mil palavras por isso é tao importante nos pequenos textos do facebook. No blog tambem. Para te arreliar vou-te mandar uma imagem. Quantos às amizades fizemo-las sem dar por isso, criadas em ambiente dificil. Viemos embora e esquecemos tudo, mas nao todos, nem as tragédias. Ficaram em banho maria. E de repente, passados alguns anos, começámos a ter necessidade de nos procurarmos uns aos outros e assim nasceu "Amigos na guerra amigos oara sempre", como diz o nosso amigo José Justo . Nao nos reconhecemos no primeiro encontro pós ultramar, mais gordos,mais magros, com bigode, mas depois, passamos palavra e vieram mais cinco, mais cem ... e nasceu esta imensa familia. E é sempre uma alegria quando nos encontramos.
O lugar que a todos nos une é Tite na Guiné. Eras furriel e nós, uns furrieis, outros soldado, cabos, alferes.
Uma das Pessoas que nos liga é o capitao Paraiso Pinto. Contas o episódio que te sensibilizou, quando a tua companhia chegou a Tite, já noite. Estava ali um civil que prontamente vos orientou, alferes vão para ali, furrieis para acolá, soldados cabos para o outro lado. No dia seguinte procuraste saber quem tinha sido o civil que vos tinha ajudado e tiveste a surpresa de saber que era o capitão comandante da CCS. Mais tarde vieste a saber que ele faz anos no mesmo dia que tu.
Quanto ao sentimento que nos une, baseia-se nas tragedias humanas que se viveram em Tite. Mortos, Feridos, Amputados, desaparecidos, Prisioneiros de guerra são os nossos sentimentks que estao plasmados nesrts tragédias.
A chegada ao raiar do dia, dos nossos militares a Tite, depois da fuga de Bissassema, é inesquecivel.
Um abraco companheiro, que a gente se vá vendo, as tuas melhoras e que estejas bem junto dos teus.
Leandro Guedes
O Joaquim Caldeira, furriel da CCAÇ 2314, completa hoje mais um aniversário. Parabéns amigo, que contes muitos com saude.
Um grande abraço.
Leandro Guedes.
Conforme estava anunciado, saiu hoje no Correio da Manhã, a entrevista do nosso amigo Joaquim Caldeira, sobre factos relacionados em Tite, Bissassema e Nova Sintra. Obrigado companheiro pela tua disponibilidade para relatares mais um episódio da nossa guerra. Agradecidos também ao Correio da Manhã, à sua Jornalista D. Manuela Guerreiro e seus foto-Jornalistas.
Leandro Guedes.
Segundo informação do CORREIO DA MANHÃ, vai ser publicado no Jornal do próximo domingo, um relato do Joaquim Caldeira., furriel operacional da CCAÇ 2314.
Leandro Guedes
"Roubado" pelo Caldeira a:
José D'Abranches Leitão
-
Jorge Condorcet
Ontem, ao ver este grande amigo na Vila das Aves, lembrei-me
como seria interessante contar uma das milhares de peripécias que com ele
muitas e muitas gerações de estudantes e antigos estudantes , passaram com esta
figura incontornável da Academia de Coimbra.
Senhor de uma cultura vastíssima, possuí três licenciaturas
- Farmácia, Biologia, Letras. e frequentou o 4º ano de Medicina- e passou toda
a sua vida a dar aulas de matemática no "seu" Colégio no Avelar.
O Jorge, vai factualmente a todo o lado ver a Académica.
Vi-o já este ano, em Loulé, nas Aves, e sei que tem ido aos outros sítios, só
que não fica nos lugares por onde estou.
Mas vamos aos factos.
Corria os anos dourados de 60, e o Orfeão Académico, fez uma
digressão de quase seis meses aos EUA. Sei, porque mo disseram, que alguns
elementos do orfeão, tiveram que vender algumas relíquias para poderem
sustentar os viciozinhos inerentes a uma viagem destas, principalmente com este
tempo de estadia.
Ora, e para quem conhece o Condorcet, este tem uma relação
de ódio com o Inglês (Lingua). Aliás a qualquer País que vá - eu sou testemunha
disso, já que o acompanhei por duas vezes à África do Sul, a Macau, França,
Bélgica, Holanda, Luxemburgo, etc. etc. etc. só fala mesmo em Português. Diz
ele, e muito bem, que nenhum estrangeiro que vem a Portugal, começa magicamente
a falar Português.
Pois bem, nessa digressão aos EUA, os orfeonistas tinham que
comer sempre no mesmo restaurante, que tinha um contrato com a organização.
O Condorcet, e porque não falava Inglês, aprendeu por
"osmose" a dizer " Stack with Chip's".
O "desgraçado", andou a comer durante um mês bife
com batatas fritas.
Até que um dia, farto da mesma comida, e com uma boa dose de
colestrol no corpo, encheu-se de coragem e foi sozinho ao tal restaurante.
Claro que os Orfeonistas, desconfiando da "cena"
foram espiá-lo, sem que ele os visse.
Depararam-se com o Jorge a ter esta conversa com a empregada
de balcão:
- Ó menina (Tudo em Português!!!), hoje quero uma sopinha de
feijão.
Obviamente a menina não percebeu uma única palavra...
- I don't understand.
- Tá bem. Mas veja lá se me arranja uma sopinha, mas bem
quente!!!
A rapariga estava a entrar em "parafuso", quando o
Condorcet num laivo de genialidade, se lembrou de uma frase feita em Inglês.
- Do you speak English?
A menina disse aliviada:
- Yes. Of course I do!!!
- Então, por favor, continuou o Jorge em Português, dê-me
uma sopinha de feijão.
Mais "estórias" haverá concerteza para contar
deste ícone da nossa Coimbra e da nossa Académica.
Abração Jorge Condorcet, e
Viva a Académica!!!
In " Os Pardalitos do Choupal"
Joaquim Caldeira
BOM DIA.
Lembrei-me de que poderemos, nesta fase de confinamento,
felicitar cada um dos aniversariantes no dia do seu aniversário.
Para esse efeito, proponho-me fazer um aviso, por SMS, da
data em que ocorre cada evento. O resto é com cada um de vós
Apenas preciso de atualizar a minha base de dados com essas
datas.
Se vos parecer bem, por favor, basta que comuniquem o dia
para o meu nº 933 538 890, a vossa data de nascimento. Depois, eu farei o
resto.
Tenham uma boa semana
Grande abraço
Joaquim Caldeira
Parabéns Caldeira, que contes muitos mais anos, com saúde são os nossos votos.
Um grande abraço.
Leandro Guedes.
O nosso amigo Joaquim Caldeira, da CCAÇ 2314, enviou-nos as Memórias da CCAÇ 2314, da sua autoria. Este livro vai ser enviado por email em formato PDF, para os companheiros da CCS, Pelotão de Morteiros, Pelotão Daimler e CART 1743, cujos endereços eletrónicos fazem parte dos nossos registos.
Obrigado Caldeira. Parabéns pelo trabalho.
Leandro Guedes.
" O REBOUTA
Muito
alto e magro, embora dotado de boa constituição física, o Rebouta era um
soldado natural de Felgar, arredores de Moncorvo. Tinha necessidade de mostrar
que queria ser amigo de todos e esforçava-se por merecer a amizade de todos.
Mas era um amigo e eu agora que o diga, passados mais de trinta anos. Tinha
como missão municiar o morteiro que o Machado apontava com precisão e grande
mestria. O Machado, rapaz forte e bem constituído, natural de Larinho, também
de Moncorvo, ficou feliz por ter arranjado para municiador do seu morteiro um
homem seu conterrâneo, com quem viera a fazer grande e duradoira amizade que
ainda hoje perdura. Ambos eram mestres no que faziam e eu sabia que não
precisava de preocupar-me em dar-lhes instruções. Tiro do Machado, era tiro que
acertava. Granadas dentro do tubo nunca faltavam ao seu jeito porque o Rebouta
estava sempre atento às necessidades do seu apontador e sabia o momento ideal
para deixar cair a granada.
Assim
foi até ao dia 7 de junho – os mês dos Santos- só que do ano seguinte, 1969,
portanto. Era perto do meio-dia e o sol tinha raiado depois de uma valente
trovoada acompanhada de chuva intensa, daquela que abre rios onde antes era
monte. O cheiro da terra e tão doce. O calor já não era como durante os meses
de verão, inverno em Portugal. Eu estava de serviço ao piquete e tinha, entre outras
preocupações e tarefas, a de garantir que a pista de aterragem estivesse
desminada e a protecção de qualquer avião que quisesse ali aterrar. O dornier encarnado sobrevoou o quartel e
encaminhou-se para a pista de terra batida, ainda fresca da chuva mas sem
poeira e lá vou eu, de jipe, correndo para me certificar de que todos os
procedimentos de segurança estavam activados para a aterragem. Estávamos já em
FULACUNDA, povoação que encimava o nosso quartel onde tínhamos chegado quase um
ano antes. A sua população civil era de maioria Fula e gente boa era o que não faltava. Os soldados regalavam-se,
nas sua folgas a deitar-se pela tabanca, onde houvesse uma bajuda de mama
firmada que os retivesse.
A
picada que passava pelo meio da povoação até a pista estava muito esburacada e
a chuva que tinha caído ainda ajudara à sua deterioração. Eu cavalgava aquele
jipe sem dó, pois que não era meu e sabia que o meu amigo Almeida me ia
desculpar por qualquer estrago que lhe provocasse. Logo que pude aumentei a velocidade
e corri para o abrigo junto da porta de entrada da pista, donde verifiquei que
a segurança estava feita e vi o avião iniciar a descida. Logo que parou, guiei
até debaixo da sua asa e ajudei a abrir a porta do pequeno avião. Espanto meu.
Ri-me de contentamento. Gritei até. O Rebouta estava de volta, com um saco de
lona diferente dos que nos tinham sido dados antes. Sinal de progresso na
Manutenção. Abraço-o. Ajudo-o a descer do avião e, já no chão, vi que ele
coxeava. Abracei-o novamente e perguntei-lhe o que ele estava ali a fazer.
Voltei para a companhia! Ele também estava contente por me voltar a ver. Mas
estava também muito triste por não ter conseguido libertar-se da tropa. Ainda
por cima, mandaram-no para o mato. Quando um homem não tem sorte, furriel, nada
há a fazer. Trouxe-o para o quartel e fui com ele até à presença do capitão
Neves. Pedi-lhe que desse um impedimento fácil ao Rebouta que, afinal, apenas
tinha sido objecto de operação plástica ao calcanhar, com aplicação de prótese
e aí andava ele sem poder calçar botas. Coitado de quem tem azar ou não tem
padrinhos. E assim foi decidido, com a anuência do alferes Pio, meu comandante
de pelotão, que aceitou que o Rebouta passasse o resto da comissão como
ajudante de cozinheiro. Finda a comissão, regressou a Portugal, emigrou para
França onde trabalhou como pedreiro até que as dores lho permitiram. Quando já
mais não podia, regressou definitivamente a Portugal, criou os filhos com uma
esmerada educação e aguarda há seis anos que o estado português lhe faça a
justiça de lhe dar uma pensão que o ajude a comer a sopita até ao fim dos seus
dias. Ditosa Pátria que tanto demora a reconhecer a dívida que tem para com os
seus heróis.
Joaquim Caldeira - CCAÇ 2314"
AS PATRULHAS
Vão
saindo para a frente da caserna e coloquem-se em fila indiana, dizia eu naquela
madrugada ainda fria e cacimbada aos soldados, à medida que iam saindo da
caserna. Íamos pela primeira vez tomar contacto com o terreno, mais para uma
adaptação que para um confronto directo com o IN , coisa quem ninguém esperava
viesse a acontecer. Arma em posição de tiro, travada, carregador embutido, bala
na câmara, duas cartucheiras carregadas com dois carregadores cada, uma granada
de bazuca por cada homem e uma outra de morteiro também, faziam o equipamento
de cada homem. O Zé Carlos apenas levava a saca e uma G 3, embora preferisse
transportar a pistola. Eu é que não deixava.
O Zé
Carlos era um belo rapaz, ex - empregado numa farmácia para as bandas de
Águeda, no Continente. Bem falante mas muito modesto, vim a saber, mais tarde
que afinal apenas dissera que era farmacêutico para dar mais confiança aos
camaradas. Que o desculpasse pela mentira mas, afinal, era apenas um
trabalhador agrícola por conta de patrões que ia angariando a partir dos seus
catorze anos de idade e até ser engajado na tropa. Tivera sorte em ir para
enfermeiro. Sorte? Sorte tivéramos nós em o ter como tal. Para além de ser um
grande homem era também um excelente enfermeiro. Todos queríamos ser medicados
e tratados pelo Zé Carlos. Pobre homem veio a falecer pouco tempo depois de ter
acabado a tropa. E, para cúmulo do azar, em acidente de motorizada. Paz à sua
alma.
Mal
chegáramos ao aquartelamento, demos instruções aos soldados para irem tomar
banho antes de se deslocarem para o rancho bem merecido e fomos fazer o mesmo.
Eu era mesmo um tipo de sorte. O “máquinas”, alcunha dado ao Almeida, furriel
mecânico, era já naquela altura grande amigo meu e tinha uma grande preocupação
pelo meu bem-estar. Veio esperar-me à porta de armas e quis logo saber se
precisava de alguma coisa que ele pudesse fazer por mim. Grande amigo: noutras
ocasiões deu provas de o ser, tais como quando soube que eu tinha sido atingido
de insolação e, resoluto, pegou numa pistola minúscula, meteu-se num jipe e foi
buscar-me a cerca de quatro quilómetros de distância para que mais rapidamente
pudesse ser tratado. Até me ajudou a tomar banho, mesmo vestido. De outra vez,
ao saber que o meu pelotão, que eu comandava nesse dia, estava de regresso de
uma patrulha e que tivera contacto com o IN de que resultara um ferido e muita
confusão, não hesitou em ir no seu jipe e mandar um unimog buscar-nos ao
caminho, desde o pontão de Nova Sintra até ao quartel. Até se poderia dizer
que, além de grande amigo era também um arrojado militar. Mas dada a sua
função, nunca se envolveu em combates, ao contrário do Estanqueiro, furriel
vagomestre e que durante o ataque ao Gatongó deu mostras de grande valentia e
discernimento bem como de capacidades de comando. Foi ele que iniciou o assalto
de que resultou a destruição do aquartelamento IN durante operação em causa.
Por
essa altura já eu tinha uma lavadeira, mulher grande por ter já mais de
quarenta anos. Era a primeira das quatro mulheres do soldado de segunda linha,
alcunhado de quinhentos, por ser esse o seu número de ordem.
Tinha
ela grande brio em me lavar a roupa e passar a ferro as camisas que entregava
ao furrié juntamente com as calças, as meias e as cuecas. Era basicamente a
roupa que eu usava e era mais do que suficiente naquela altura. O calor fazia
com que não fosse necessário usar mais nada. A maior parte do tempo, quando no
quartel, andava em calções, tronco nu e chapéu de palha.
Os soldados tiveram preocupação em arranjar lavadeira nas
rapariguinhas mais novas, chamadas bajudas, por razões sobejamente conhecidas.
O diabo é que elas não conheciam contraceptivos que também não havia disponíveis
e, a única preocupação era evitar doenças venéreas. Que saudades desses tempos
em que eram desconhecidas outras doenças bem mais preocupantes e até mortais,
como hoje se conhecem.
Com
regularidade quase diária, embora a horas sempre desajustadas, lá se iam
fazendo umas patrulhas, umas operações e outros serviços, sem que nada houvesse
digno de registo. Diga-se: sem que houvesse feridos. E o tempo ia ajudando
porque, nos intervalos das saídas, faziam-se fotografias para a posteridade ou
quase, lanchavam-se grandes pratadas no Branco, assim alcunhado por ser o único
civil da mesma cor que se radicara com uma loja de comércio em geral por
aquelas paragens. Até a mulher, ainda muito nova e um mulherão, única branca
que se via por aquelas bandas, ajudava no negócio. Ela tinha artes de mostrar
aquilo que gostávamos de ver e o marido, - viemos a saber, mais tarde, que não
eram casados- deixava.
Joaquim Caldeira
CCAÇ 2314
"A Chegada
As bagagens estavam já amontoadas junto ao portaló
do convés superior na ânsia de nos libertamos daquela confusão que nos minava o
espírito. Será que a saída estava para breve? Ainda fomos passar a última
revista ao local onde dormimos durante nove dias na esperança de que algo nos
tivesse esquecido arrumar no saco ou mala onde guardámos as nossas poucas
coisas. Afinal, muito poucas. Tudo se resumia a duas mudas de roupa, tres
equipamentos de farda e aos objectos de higiene pessoal. Tudo muito pouco
porque o peso era factor determinante para o sucesso das nossas andanças.
Aqui estava eu, agora, cheio
de tácticas e psicologias aplicadas, dotado de todas as qualidades de
comandante e secção e desejoso de por em prática a minha autoridade e o meu
saber.
A
angústia continuou a apoderar-se de todos e era já visível no rosto de cada um
o ar de sofrimento pelo que a seguir se passaria. De repente, não me lembro já
como, ouvi dizer que o nosso destino era Tite. Onde fica? Como será? O sargento
Faria esteve lá na comissão anterior, ouvi comentar ao Alves. Corri para o
Faria a fim de obter informações. Homem habituado a estas andanças, o Faria
sorriu com a sua cara de maduro – teria já perto de quarenta anos- e disse: é
um lugar como os outros. Vai ver que será fácil. Que bom ter ouvido este homem
cheio de saber, grande amigo do amigo e excelente jogador de tudo. Onde
houvesse jogo, haveria um Faria risonho e bem disposto a passar o seu bocado de
tempo e até, porque não, ganhar alguma coisa aos incautos aprendizes de jogo.
Lembro-me de um dia ele me dizer que, enquanto nós pudéramos estudar para obter
alguma formação académica ele aprendeu a jogar para ganhar algum dinheiro
extra.
Chegara
a hora. Angustiado corri para o capitão Neves e quis saber o que ele pensava
sobre o local que nos fora designado. Limitou-se a dizer que já ouvira falar.
Era um bom sítio para nós ficarmos porque o sargento Faria já o tinha
informado. Boa. Finalmente pude tranquilizar-me e, logo que soubemos que iríamos
directos do barco para a barcaça que nos transportaria a Tite, fui informar os
meus subalternos de que na barcaça teríamos de ir sempre com a cabeça abaixo da
linha da amurada para não desafiarmos o “IN”. O que? Então corríamos riscos
antes de chegarmos ao aquartelamento? E onde estavam as armas para podermos
defender-nos e, sobretudo atacar? A guerra tem cada coisa. Então nós ainda não
tínhamos armas e já corríamos riscos? Cala-te. Nem será bom pensar em tal. Se
os soldados e os cabos pressentem os teus medos ficam desmoralizados e tu foste
preparado para lhes dar ânimo, não para os desmoralizar.
E lá carregamos as bagagens para a lancha, tendo depois seguido para o cais do Enxudé, local distante de sete ou oito quilómetros do quartel e situado na margem esquerda do rio Gêba e a uns quinze quilómetros de Bissau. Aí estava uma pequena unidade de infantaria que tinha por função guardar aquele cais, não fosse ele cair nas mãos do IN. A viagem pelo rio correu bem. Só fomos distraídos pelas metralhadoras pesadas que armavam aquela embarcação e em resposta a uns tiros vindos da margem direita do Rio. Baixem-se todos, gritava o primeiro-tenente, comandante da nau. E assim que fomos desembarcados, entrámos às pressas para umas viaturas que nos esperavam para nos conduzir a Tite.
Pelo
caminho até nem fomos mal tratados de todo. Só fomos atacados uma vez, junto à
tabanca de Fóia e, de imediato, defendidos por uns bravos que guardavam a
estrada durante a nossa passagem .Afinal aquela estrada era picada diariamente
à procura de minas e guardada por um pelotão que a patrulhava constantemente.
Era por ela que se fazia todo o abastecimento civil e militar de Tite.
Ao
longe, embora cada vez menos, íamos distinguindo já umas luzes. Era Tite.
Afinal Tite era uma terra. Até tinha luz eléctrica. Só depois de lá ter chegado
é que percebi que tais luzes eram só para iluminar o exterior.
A
chegada foi uma confusão. Como já era de noite, percebi que um capitão, muito
alto, dava ordens que eu não cheguei a ouvir. Veio, então, um furriel dizer que
os sargentos iriam com ele para a messe a fim de poderem jantar e, pelo
caminho, foi-nos dizendo que em caso de ataque deveríamos refugiar-nos no
abrigo que era ali ao lado.
Que
chatice. Então e os meus soldados iriam ficar sós? Como se iriam comportar? Tem
calma, disse o tal furriel. Eles vão arrumar as bagagens na caserna e de
seguida jantar no coberto das cozinhas que era já ali ao lado. Mas eu pouco via
por estar escuro, pois não haver luz dentro do quartel e também porque estava
desorientado.
Salta
“periquito”.A todo o tempo íamos ouvindo dizer este refrão e só mais tarde
fomos informados de que “periquito” era o alcunha dado ao novato na guerra da
guiné. Estas aves eram abundantes naquelas paragens de África e o símbolo dos
novatos.
Aos
poucos fui-me deslumbrando com o à-vontade com que os meus camaradas mais
velhos se movimentavas e riam da situação, gozavam até. Eram homens já com
alguma experiência de guerra e isso até se podia ver pela cor da sua pele, já
crestada e pelas fardas desbotadas. Já tinham uma boa parte da comissão
cumprida. Invejei-os por isso.
BUMMMM.
BUMMMM. BUMMMM. Que é isto? Corram para os abrigos! Por aqui. Não tenham medo;
é a sessão de boas vindas e passa já. E passou: foram apenas alguns tiros de
armas automáticas e tres ou quatro tiros de canhão para dar as boas vindas aos
homens de C CAÇ 2314. Porra. Que merda de guerra é esta. Ainda nem temos armas
distribuidas e já fomos atacados três vezes num dia!
Veio
finalmente a hora de ir descansar, após ter passado uma revista ligeira pela
caserna dos soldados que já montavam banca para a batota e riam das
brincadeiras descuidadas com que iriam passar a primeira noite. Fiquei contente
por eles. Afinal éramos ainda umas crianças grandes e vivíamos de forma descuidada
mesmo em situação de guerra.
A
caserna dos soldados era feita de blocos de cimento encimados por cobertura de
zinco para protecção da chuva. Qual chuva? Estava era um calor danado. Era
verão naquela parte do globo. O zinco da cobertura fazia ainda mais calor e os
soldados preferiam passar a maior parte do tempo cá fora para saborear o
fresco. E também porque naquela povoação havia civis e já por ali passavam
alguns curiosos de ver os “piras”, diminuitivo de “piriquitos” e rir das suas
fardas ainda coloridas por serem novas e dos seus modos quase envergonhados por
estarem em situação tão incómoda. A intervalos, via-se passar uma ou outra
“bajuda” com os seus quinze anos verdes mas já maliciosos a querer saber quem a
queria para lavadeira. Chiça. Nem de noite esta gente descansa. Bem, deixemos
para amanhã e depois se verá em que param as coisas. E assim fiz. Fui dormir
numa cama sem mosquiteiro e toda a noite me sacudi para afugentar os mosquitos
que me perseguiam com aquele ruido de avião a jacto que incomoda tanto como a
sua picada.
Ainda
assim, dormi bem porque acordei bem disposto e cheio de fome. A messe era mesmo
ao lado do quarto, facilitando as coisas. Café com pão e manteiga. Ou
margarina? Já não me lembro. Não importa. O pão até era muito gostoso e assim
continuou a ser enquanto por lá estive. Estadia curta e cheia de peripécias.
Joaquim Caldeira - CCAÇ 2314"