Batalhão de Artilharia 1914


“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma”


(Do Padre António Vieira, no "Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma", na Capela Real, ano 1669. Lembrado pelo ex-furriel milº Patoleia Mendes, dirigido-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar.).

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"Ó gentes do meu Batalhão, agora é que eu percebi, esta amizade que sinto, foi de vós que a recebi…"

(José Justo)

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“Ninguém desce vivo duma cruz!...”

"Amigo é aquele que na guerra, nos defende duma bala com o seu próprio corpo"

António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente

referindo-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar

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Eles,
Fizeram guerra sem saber a quem, morreram nela sem saber por quê..., então, por prémio ao menos se lhes dê, justa memória a projectar no além...

Jaime Umbelino, 2002 – in Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar, em Torres Vedras
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“Aos Combatentes que no Entroncamento da vida, encontraram os Caminhos da Pátria”

Frase inscrita no Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar, no Entroncamento.

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Sem fanfarra e sem lenços a acenar, soa a sirene do navio para o regresso à Metrópole. Os que partem não são os mesmos homens de outrora, a guerra tornou-os diferentes…

Pica Sinos, no 30º almoço anual, no Entroncamento, em 2019
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"Tite é uma memória em ruínas, que se vai extinguindo á medida que cada um de nós partir para “outra comissão” e quando isso nos acontecer a todos, seremos, nós e Tite, uma memória que apenas existirá, na melhor das hipóteses, nas páginas da história."

Francisco Silva e Floriano Rodrigues - CCAÇ 2314


Batalhão de Artilharia 1914, Tite/Guiné

Não voltaram todos… com lágrimas que não se veem, com choro que não se ouve… Aqui estamos, em sentido e silenciosos, com Eles, prestando-Lhes a nossa Homenagem.

Ponte de Lima, Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar


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sábado, 2 de maio de 2026

Parabéns Joaquim Caldeira







 Parabéns amigo Joaquim Caldeira neste dia do teu aniversário.

Que tenhas muita saúde e boa disposição.

Passa um excelente dia junto dos teus familiares e amigos.

Um grande abraço.

Leandro Guedes.







sexta-feira, 2 de maio de 2025

Parabéns Joaquim Caldeira

 O nosso amigo Joaquim Caldeira, também completa hoje mais um aniversario.

Muitos parabéns amigo, muita saude e bem estar.

As melhoras dos doentes.

Um abraço.

Leandro Guedes.










quinta-feira, 2 de maio de 2024

O Soldado Castro

 Após a nossa conversa de hoje e depois de termos falado do Dr. Paraíso Pinto, junto o texto do dia em que eu descrevo o meu aniversário em 2 de maio de 1968, data em que fui informado de que tinha sido punido pela perda de um soldado em combate e, por esso motivo, impedido de poder gozar férias até maio de 1969.

Sorte que o então capitão Neves patrocinou a festa do meu aniversário com uma prenda e a leitura da ordem do dia com a minha punição.

Um abraço, meu caro.

Joaquim Caldeira                                                                                                                                                          -------------------

“O SOLDADO CASTRO

Nunca percebi porque sendo eu apenas um simples furriel, menos que sargento, tivesse que assumir funções que pertenceriam a oficiais ou, na sua ausência, a sargentos.

Em mais um regresso de Nova Sintra, comandando uma força de cerca de 30 homens, na qual se incluía o soldado Castro que até era da secção do sargento Faria, também integrante da força, sofremos uma emboscada. Mas antes o Faria tinha oferecido o cantil de aguardente ao Castro e, este, não se fazendo rogado, bebeu talvez em quantidade razoável. Ficou grogue e, durante o tiroteio, resguardou-se debaixo de umas raízes de embondeiro e por lá adormeceu. Tropa fandanga.

No final da emboscada, reunido o pessoal, certifiquei-me de que não tinha havido danos pessoais e, após comunicar com a sede do batalhão, certifiquei-me de estávamos todos e mandei prosseguir. Passadas duas horas fui informado de que faltava o Castro. Pensei logo o pior. Que talvez estivesse morto ou ferido e que, por eu nem sequer o conhecer - estávamos há muito pouco tempo na Guiné e ele nem pertencia à minha unidade - não tinha dado pela sua falta. O Faria também não. Nova comunicação para o batalhão a informar da falta de um elemento. Recebo ordens para prosseguir e informaram que pessoal da companhia de Nova Sintra, por estar mais perto do local da emboscada, iria procurá-lo. Mas não o encontrou. Quando acordou, ainda sob o efeito da cachaça, dando pela nossa falta, caminhou errante para Nova Sintra. Chegou lá no dia seguinte. Foi um heli buscá-lo para Tite. E eu tive um processo disciplinar que resultou em castigo de dois dias de detenção que vim a cumprir fora do quartel, a caminho de Bissássema.

Como não podia deixar de ser, estes processos são demorados e só vim a saber da minha punição uns meses depois. Precisamente no dia 2 de Maio, data do meu aniversário. Até foi giro. O capitão presenteou-me com uma lembrança, um álbum para fotografias e a nota de culpa.

Quanto ao Castro, por remorso tentou dar um tiro na boca e eu fui chamado para o impedir. Não me foi difícil convencer do seu erro, mas sei que ficou marcado para sempre.

Uns anos mais tarde, fui chamado para ser sua testemunha num processo em que pedia uma pensão de reforma, que lhe foi concedida por incapacidade motivada por stress de guerra. Perdi-lhe o rasto, mas gostava de reencontrá-lo.”

 


Parabéns ao furriel Joaquim Caldeira, da CCAÇ 2314

Mais um aniversário meu caro Caldeira.
Que contes muitos com saúde junto dos teus familiares e amigos.
Muitos parabéns.
Um grande abraço.
Que tenhas um excelente dia.
Leandro Guedes.




 

terça-feira, 26 de março de 2024

O Furriel Leite da CCAÇ 2314

 C.CAÇ.2314.

Na época de Páscoa pareceu-me boa ideia fazer a evocação de um amigo cimentado no período mais difícil da vida de um jovem a GUERRA.

E esta amizade só foi quebrada perlka partida para a última missão que lhe foi confiada.

O FURRIEL LEITE

Estávamos nos finais de 1967 e, à entrada do quartel de Tomar, cruzei-me com o João que trazia um braço ao peito e vinha abatido. Mal nos conhecíamos e não nos vía-mos desde os tempos da recruta, muitos meses antes. Nem sabia o seu nome tal como ele não saberia o meu. Satisfez a minha curiosidade dizendo que se chamava João Leite e que tinha tido um acidente…

Despedimo-nos nesse dia e só voltámos a rever-nos no seguinte, na caserna que nos foi destinada. Ficámos a saber que o nosso destino era comum. Íamos formar companhia para depois seguirmos para o ultramar, mas nem sabíamos ainda para onde.

Não sabíamos que os dois anos seguintes iriam ser muito cheios de emoções fortes, perigos, mas também de solidariedade só possível de construir nos momentos mais difíceis e de grande perigo. E vim a conhecer melhor o Leite e toda a equipa com quem fizemos grandes amizades.

Passarei a designá-lo por Leite, pois era o nome que usávamos por lá e mais tarde, já no fim da guerra, quando nos encontrávamos por ocasião dos convívios.

Afinal, era um homem diferente do que conheci à entrada do quartel, em Tomar. Era folgazão, brincalhão, sempre de boa disposição e muito bem-humorado.

Cedo demos conta de que se tratava de homem determinado, sabia o que queria, como queria e quando queria. Quis o destino que tivéssemos de viver o desastre de Bissássema onde ele, mesmo na linha da frente por onde o IN pretendia repetir o assalto, tal como fizera uns dias antes e se

apoderara de armamento, equipamento e prisioneiros, soube infligir a maior derrota sofrida pelo IN durante toda a guerra que travou com o Exército português. Esta batalha nem consta da história de guerra do PAIGC.

Outros desastres aconteceram nas nossas vidas e, em todos, o Leite teve participação com vantagens para o nosso lado.

Desgostoso com o conformismo que reinava na companhia, decidiu formar o seu próprio grupo indo buscar os melhores de entre os melhores. E assim nasceu o grupo “OS BRUTOS” que fizeram história deixando um rasto de medo nos grupos do IN. Estavam sempre na linha da frente. Tive o privilégio de os comandar nas ausências do Leite. Eram o escol da companhia. E ajudaram o seu comandante, o Leite, na conquista de uma condecoração justa e merecida, só atribuída aos bons. Uma “CRUZ DE GUERRA”.

Mas nem sempre foi fácil a vida do grupo. Tiveram as suas horas más. Entre outras, talvez a pior, o acidente do Viriato Lopes. E assim se passaram dois anos de uma convivência fraterna, só possível em teatros de guerra. Fizemos amizades para a vida. Ficaram as saudades dos amigos e de algumas, muitas vivências.

Só voltei a ver o Leite passados alguns anos, por ocasião dos convívios a que ele não queria faltar, mesmo vindo de tão longe.

Por fim, soube da sua doença. Fui dar-lhe o meu abraço numa das suas vindas a Lisboa para tratamentos. A doença venceu o homem. Mas não venceu o marido, o pai, o profissional bem realizado, o amigo e o camarada de quem todos sentimos saudades.

O Leite ainda vive em nós. Até sempre, companheiro.

OS BRUTOS

Crachá de os BRUTOS

Não sei em que altura da comissão foi decidida a sua criação. Era um pelotão com a missão de ir efetuar os golpes de mão e ao assalto a posições mais fortificadas para abrir as hostilidades e facilitar a nossa missão.

Era constituído por um grupo de voluntários que desfalcaram as secções no seu desempenho, mas facilitavam o assalto final, depois de terem feito o trabalho mais sujo. O seu comandante era o furriel Leite, açoriano de São Miguel que conheci ainda em Tomar. Na sua ausência, quer por férias ou outros motivos, cabia a mim e ao Bastos o seu comando.

Fizemos muitas emboscadas em locais inimagináveis, mas fizeram muitas mais, sempre com grande "ronco",captura de armas e inimigos, nos sítios mais improváveis. Tinham a seu favor o reduzido número e atuavam como um grupo de comandos.

Tal foi a sua notoriedade que no final da comissão, o Leite foi proposto para uma condecoração e foi-lhe atribuída uma CRUZ de GUERRA que veio a receber, garbosamente, no dia da raça de 1970.

Está doente. Tem passado algo mal. Força, camarada. Os Brutos estão contigo

O Leite já partiu para a sua última missão. Adeus, amigo







domingo, 11 de fevereiro de 2024

CCAÇ 2314 - RECORDAÇÕES - 9 de Fevereiro de 1968.

 C.CAÇ.2314

RECORDAÇÕES.

Apenas para recordar aos ousados de que passam hoje 56 anos que, pelas 22 horas, foi travada a maior batalha de Bissássema, e que durante cerca de 1 hora, após grande carnificina do lado IN e vários feridos nas NT, esgotadas as nossas munições, tendo originado o medo na NT e alguns se prepararam para fugir, via mata e atravessando o rio, em direção a Tite . Coube a mim, após uma bofetada do capitão, ir convencer os fugitivos do risco a que iriam sujeitar-se e também a que iriam expor-nos após termos sido desfalcados com a sua ausência.

Cerca das 10 horas da manhã, desse dia, passaram dois helis que se ocuparam a filmar o recinto e as redondezas. Ainda pensei que poisassem para nos reabastecerem. Mas foram embora sem dizerem bom dia.

Estupidamente, fomos remuniciados 48 horas mais tarde, por uma coluna composta de nativos e tropa, comandados pelo cabo escrita e pelo  cabo mecânico, mal armados e perdidos na mata, quando já todos equacionávamos a fuga em massa.

Abaixo, os buracos nossos abrigos.

Joaquim Caldeira.

Obrigado Caldeira, por teres trazido  esta nossa memoria. É um documento historico.



terça-feira, 2 de maio de 2023

Parabéns Joaquim Caldeira

 O nosso companheiro Joaquim Caldeira, furriel da CCAÇ 2314, completa hoje mais um aniversário.

Muitos parabéns amigo e votos de rápidas melhoras.

Um abraço e um dia muito bem passado.

Leandro Guedes.





quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

O Natal da minha infância - pelo Joaquim Caldeira

 "O Natal da minha infância

Recordo que havia sempre muito frio, por vezes muita neve e, invariavelmente, gelo que se acumulava nos beirais das casas e nos caminhos e riachos. A igreja matriz era devidamente enfeitada para poder transmitir aos fiéis uma onda de misticismo condicente com a época. Passava-se isto na aldeia de Louriçal do Campo. Para quem não souber onde fica, eu ajudo. É na base da serra da Gardunha, na vertente sul. Durante cerca de uma semana que antecedia o dia de Natal, havia um grupo de rapazes mais velhos do que eu, juntamente com homens que se voluntariavam para arrancar o cepo da maior árvore que houvesse nas redondezes e carregá-lo para o adro da igreja a fim de, na véspera, se poder fazer o braseiro que arderia durante vários dias até se extinguir ou a chuva o apagar. Durante a fase em que ardia, era frequente ver rapazes, - raparigas não, - a atiçar o lume ou aquecer pés e mãos, enquanto se divertiam. Em casa, as mães já tinham feito as filhoses em quantidades muito grandes para poder satisfazer a gula dos mais novos, competindo para fazer a maior quantidade. Era tradição. Chegado o dia era a entrada solene na Igreja onde o padre muito bem paramentado aguardava os fiéis enquanto se ouviam cânticos próprios da época. Seguia-se o sermão onde se explicava a origem da tradição e o seu valor religioso. Ao lado via-se o presépio sempre muito bem construído e enfeitado. Ainda hoje dá gosto lembrar. No final era tradição beijar o pé do Menino. Filas para esse acto. Finda a cerimónia era caminhar para casa para um almoço diferente. Mas pouco, porque não se vivia com a fartura que há hoje. Após a refeição, os mais novos brincavam com os presentes, quando os havia. Nesse tempo, quem queria brinquedos tinha de fazê-los. Eu nunca chegava a entender como o Menino Jesus nascia em família tão pobre e em dia tão frio para salvar os homens e vinha a morrer três meses depois já com trinta e três anos. Era muito pouco tempo para tanto mistério. Por vergonha nunca pedi que mo explicassem. Talvez ainda hoje não entenda muito bem. Durante esta quadra, por não haver escola, tinha mais tempo para brincar com os meus irmãos e fazíamos grandes bonecos de neve que se mantinham por vários dias, até que a chuva ou o sol os derretesse. As árvores estavam lindas, cobertas de neve, e algumas partiam com o peso enquanto os ribeiros congelavam e o gelo se formava sob a terra dos caminhos fazendo um ruído próprio quando pisado. Tudo tão diferente do natal que comemorei no ano de 1968 em que, em Fulacunda, após uma ceia tão agradável quanto possível, nos foi servido o filme “O Homem das Pistolas de Ouro” e, cinco minutos após fomos servidos de um ataque que provocou um rasto de morte, feridos e destruição. O filme continuou a correr em sala vazia até que cortaram a energia e tudo parou.

Mais tarde tentei recriar o Natal da minha meninice para o servir aos meus filhos. Já não era possível. Tudo tinha mudado. Hoje, resta a saudade. Tenham um bom NATAL.

Joaquim Caldeira"

(dezº2010)



terça-feira, 23 de agosto de 2022

Um desafio do Joaquim Caldeira

 A maioria de vós conhece-me muito bem. Não aceito muitos amigos de amigos porque sinto que não é para mim... quase todos os amigos do FB eu conheci em algum momento da minha vida... não são apenas um número.... mas se estiverem no meu Facebook é porque temos alguma ligação. Adoraria ver se ainda podemos conversar mais do que apenas gostos e escrever algo um para o outro.

Decidi participar de uma experiência chamada ′′ Encontro entre pão."

A ideia é ver quem lê publicações sem foto.

Estamos tão consumidos com tecnologia que esquecemos a coisa mais importante: boas amizades. Se ninguém estiver a ler esta mensagem, será uma pequena experiência social. Mas se acabares isto até ao fim, adoraria que comentasses numa palavra sobre nós. Por exemplo: um lugar, um objeto, um sentimento, uma pessoa, um momento em que te lembras de mim.

Então copia este texto e publica-o na tua página (não partilhes) e irei à tua página deixar uma palavra que me lembra de ti. Por favor, não comentem se não tiverem tempo para copiar o texto. Isto vai destruir a experiência. Vamos ver quem passou o seu tempo para ler e responder de acordo com a história comum fora do Facebook!

Joaquim Caldeira .





Amigo Caldeira. Excelente ideia. Já copiei e colei o teu texto. Vamos lá então ao conteúdo.

Para começar sabes que uma imagem vale mais que mil palavras por isso é tao importante nos pequenos textos do facebook. No blog tambem. Para te arreliar vou-te mandar uma imagem. Quantos às amizades fizemo-las sem dar por isso, criadas em ambiente dificil. Viemos embora e esquecemos tudo, mas nao todos, nem as tragédias. Ficaram em banho maria. E de repente, passados alguns anos, começámos a ter necessidade de nos procurarmos uns aos outros e assim nasceu "Amigos na guerra amigos oara sempre", como diz o nosso amigo José Justo . Nao nos reconhecemos no primeiro encontro pós ultramar, mais gordos,mais magros, com bigode,  mas depois, passamos palavra e vieram mais cinco, mais cem ... e nasceu esta imensa familia. E é sempre uma alegria quando nos encontramos.

O lugar que a todos nos une é  Tite na Guiné. Eras furriel e nós,  uns furrieis, outros soldado, cabos, alferes. 

Uma das Pessoas que nos liga é o capitao Paraiso Pinto. Contas o episódio que te sensibilizou, quando a tua companhia chegou a Tite, já noite. Estava ali um civil que prontamente vos orientou, alferes vão para ali, furrieis para acolá,  soldados  cabos para o outro lado. No dia seguinte procuraste saber quem tinha sido o civil que vos tinha ajudado e tiveste a surpresa de saber que era o capitão comandante da CCS. Mais tarde vieste a saber que ele faz anos no mesmo dia que tu. 

Quanto ao sentimento que nos une, baseia-se nas tragedias humanas que se viveram em Tite. Mortos, Feridos, Amputados, desaparecidos, Prisioneiros de guerra são os nossos sentimentks que estao plasmados nesrts tragédias. 

A chegada ao raiar do dia, dos nossos militares a Tite, depois da fuga de Bissassema, é inesquecivel.

Um abraco companheiro, que a gente se vá vendo, as tuas melhoras e que estejas bem junto dos teus.


Leandro Guedes 

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Joaquim Caldeira completa hoje mais um aniversário

 O Joaquim Caldeira, furriel da CCAÇ 2314, completa hoje mais um aniversário. Parabéns amigo, que contes muitos com saude.

Um grande abraço.

Leandro Guedes.




domingo, 20 de fevereiro de 2022

A entrevista do Joaquim Caldeira, ao Correio da Manhã.

 Conforme estava anunciado, saiu hoje no Correio da Manhã, a entrevista do nosso amigo Joaquim Caldeira, sobre factos relacionados em Tite, Bissassema e Nova Sintra. Obrigado companheiro pela tua disponibilidade para relatares mais um episódio da nossa guerra. Agradecidos também  ao Correio da Manhã, à sua Jornalista D. Manuela Guerreiro e seus foto-Jornalistas.

Leandro Guedes.




sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Correio da Manhã - o Joaquim Caldeira dá uma entrevista.

 Segundo informação do CORREIO  DA MANHÃ, vai ser publicado no Jornal do próximo domingo, um relato do  Joaquim Caldeira., furriel operacional da CCAÇ 2314.

Leandro Guedes





quinta-feira, 2 de setembro de 2021

De Coimbra e da Académica

 

Joaquim Caldeira, CCAÇ 2314

"Roubado" pelo Caldeira a:

José D'Abranches Leitão

-

Jorge Condorcet

Ontem, ao ver este grande amigo na Vila das Aves, lembrei-me como seria interessante contar uma das milhares de peripécias que com ele muitas e muitas gerações de estudantes e antigos estudantes , passaram com esta figura incontornável da Academia de Coimbra.

Senhor de uma cultura vastíssima, possuí três licenciaturas - Farmácia, Biologia, Letras. e frequentou o 4º ano de Medicina- e passou toda a sua vida a dar aulas de matemática no "seu" Colégio no Avelar.

O Jorge, vai factualmente a todo o lado ver a Académica. Vi-o já este ano, em Loulé, nas Aves, e sei que tem ido aos outros sítios, só que não fica nos lugares por onde estou.

Mas vamos aos factos.

Corria os anos dourados de 60, e o Orfeão Académico, fez uma digressão de quase seis meses aos EUA. Sei, porque mo disseram, que alguns elementos do orfeão, tiveram que vender algumas relíquias para poderem sustentar os viciozinhos inerentes a uma viagem destas, principalmente com este tempo de estadia.

Ora, e para quem conhece o Condorcet, este tem uma relação de ódio com o Inglês (Lingua). Aliás a qualquer País que vá - eu sou testemunha disso, já que o acompanhei por duas vezes à África do Sul, a Macau, França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, etc. etc. etc. só fala mesmo em Português. Diz ele, e muito bem, que nenhum estrangeiro que vem a Portugal, começa magicamente a falar Português.

Pois bem, nessa digressão aos EUA, os orfeonistas tinham que comer sempre no mesmo restaurante, que tinha um contrato com a organização.

O Condorcet, e porque não falava Inglês, aprendeu por "osmose" a dizer " Stack with Chip's".

O "desgraçado", andou a comer durante um mês bife com batatas fritas.

Até que um dia, farto da mesma comida, e com uma boa dose de colestrol no corpo, encheu-se de coragem e foi sozinho ao tal restaurante.

Claro que os Orfeonistas, desconfiando da "cena" foram espiá-lo, sem que ele os visse.

Depararam-se com o Jorge a ter esta conversa com a empregada de balcão:

- Ó menina (Tudo em Português!!!), hoje quero uma sopinha de feijão.

Obviamente a menina não percebeu uma única palavra...

- I don't understand.

- Tá bem. Mas veja lá se me arranja uma sopinha, mas bem quente!!!

A rapariga estava a entrar em "parafuso", quando o Condorcet num laivo de genialidade, se lembrou de uma frase feita em Inglês.

- Do you speak English?

A menina disse aliviada:

- Yes. Of course I do!!!

- Então, por favor, continuou o Jorge em Português, dê-me uma sopinha de feijão.

Mais "estórias" haverá concerteza para contar deste ícone da nossa Coimbra e da nossa Académica.

Abração Jorge Condorcet, e

Viva a Académica!!!

In " Os Pardalitos do Choupal"

Joaquim Caldeira

segunda-feira, 7 de junho de 2021

CCAÇ 2314

 BOM DIA.

ESPECIAL PARA OS COMPANHEIROS DA C.CAÇ.2314.

Lembrei-me de que poderemos, nesta fase de confinamento, felicitar cada um dos aniversariantes no dia do seu aniversário.

Para esse efeito, proponho-me fazer um aviso, por SMS, da data em que ocorre cada evento. O resto é com cada um de vós

Apenas preciso de atualizar a minha base de dados com essas datas.

Se vos parecer bem, por favor, basta que comuniquem o dia para o meu nº 933 538 890, a vossa data de nascimento. Depois, eu farei o resto.

Tenham uma boa semana

Grande abraço

Joaquim Caldeira


domingo, 2 de maio de 2021

Parabéns Joaquim Caldeira

 Parabéns Caldeira, que contes muitos mais anos, com saúde são os nossos votos.

Um grande abraço.

Leandro Guedes.




quarta-feira, 10 de março de 2021

As Memórias da CCAÇ 2314 - pelo Joaquim Caldeira

O nosso amigo Joaquim Caldeira, da CCAÇ 2314, enviou-nos as Memórias da CCAÇ 2314, da sua autoria. Este livro vai ser enviado por email em formato PDF, para os companheiros da CCS, Pelotão de Morteiros, Pelotão Daimler e CART 1743, cujos endereços eletrónicos fazem parte dos nossos registos.

Obrigado Caldeira. Parabéns pelo trabalho.

Leandro Guedes.




quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Presepios em 2020 - do Joaquim Caldeira.

Natais da minha casa. 

Votos de feliz Natal ao Povo de Tite.

Joaquim Caldeira.


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

O Rebouta

" O REBOUTA

       

            Muito alto e magro, embora dotado de boa constituição física, o Rebouta era um soldado natural de Felgar, arredores de Moncorvo. Tinha necessidade de mostrar que queria ser amigo de todos e esforçava-se por merecer a amizade de todos. Mas era um amigo e eu agora que o diga, passados mais de trinta anos. Tinha como missão municiar o morteiro que o Machado apontava com precisão e grande mestria. O Machado, rapaz forte e bem constituído, natural de Larinho, também de Moncorvo, ficou feliz por ter arranjado para municiador do seu morteiro um homem seu conterrâneo, com quem viera a fazer grande e duradoira amizade que ainda hoje perdura. Ambos eram mestres no que faziam e eu sabia que não precisava de preocupar-me em dar-lhes instruções. Tiro do Machado, era tiro que acertava. Granadas dentro do tubo nunca faltavam ao seu jeito porque o Rebouta estava sempre atento às necessidades do seu apontador e sabia o momento ideal para deixar cair a granada.


            Naquele fatídico dia 31 de Janeiro, corria o ano de 1968, cerca das 16 horas, durante uma operação que tinha por missão iniciar preparativos para construção do futuro quartel de Bissássema, a companhia, comandada pelo capitão Neves, caiu numa emboscada e, debaixo de tiros do IN, de roquete e de canhão e rajadas de metralhadora ligeira, responde com um fogo cerrado das nossas armas e consegue por em debandada o grupo IN que nos atacara. Feridos do IN, não constam. Ao meu lado, durante a refrega, cai o Rebouta e rebola-se como pode para debaixo de umas raízes a fim de poder abrigar-se enquanto uma dor lancinante lhe dilacera todo o pé e parte da perna esquerdos. Gritei para o Zé Carlos que heroicamente se dirigiu para o improvisado abrigo do Rebouta e ambos ajudámos a descalçar-lhe a bota para se iniciar o seu tratamento. Credo! Tinha ficado sem o calcanhar, levado por estilhaço de granada de canhão sem recuo. Tratado como soube e pôde, pelo Zé Carlos que lhe fez um garrote na perna para evitar hemorragia e, bem ligado, havia que o carregar até que pudesse chegar ao quartel. Qual quê? Chamem já o helicóptero, gritei. Para que é que eles servem? E, assim, lá se foi o nosso primeiro ferido, ainda por cima um dos meus melhores homens. Fiquei em choque. Que mal teria eu feito para merecer tal coisa. Eu? Então o mal maior nem sequer foi meu. O pobre coitado é que foi ferido e eu estava a lastimar-me! Burro é o que eu sou. Em chegando ao quartel vou tentar lembrar-me de rezar para que ele não esteja muito ferido e possa curar-se rapidamente. Mas aproveitei o silêncio que se fez entretanto e rezei mesmo ali. Tinha-me despedido dele, pensando que nunca mais saberia notícias suas nem voltaria a vê-lo. 

            Assim foi até ao dia 7 de junho – os mês dos Santos- só que do ano seguinte, 1969, portanto. Era perto do meio-dia e o sol tinha raiado depois de uma valente trovoada acompanhada de chuva intensa, daquela que abre rios onde antes era monte. O cheiro da terra e tão doce. O calor já não era como durante os meses de verão, inverno em Portugal. Eu estava de serviço ao piquete e tinha, entre outras preocupações e tarefas, a de garantir que a pista de aterragem estivesse desminada e a protecção de qualquer avião que quisesse ali aterrar. O dornier encarnado sobrevoou o quartel e encaminhou-se para a pista de terra batida, ainda fresca da chuva mas sem poeira e lá vou eu, de jipe, correndo para me certificar de que todos os procedimentos de segurança estavam activados para a aterragem. Estávamos já em FULACUNDA, povoação que encimava o nosso quartel onde tínhamos chegado quase um ano antes. A sua população civil era de maioria Fula e gente boa era o que não faltava. Os soldados regalavam-se, nas sua folgas a deitar-se pela tabanca, onde houvesse uma bajuda de mama firmada que os retivesse.

            A picada que passava pelo meio da povoação até a pista estava muito esburacada e a chuva que tinha caído ainda ajudara à sua deterioração. Eu cavalgava aquele jipe sem dó, pois que não era meu e sabia que o meu amigo Almeida me ia desculpar por qualquer estrago que lhe provocasse. Logo que pude aumentei a velocidade e corri para o abrigo junto da porta de entrada da pista, donde verifiquei que a segurança estava feita e vi o avião iniciar a descida. Logo que parou, guiei até debaixo da sua asa e ajudei a abrir a porta do pequeno avião. Espanto meu. Ri-me de contentamento. Gritei até. O Rebouta estava de volta, com um saco de lona diferente dos que nos tinham sido dados antes. Sinal de progresso na Manutenção. Abraço-o. Ajudo-o a descer do avião e, já no chão, vi que ele coxeava. Abracei-o novamente e perguntei-lhe o que ele estava ali a fazer. Voltei para a companhia! Ele também estava contente por me voltar a ver. Mas estava também muito triste por não ter conseguido libertar-se da tropa. Ainda por cima, mandaram-no para o mato. Quando um homem não tem sorte, furriel, nada há a fazer. Trouxe-o para o quartel e fui com ele até à presença do capitão Neves. Pedi-lhe que desse um impedimento fácil ao Rebouta que, afinal, apenas tinha sido objecto de operação plástica ao calcanhar, com aplicação de prótese e aí andava ele sem poder calçar botas. Coitado de quem tem azar ou não tem padrinhos. E assim foi decidido, com a anuência do alferes Pio, meu comandante de pelotão, que aceitou que o Rebouta passasse o resto da comissão como ajudante de cozinheiro. Finda a comissão, regressou a Portugal, emigrou para França onde trabalhou como pedreiro até que as dores lho permitiram. Quando já mais não podia, regressou definitivamente a Portugal, criou os filhos com uma esmerada educação e aguarda há seis anos que o estado português lhe faça a justiça de lhe dar uma pensão que o ajude a comer a sopita até ao fim dos seus dias. Ditosa Pátria que tanto demora a reconhecer a dívida que tem para com os seus heróis.

Joaquim Caldeira - CCAÇ 2314"

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

As Patrulhas

 AS PATRULHAS

                Vão saindo para a frente da caserna e coloquem-se em fila indiana, dizia eu naquela madrugada ainda fria e cacimbada aos soldados, à medida que iam saindo da caserna. Íamos pela primeira vez tomar contacto com o terreno, mais para uma adaptação que para um confronto directo com o IN , coisa quem ninguém esperava viesse a acontecer. Arma em posição de tiro, travada, carregador embutido, bala na câmara, duas cartucheiras carregadas com dois carregadores cada, uma granada de bazuca por cada homem e uma outra de morteiro também, faziam o equipamento de cada homem. O Zé Carlos apenas levava a saca e uma G 3, embora preferisse transportar a pistola. Eu é que não deixava.

                O Zé Carlos era um belo rapaz, ex - empregado numa farmácia para as bandas de Águeda, no Continente. Bem falante mas muito modesto, vim a saber, mais tarde que afinal apenas dissera que era farmacêutico para dar mais confiança aos camaradas. Que o desculpasse pela mentira mas, afinal, era apenas um trabalhador agrícola por conta de patrões que ia angariando a partir dos seus catorze anos de idade e até ser engajado na tropa. Tivera sorte em ir para enfermeiro. Sorte? Sorte tivéramos nós em o ter como tal. Para além de ser um grande homem era também um excelente enfermeiro. Todos queríamos ser medicados e tratados pelo Zé Carlos. Pobre homem veio a falecer pouco tempo depois de ter acabado a tropa. E, para cúmulo do azar, em acidente de motorizada. Paz à sua alma.




                 Como ia dizendo, lá estávamos nós, pela primeira vez, a preparar a nossa sorte futura, com aquela patrulha de iniciação, lá para as bandas do Gatongó. Diabos me levem se isto é nome de sítio. Mas era mesmo e tivemos oportunidade de, em ocasiões futuras, comprovar a sua existência bem como o perigo que era andar por aquelas bandas. Além de um aquartelamento subterrâneo havia, ainda, uma enfermaria onde se tratava o IN de elevado número. Em outra ocasião, para os podermos desalojar, fora precisa a ajuda da força aérea e de uma companhia de pára-quedistas para nos ajudar a limpar o local. Era o que se podia chamar um osso muito duro de roer.

Sorte de “pira”. Naquele dia ao fim de uma caminhada de várias horas, não me recordo de quantas, regressámos a Tite sem ver uma cara de turra nem o seu rasto. Razão tinham os velhinhos. Afinal a guerra era só de vez em quando.

Mal chegáramos ao aquartelamento, demos instruções aos soldados para irem tomar banho antes de se deslocarem para o rancho bem merecido e fomos fazer o mesmo. Eu era mesmo um tipo de sorte. O “máquinas”, alcunha dado ao Almeida, furriel mecânico, era já naquela altura grande amigo meu e tinha uma grande preocupação pelo meu bem-estar. Veio esperar-me à porta de armas e quis logo saber se precisava de alguma coisa que ele pudesse fazer por mim. Grande amigo: noutras ocasiões deu provas de o ser, tais como quando soube que eu tinha sido atingido de insolação e, resoluto, pegou numa pistola minúscula, meteu-se num jipe e foi buscar-me a cerca de quatro quilómetros de distância para que mais rapidamente pudesse ser tratado. Até me ajudou a tomar banho, mesmo vestido. De outra vez, ao saber que o meu pelotão, que eu comandava nesse dia, estava de regresso de uma patrulha e que tivera contacto com o IN de que resultara um ferido e muita confusão, não hesitou em ir no seu jipe e mandar um unimog buscar-nos ao caminho, desde o pontão de Nova Sintra até ao quartel. Até se poderia dizer que, além de grande amigo era também um arrojado militar. Mas dada a sua função, nunca se envolveu em combates, ao contrário do Estanqueiro, furriel vagomestre e que durante o ataque ao Gatongó deu mostras de grande valentia e discernimento bem como de capacidades de comando. Foi ele que iniciou o assalto de que resultou a destruição do aquartelamento IN durante operação em causa.

                Por essa altura já eu tinha uma lavadeira, mulher grande por ter já mais de quarenta anos. Era a primeira das quatro mulheres do soldado de segunda linha, alcunhado de quinhentos, por ser esse o seu número de ordem.

                Tinha ela grande brio em me lavar a roupa e passar a ferro as camisas que entregava ao furrié juntamente com as calças, as meias e as cuecas. Era basicamente a roupa que eu usava e era mais do que suficiente naquela altura. O calor fazia com que não fosse necessário usar mais nada. A maior parte do tempo, quando no quartel, andava em calções, tronco nu e chapéu de palha.

                Os soldados tiveram preocupação em arranjar lavadeira nas rapariguinhas mais novas, chamadas bajudas, por razões sobejamente conhecidas. O diabo é que elas não conheciam contraceptivos que também não havia disponíveis e, a única preocupação era evitar doenças venéreas. Que saudades desses tempos em que eram desconhecidas outras doenças bem mais preocupantes e até mortais, como hoje se conhecem.

                Com regularidade quase diária, embora a horas sempre desajustadas, lá se iam fazendo umas patrulhas, umas operações e outros serviços, sem que nada houvesse digno de registo. Diga-se: sem que houvesse feridos. E o tempo ia ajudando porque, nos intervalos das saídas, faziam-se fotografias para a posteridade ou quase, lanchavam-se grandes pratadas no Branco, assim alcunhado por ser o único civil da mesma cor que se radicara com uma loja de comércio em geral por aquelas paragens. Até a mulher, ainda muito nova e um mulherão, única branca que se via por aquelas bandas, ajudava no negócio. Ela tinha artes de mostrar aquilo que gostávamos de ver e o marido, - viemos a saber, mais tarde, que não eram casados- deixava.

Joaquim Caldeira

CCAÇ 2314

 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A chegada a Tite

 "A Chegada

As bagagens estavam já amontoadas junto ao portaló do convés superior na ânsia de nos libertamos daquela confusão que nos minava o espírito. Será que a saída estava para breve? Ainda fomos passar a última revista ao local onde dormimos durante nove dias na esperança de que algo nos tivesse esquecido arrumar no saco ou mala onde guardámos as nossas poucas coisas. Afinal, muito poucas. Tudo se resumia a duas mudas de roupa, tres equipamentos de farda e aos objectos de higiene pessoal. Tudo muito pouco porque o peso era factor determinante para o sucesso das nossas andanças.

Pelas três horas da tarde, entrou a bordo do paquete Uige um oficial da marinha encarregado de trocar informações com os comandantes militares a bordo. Vinha com uma pasta na qual, suponho, traria os papeis que ditariam o nosso destino. O nosso destino era combater mas cabia a este oficial informar os comandos a bordo, dos locais para onde nos dirigiríamos. Coisa estranha se passou então. A angústia apoderou-se dos nossos espíritos, uma grande ansiedade fazia com que tentássemos adivinhar o nosso destino. Olhávamos para longe e víamos de um lado só rio, com águas sujas, barrentas e uma corrente muito forte que arrastava paus e folhas com uma velocidade muito grande. De outro lado, apenas podíamos vislumbrar o cais e algum casario que se estendia pela encosta fazendo adivinhar uma rua ladeada por árvores que daria para onde? Para o outro lado, uma floresta densa, com árvores de pequeno porte que se estendiam até perder de vista. Seria aquilo a floresta de que nos tinham falado durante a preparação que nos deram antes de embarque? Até aqui o Uíge fora a casa flutuante onde durante aqueles infindáveis nove dias sonháramos com a tropa que tínhamos feito no Portugal já distante. Tropa? Fora um ror de cambalhotas, perfilar, marchar...até parecia que estávamos a ficar maduros para chegar ao teatro da Guiné, ver e vencer. Que ingénuos que éramos. Tres meses de recruta numa das escolas mais bem apetrechadas para esse efeito. Mais tres meses numa outra, também muito famosa, para uma especialidade. Aqui até nos ensinavam a comer lama. Que porcaria. De seguida, não fosse a mobilização tardar, ofereci-me como voluntário para uma companhia de comandos. Tinha a certeza de que a mobilização seria logo após terminar o curso. Só que o não acabei e fui dar instrução para um quartel de infantaria em Aveiro. Aqui, como precaução, ofereci-me como voluntário para a Guiné, na esperança de ver terminado o calvário da tropa. Nem assim tive sorte. Terminada a formação de recruta que dei naquela unidade fui fazer um curso de minas e armadilhas e só a partir daqui soube que estava mobilizado, finalmente para a guerra. E soube porque me mandaram dar instrução a um grupo de valentes rapazes, como eu já mobilizados, sem saber para onde. Com tudo isto passaram-se dezassete meses de infindáveis instruções. Abominável.

Aqui estava eu, agora, cheio de tácticas e psicologias aplicadas, dotado de todas as qualidades de comandante e secção e desejoso de por em prática a minha autoridade e o meu saber.

            A angústia continuou a apoderar-se de todos e era já visível no rosto de cada um o ar de sofrimento pelo que a seguir se passaria. De repente, não me lembro já como, ouvi dizer que o nosso destino era Tite. Onde fica? Como será? O sargento Faria esteve lá na comissão anterior, ouvi comentar ao Alves. Corri para o Faria a fim de obter informações. Homem habituado a estas andanças, o Faria sorriu com a sua cara de maduro – teria já perto de quarenta anos- e disse: é um lugar como os outros. Vai ver que será fácil. Que bom ter ouvido este homem cheio de saber, grande amigo do amigo e excelente jogador de tudo. Onde houvesse jogo, haveria um Faria risonho e bem disposto a passar o seu bocado de tempo e até, porque não, ganhar alguma coisa aos incautos aprendizes de jogo. Lembro-me de um dia ele me dizer que, enquanto nós pudéramos estudar para obter alguma formação académica ele aprendeu a jogar para ganhar algum dinheiro extra.

            Chegara a hora. Angustiado corri para o capitão Neves e quis saber o que ele pensava sobre o local que nos fora designado. Limitou-se a dizer que já ouvira falar. Era um bom sítio para nós ficarmos porque o sargento Faria já o tinha informado. Boa. Finalmente pude tranquilizar-me e, logo que soubemos que iríamos directos do barco para a barcaça que nos transportaria a Tite, fui informar os meus subalternos de que na barcaça teríamos de ir sempre com a cabeça abaixo da linha da amurada para não desafiarmos o “IN”. O que? Então corríamos riscos antes de chegarmos ao aquartelamento? E onde estavam as armas para podermos defender-nos e, sobretudo atacar? A guerra tem cada coisa. Então nós ainda não tínhamos armas e já corríamos riscos? Cala-te. Nem será bom pensar em tal. Se os soldados e os cabos pressentem os teus medos ficam desmoralizados e tu foste preparado para lhes dar ânimo, não para os desmoralizar.

            E lá carregamos as bagagens para a lancha, tendo depois seguido para o cais do Enxudé, local distante de sete ou oito quilómetros do quartel e situado na margem esquerda do rio Gêba e a uns quinze quilómetros de Bissau. Aí estava uma pequena unidade de infantaria que tinha por função guardar aquele cais, não fosse ele cair nas mãos do IN. A viagem pelo rio correu bem. Só fomos distraídos pelas metralhadoras pesadas que armavam aquela embarcação e em resposta a uns tiros vindos da margem direita do Rio. Baixem-se todos, gritava o primeiro-tenente, comandante da nau. E assim que fomos desembarcados, entrámos às pressas para umas viaturas que nos esperavam para nos conduzir a Tite.


            Pelo caminho até nem fomos mal tratados de todo. Só fomos atacados uma vez, junto à tabanca de Fóia e, de imediato, defendidos por uns bravos que guardavam a estrada durante a nossa passagem .Afinal aquela estrada era picada diariamente à procura de minas e guardada por um pelotão que a patrulhava constantemente. Era por ela que se fazia todo o abastecimento civil e militar de Tite.

            Ao longe, embora cada vez menos, íamos distinguindo já umas luzes. Era Tite. Afinal Tite era uma terra. Até tinha luz eléctrica. Só depois de lá ter chegado é que percebi que tais luzes eram só para iluminar o exterior.

            A chegada foi uma confusão. Como já era de noite, percebi que um capitão, muito alto, dava ordens que eu não cheguei a ouvir. Veio, então, um furriel dizer que os sargentos iriam com ele para a messe a fim de poderem jantar e, pelo caminho, foi-nos dizendo que em caso de ataque deveríamos refugiar-nos no abrigo que era ali ao lado.           

            Que chatice. Então e os meus soldados iriam ficar sós? Como se iriam comportar? Tem calma, disse o tal furriel. Eles vão arrumar as bagagens na caserna e de seguida jantar no coberto das cozinhas que era já ali ao lado. Mas eu pouco via por estar escuro, pois não haver luz dentro do quartel e também porque estava desorientado.

            Salta “periquito”.A todo o tempo íamos ouvindo dizer este refrão e só mais tarde fomos informados de que “periquito” era o alcunha dado ao novato na guerra da guiné. Estas aves eram abundantes naquelas paragens de África e o símbolo dos novatos.

            Aos poucos fui-me deslumbrando com o à-vontade com que os meus camaradas mais velhos se movimentavas e riam da situação, gozavam até. Eram homens já com alguma experiência de guerra e isso até se podia ver pela cor da sua pele, já crestada e pelas fardas desbotadas. Já tinham uma boa parte da comissão cumprida. Invejei-os por isso.

            BUMMMM. BUMMMM. BUMMMM. Que é isto? Corram para os abrigos! Por aqui. Não tenham medo; é a sessão de boas vindas e passa já. E passou: foram apenas alguns tiros de armas automáticas e tres ou quatro tiros de canhão para dar as boas vindas aos homens de C CAÇ 2314. Porra. Que merda de guerra é esta. Ainda nem temos armas distribuidas e já fomos atacados três vezes num dia!

            Veio finalmente a hora de ir descansar, após ter passado uma revista ligeira pela caserna dos soldados que já montavam banca para a batota e riam das brincadeiras descuidadas com que iriam passar a primeira noite. Fiquei contente por eles. Afinal éramos ainda umas crianças grandes e vivíamos de forma descuidada mesmo em situação de guerra.

            A caserna dos soldados era feita de blocos de cimento encimados por cobertura de zinco para protecção da chuva. Qual chuva? Estava era um calor danado. Era verão naquela parte do globo. O zinco da cobertura fazia ainda mais calor e os soldados preferiam passar a maior parte do tempo cá fora para saborear o fresco. E também porque naquela povoação havia civis e já por ali passavam alguns curiosos de ver os “piras”, diminuitivo de “piriquitos” e rir das suas fardas ainda coloridas por serem novas e dos seus modos quase envergonhados por estarem em situação tão incómoda. A intervalos, via-se passar uma ou outra “bajuda” com os seus quinze anos verdes mas já maliciosos a querer saber quem a queria para lavadeira. Chiça. Nem de noite esta gente descansa. Bem, deixemos para amanhã e depois se verá em que param as coisas. E assim fiz. Fui dormir numa cama sem mosquiteiro e toda a noite me sacudi para afugentar os mosquitos que me perseguiam com aquele ruido de avião a jacto que incomoda tanto como a sua picada.

            Ainda assim, dormi bem porque acordei bem disposto e cheio de fome. A messe era mesmo ao lado do quarto, facilitando as coisas. Café com pão e manteiga. Ou margarina? Já não me lembro. Não importa. O pão até era muito gostoso e assim continuou a ser enquanto por lá estive. Estadia curta e cheia de peripécias.

Joaquim Caldeira - CCAÇ 2314"