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“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma”


(Do Padre António Vieira, no "Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma", na Capela Real, ano 1669. Lembrado pelo ex-furriel milº Patoleia Mendes, dirigido-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar.).

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"Ó gentes do meu Batalhão, agora é que eu percebi, esta amizade que sinto, foi de vós que a recebi…"

(José Justo)

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“Ninguém desce vivo duma cruz!...”

"Amigo é aquele que na guerra, nos defende duma bala com o seu próprio corpo"

António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente

referindo-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar

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Eles,
Fizeram guerra sem saber a quem, morreram nela sem saber por quê..., então, por prémio ao menos se lhes dê, justa memória a projectar no além...

Jaime Umbelino, 2002 – in Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar, em Torres Vedras
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“Aos Combatentes que no Entroncamento da vida, encontraram os Caminhos da Pátria”

Frase inscrita no Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar, no Entroncamento.

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Sem fanfarra e sem lenços a acenar, soa a sirene do navio para o regresso à Metrópole. Os que partem não são os mesmos homens de outrora, a guerra tornou-os diferentes…

Pica Sinos, no 30º almoço anual, no Entroncamento, em 2019
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"Tite é uma memória em ruínas, que se vai extinguindo á medida que cada um de nós partir para “outra comissão” e quando isso nos acontecer a todos, seremos, nós e Tite, uma memória que apenas existirá, na melhor das hipóteses, nas páginas da história."

Francisco Silva e Floriano Rodrigues - CCAÇ 2314


Não voltaram todos… com lágrimas que não se veem, com choro que não se ouve… Aqui estamos, em sentido e silenciosos, com Eles, prestando-Lhes a nossa Homenagem.

Ponte de Lima, Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar


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sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Almoço da Magnifica Tabanca da Linha

 Um pequeno grupo do BART 1914, participou no almoço da MagníficaTabanca da Linha, que teve lugar em Algés no restaurante Caravela Dourada.

Estiveram presentes:

Cap Paraiso Pinto

Af Fernando Alves

Manuel Palma

Estes almoços são efetuados com alguma periodicidade e o nosso Chefe é presença assídua.












nota-

O companheiro Luis Graça, Autor/Editor da Tabanca Grande, enviou-nos a seguinte mensagem:

"Tabanca Grande Luís Graça

O almoço-convívio é da Magnífica Tabanca da Linha. 

A Tabanca Grande é apenas.... mãe de todas as tabancas, de Norte a Sul, ilhas atlânticas da Madeira e Açores e ainda... da Diáspora Lusófona. 

Tenho pena de ter falhado esse convívio por razões de agenda... Já pedi desculpa ao régulo, Manuel Resende.

Luis Graça".

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

" A Guiné que conhecemos" livro de Jorge Martins Barbosa.

 O Blog Luis Graça, publicou hoje um artigo sobre mais um livro do camarada Jorge Martins Barbosa que era militar no Batalhão que nos foi render em Tite.. Entre outras localidades é referida Nova Sintra e é mostrada uma foto do nosso saudoso Alferes Vaz Alves.

Fui alertado para este artigo pelo Hipólito, a quem agradeço e vamos publicá-lo com a devida vénia ao blog Luis Graça, que não se cansa de trazer à memória de todo um povo, o que se passou na Guerra Colonial.

Bem hajas!



“Guiné 61/74 - P26226: Notas de leitura (1751): A Guiné Que Conhecemos: as histórias sobre unidades do BCAV 2867 (2) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Agosto de 2023:

Queridos amigos,

Quero, antes de mais, manifestar a minha profunda admiração pelo trabalho do coordenador deste livro recheado de testemunhos, relatos militares, alguns deles comparados com documentação do PAIGC depositada na Fundação Mário Soares, para além do acervo fotográfico, de uma abundância raramente vista. Se o primeiro episódio foi dedicado aos "Falcões", a CCS do BCAV 2867, passámos para Nova Sintra, seguimos em direção a Jabadá e voltamos aos "Boinas Negras" que andaram por Tite, Nova Lamego e Fulacunda. Esta unidade combateu na Guiné nos anos de 1969 e 1970, goste-se ou não são um exemplo acabado que mesmo na nossa idade avançada é sempre possível cumprir o dever de memória e deixar um belo testemunho para as gerações que nos sucederem e mesmo para os investigadores que seguramente quererão saber mais sobre aquele território e aquela guerra que mudou Portugal e trouxe a África a novos países.

Um abraço do

Mário Beja Santos 


A Guiné Que Conhecemos: as histórias sobre unidades do BCAV 2867 (2)

Mário Beja Santos

O livro Histórias dos “Boinas Negras”, referente à comissão da CCAV 2482 foi o rastilho de pólvora para que as restantes unidades do BCAV 2867 se pusessem em movimento. Conforme refere o coordenador, Jorge Martins Barbosa, antigos combatentes dos “Falcões” da CCS, dos “Cavaleiros de Nova Sintra” da CCAV 2483 e dos “Dragões de Jabadá”, da CCAV 2484 aderiram com os seus testemunhos, assim surgiu este extenso documento que é um misto de história e de literatura memorial.

Feitas as referências aos “Falcões” (CCS do BCAV 2867) caminhamos agora para Nova Sintra, vão testemunhar alguns dos “cavaleiros”. O 1.º comandante da CCAV 2483, Joaquim Manuel Correia Bernardo, gravemente ferido por uma mina antipessoal, faz o relato da viagem de Bissau para Bolama, daqui para S. João e depois o porto de Lala, em LDM. “Nova Sintra era um aglomerado de abrigos enterrados dispersos em círculo e limitados por duas fiadas de arame farpado, no meio de uma mata ameaçadoramente densa. Fora do arame farpado estava uma pequena pista de aterragem e um campo de futebol. O povoado que dera nome ao aquartelamento distava cerca de 2 km e estava completamente destruído e invadido pelo matagal. O aquartelamento estava num estado lastimável. Limpámos, campinámos, abrimos as estradas para S. João e Tite, levantámos algumas edificações à superfície para nos ajudar a respirar melhor, melhorámos as captações da água e a pista de aterragem.” Refere a aziaga operação na região de Buduco em que se acidentou, manteve laços de amizade com estes cavaleiros e passado todos estes anos confessa que teve o privilégio de ter vivido com estes jovens e orgulho em ter feito parte dos “Cavaleiros de Nova Sintra”.

Há um outro relato de Aníbal Soares da Silva, furriel. Renova a observação do testemunho anterior sobre o estado do quartel que foram encontrar, conta umas boas peripécias, era vagomestre e não deixa de sublinhar as dificuldades no abastecimento: Bolama comprava todos os galináceos em S. João, as colunas do abastecimento conheceram minas anticarro e esmiúça os aspetos da alimentação: “Durante um mês, em 27 dias eram fornecidas refeições à base de enlatados: chouriço, sardinha, atum de conserva, dobrada liofilizada, que era intragável. Uma vez por mês eram recebidos géneros frescos (sardinha ou carapau, frango, ovos e alguns legumes), que tinham de ser consumidos em três dias, dada a precariedade das arcas congeladoras. Durante esses três dias e à noite, dois homens faziam vigilância ao bom funcionamento das arcas. Um frango (por homem) podia dar para duas refeições, mas tinha de ser consumido quase de imediato, porque senão estragava-se. O grão-de-bico, o feijão frade e branco, o arroz e o esparguete, eram a base diária das refeições. Depois, era só juntar o chouriço. Saía-se da monotonia quando se apanhavam javalis ou gazelas.” Dá-nos conta do que eram os entretenimentos e os dias de festa, mas foca a sua atenção nas tensões vividas nas colunas de reabastecimento. Mais adiante observa que terminada a permanência em Nova Sintra rumaram para Tite para completar os 22 meses de comissão.

Entram agora em cena os “Dragões de Jabadá”, que chegaram à sua base em 7 de março. O autor faz a apresentação do aquartelamento: “Jabadá estava situado, desde 1965, junto à margem sul do rio Geba, em Jabadá Porto, com cais acostável tanto para embarcações civis como para lanchas da Marinha. Junto, estava uma grande tabanca da população das etnias Balanta, Biafada e Papel, num total superior a mil almas – a mais numerosa de todo o setor. A maior parte das populações, obrigadas ou não, estava sob o controlo do IN, a quem tinham de dar apoio em alimentação e alojamento.”

Contribui com o seu testemunho o ex-soldado Carlos Alberto dos Santos Serra. Espertalhaço, tudo fez para se mostrar doente e incapaz para o serviço militar, os médicos não se compadeceram. Descreve assim Jabadá: “A aldeia estava concentrada num círculo e para a proteger estavam colocados abrigos 200 em 200 metros, pouco mais ou menos, e era nesses abrigos que nós vivíamos e nos defendíamos do inimigo. O povo normalmente jogava com um pau de dois bicos: davam-nos informações quase nunca precisas, mas a quem ajudavam era sempre o inimigo e, por esse motivo, de vez em quando, lá tínhamos nós de ir mandar uma dessas aldeias pelo ar, salvaguardando sempre a população, que, no caso de não ter tempo de fugir, nós acabávamos por trazer sem animosidades ou maus-tratos. Os soldados portugueses eram exemplares, mantendo sempre um comportamento calmo e pacífico, tanto com os inimigos capturados como com a população, na maioria das vezes trazida para Jabadá, onde eram alimentados e mais tarde distribuídos pelas casas de familiares e amigos, onde com o tempo se acabavam por integrar. Deste modo, íamos conquistando a população para o nosso lado, que com o tempo fez aumentar Jabadá quase para o dobro.” O Carlos Santos Serra tem uma escrita estimulante, é bom observador, gosta da galhofa e sabe curvar-se respeitosamente por quem sofre ou morre. Não esqueceu os dois meses passados em Tite, detalha a fuga do Cochicho para território da guerrilha, ele apareceu a falar na rádio Voz da Liberdade e voltou a Portugal depois do 25 de Abril. Relato extremoso, há sempre um sorriso nos lábios e uma impressionante lembrança de nomes e situações.

E vamos agora de novo falar nos “Boinas Negras”, sediados em Tite, novo preâmbulo para referir o inicio das hostilidades dos movimentos independentistas, depois vem a descrição da população de Tite, como um dos pelotões desta companhia foi transferido para Nova Lamego, lembra Cabuca e Canjadude, é referido um nosso confrade, o José Marcelino Martins. Soube-se em Nova Lamego que estava a ser planeado pelo PAIGC a operação Tenaz B que tinha como objetivos criar condições para atacar Gabu, Piche, Buruntuma, Canclifá e quartéis da área de Pirada, plano minucioso assinado por Amílcar Cabral em finais de março de 1969. Não são esquecidos os melhoramentos em Tite no aquartelamento e na tabanca. Mas ainda falta falar em Fulacunda, será matéria para o último texto desta apreciação de a Guiné que conhecemos, não é possível esconder admiração pelo desvelo do coordenador da obra, Jorge Martins Barbosa, que com muita paciência recolheu testemunhos e incorpora na obra um número admirável de imagens, comparando os relatórios das operações com a documentação do PAIGC coeva, depositada na Fundação Mário Soares.

A importância estratégica de Nova Sintra



Imagem proveniente do blogue BART 1914, pelo Alferes Vaz Alves, com a devida vénia


Aquartelamento de Jabadá, na margem esquerda do Rio Geba, imagem retirada do nosso blogue

(continua)

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Notas do editor

Vd. post de 25 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26191: Notas de leitura (1749): A Guiné Que Conhecemos: as histórias sobre unidades do BCAV 2867 (1) (Mário Beja Santos)

Post anterior da série de 29 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26213: Notas de leitura (1750): O Arquivo Histórico Ultramarino em contraponto ao Boletim Official, até ao virar do século (4) (Mário Beja Santos)”


domingo, 5 de fevereiro de 2023

BISSASSEMA - o percurso dos prisioneiros da CART 1743, após a madrugada de 2/3 de Fevereiro de 1968.

 BISSASSEMA

INTRODUÇÃO

Publicamos este trabalho do Furriel Milº Jorge Alves Araújo, com a devida vénia ao próprio e ao Blog de Tabanca Grande Luís Graça & Camaradas, das Op. Especiais/Ranger, da CART 3404, de l971/1974 - Xime-Mansambo.

 A primeira parte deste pequeno trabalho de investigação, partilhada recentemente neste espaço colectivo (*), inicia-se com as consequências do ataque à Tabanca de Bissássema, situada nos arredores de Tite, em 3 de Fevereiro de 1968, que antes já tinha sido uma base IN.

OS DIABOS

Do ataque da madrugada desse dia, sábado, resultou terem ficado prisioneiros de guerra três militares de um Gr Comb da CART 1743 (1967/69), «Os Diabos», que tinha recebido a missão de aí se instalar e onde decorria já a construção de abrigos enquadrados na organização do seu sistema de defesa.

 Corolário desse ataque continuado, intercalado entre maior e menor intensidade, alguns guerrilheiros entraram no aquartelamento, lançando granadas e apanhando à mão o António Rosa, o Victor Capítulo e o Geraldino Contino, os quais foram levados para território da Guiné-Conacri.

 Primeiro atravessando a pé o corredor de Guileje (cerca de 200 km em 6 dias),  seguindo depois até Boké em viatura. Aí chegam à fala com Nino Vieira (1939-2009), e depois dirigem-se a Conacri onde são recebidos por Amílcar Cabral (1924-1973). 

Segue-se nova viagem até à “Casa Forte de Kindia”.

Emblema da CART 1743


Percurso dos prisioneiros da CART 1743 com os elementos do IN, em território da Guiné, desde Bissassema até à fronteira

Percurso dos prisioneiros em território da Guiné Conakri, desde a fronteira até à prisão em Kindia.
Este mapa tem um percurso a amarelo e a vermelho, que indicam uma fuga do alf Rosa e da qual falaremos mais tarde.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

A trágica História da CART 1690, pertencente ao BART 1914 (In Memorian)

 A TRAGICA HISTORIA DA CART 1690, pertencente ao. BART 1914

 O Hipólito alertou-me em tempos para o facto de haver alguns textos no blog do Luís Graça & Camaradas da Guiné, que citam a CART 1690, Companhia que pertencia ao Bart 1914 e que muito sofreu durante a sua permanência na Guiné. Obrigado Hipólito.

Publico aqui parte do que lá é escrito e quem quiser saber mais deve consultar o blog deles  https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/search...

Do blog Luis Graça & camaradas da Guiné (LG), transcrevemos os seguintes excertos, com a devida vénia ao blog Luis Graça & Camaradas da Guiné. O nosso muito obrigado.

Capitão Guimarães, morto em combate

Alferes Moreira, foi quem substituiu o Cap. Guimarães

"Vd. poste de 24 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14514: Memória dos lugares (288): Gentes do Geba, parte I (A. Marques Lopes, coronel inf, DFA, na situação de reforma, ex-alf mil da CART 1690, Geba, 1967; e da CCAÇ 3, Barro, 1968)

(**) Último poste da série > 25 de setembro de 2014 > Guiné 53/74 - P13650: In Memoriam (195): Cap art Manuel Carlos da Conceição Guimarães (1938-1967), morto na estrada Geba-Banjara, região de Bafatá... As suas irmãs, Teresa e Ana descobrem agora, emocionadas, as referências sobre ele no nosso blogue e encontraram-se há dias, em Lisboa, com o Coronel A. Marques Lopes, seu amigo e companheiro de infortúnio.

A CART 1690 foi mobilizada pelo RAL 1, fazendo parte do BART 1914 (Tite, 1967/1969). Partiu para a Guiné em 8/4/1967 e regressou à Metrópole em 3/3/1969. Esteve em Geba e em Bissau. Comandantes: Cap Art Manuel Carlos da Conceição Guimarães (morto em combate), e Cap Mil Art Carlos Manuel Morais Sarmento Ferreira.

Esta subunidade tem um dos mais trágicos historiais da guerra da Guiné: 10 mortos em combate, incluindo o Cap Art Guimarães, 2 alferes milicianos e um furriel miliciano; 12 militares "retidos pelo IN" (e levados para Conacri), dos quais 2 morreram no cativeiro; 5 militares, feridos em combate, e evacuados para o Hospital Militar Principal, da Estrela, em Lisboa, incluindo dois alferes milicianos, o A. Marques Lopes e o Domingos Maçarico (meu parente afastado). (LG)"

Nota - no blog Luis Graça aparece algumas vezes a sigle LG que pertence às iniciais do Luis Graça.


In Memorian. Documento da Academia Militar a quem agradecemos:

≈ In Memoriam ≈

Nome: Manuel Carlos Conceição Guimarães

Posto: Capitão de Artilharia

Naturalidade: Lisboa

Data de nascimento: 27 de Outubro de 1937

Incorporação: 16 de Outubro de 1954 na Escola do Exército (nº 415 do Corpo de Alunos)

Mobilizações:

Alferes/Tenente: Índia de Maio de 1959 a Março de 1961

Capitão: Guiné de Abril de 1967 a Agosto de 1967

Condecorações:

TO da morte em combate: Guiné

Data da morte: 21 de Agosto de 1967

Circunstâncias da morte: No dia 21 de Agosto de 1967, uma patrulha de reconhecimento e combate que regressava do exterior, já próximo do aquartelamento da CArt 1690 em Geba, detectou a existência de minas na picada e transmitiu para a base essa informação. O Capitão Guimarães deslocou-se para o local para procederem ao levantamento das minas A/C tendo uma delas deflagrado provocando-lhe morte imediata.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

A IGREJA NA VIDA DOS PRISIONEIROS DE GUERRA - O CASO DE GERALDINO MARQUES CONTINO DA CART 1743 - BISSASSEMA.

O Geraldino Marques Contino, à esquerda, com os seus dois filhos, e a esposa Luísa






 INTRODUÇÃO

Publicamos este trabalho do Furriel Milº Jorge Alves Araújo, com a devida vénia ao próprio e ao Blog de Luis Graça & Camaradas, das Op. Especiais/Ranger, da CART 3404, de l971/1974 - Xime-Mansambo.



 A primeira parte deste pequeno trabalho de investigação, partilhada recentemente neste espaço colectivo (*), inicia-se com as consequências do ataque à Tabanca de Bissássema, situada nos arredores de Tite, em 3 de Fevereiro de 1968, que antes já tinha sido uma base IN.

"Os Diabos"

Do ataque da madrugada desse dia, sábado, resultou terem ficado prisioneiros de guerra três militares de um Gr Comb da CART 1743 (1967/69), «Os Diabos», que tinha recebido a missão de aí se instalar e onde decorria já a construção de abrigos enquadrados na organização do seu sistema de defesa.

 Corolário desse ataque continuado, intercalado entre maior e menor intensidade, alguns guerrilheiros entraram no aquartelamento, lançando granadas e apanhando à mão o António Rosa, o Victor Capítulo e o Geraldino Contino, os quais foram levados para território da Guiné-Conacri.

 Primeiro atravessando a pé o corredor de Guileje (cerca de 200 km em 6 dias),  seguindo depois até Boké em viatura. Aí chegam à fala com Nino Vieira (1939-2009), e depois dirigem-se a Conacri onde são recebidos por Amílcar Cabral (1924-1973).  Segue-se nova viagem até à “Casa Forte de Kindia”.

Local onde foram aprisionados os elementos da CART 1743 (Bissassema)


Itinerário que os prisioneiros percorreram desde a fronteira Guiné Bissau/Guiné Conakry até à prisão de Kindia, na Guiné Conakry

 Treze meses depois, em 3 de Março de 1969, António Rosa com mais dois prisioneiros de guerra, António Lobato e José Vaz, levam à prática um plano de fuga pensado entre si, sendo recapturados ao fim de seis dias. Na sequência dessa evasão mal sucedida foram transferidos para um novo cativeiro em Conacri [vidé P2095 e P7929]. [Infogravura nº 1, reproduzida acima[,

 Após o diálogo estabelecido com os três militares da CART 1743, em Conacri, Amílcar Cabral dá conta em comunicado escrito em francês, datado de 19 de Fevereiro de 1968, da identificação destes novos prisioneiros de guerra.

 Exactamente seis meses depois do episódio da Tabanca de Bissássema, ou seja, em 3 de Agosto de 1968, Amílcar Cabral faz aos microfones da «Rádio Libertação», a sua emissora, nova referência aos prisioneiros de guerra do PAIGC. Por deferência deste, as palavras do seu secretário-geral foram gravadas em fita magnética, bem como as declarações de oito militares portugueses feitos prisioneiros nos primeiros seis meses desse ano, e retransmitidas em Argel, na rádio «A Voz da Liberdade», emissora da FPLN/Portugal [Frente Patriótica de Libertação Nacional]. O conjunto desses oito depoimentos foram editados no Caderno 1, da responsabilidade da FPLN, com o título “falam os portugueses prisioneiros de guerra” [vidé P16172]. [Infogravura nº 2]

 Citação:

 (1968), "Guiné 1 - Falam os portugueses prisioneiros de guerra", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_84394 (2017-10-30)

 Nesse caderno 1, na página 20, encontrámos os testemunhos de Geraldino Marques Contino, com respostas dadas a sete perguntas, conforme se reproduz abaixo. De relevar que das sete perguntas duas estão relacionadas com a comunicação com a família, depreendendo-se que seria para lhes dar conta da sua [nova] situação. Por exemplo, a 4.ª, “Você já escreveu à sua família)”; R: “Escrever ainda não escrevi, mas escreverei brevemente”; e a última, “Você vai escrever-lhes [aos pais]?”; R: Vou escrever-lhes, naturalmente”. Como se pode observar, o seu apelido está mal escrito [Contino e n não Coutinho}. [Infogravura nº 3]

 Infogravura nº 3


 Fonte: Casa Comum; Fundação Mário Soares.

Pasta: 04309.007.011.

Título: Guiné 1 - Falam os portugueses prisioneiros de guerra.

Assunto: Editado pela FPLN/Portugal, em Alger, exemplar 1 de publicação com declarações dos militares portugueses feitos prisioneiros pelo PAIGC. Pretende-se dar conhecimento da verdade às famílias, ao mesmo tempo que se acusa o governo português de os referir como desaparecidos (militares das incorporações de 1966). Este número inclui transcrição de uma comunicação de Amílcar Cabral, Secretário-Geral do PAIGC, aos microfones de “A Voz da Liberdade”, dirigida aos prisioneiros portugueses, no dia 3 de Agosto de 1968, com a promessa de fornecer em breve fitas magnéticas com testemunhos dos prisioneiros, bem como o tratamento que lhes é dado, quando feridos e ligação com a Cruz Vermelha Internacional, para o seu repatriamento para junto das suas famílias.

Data: 1968. Observações: Declarações gravadas em fita magnética e difundidas pela Rádio Libertação, pelo PAIGC, que autorizou retransmissão pela emissora da FPLN, a Voz da Liberdade. Fundo: Arquivo Mário Pinto de Andrade.

Tipo Documental: Documentos

 [com a devida vénia].

 Neste contexto, não é possível confirmar o que quer que seja quanto ao envio de “notícias para a metrópole”, como então se dizia. Só o próprio nos pode/poderá fazê-lo. Certamente que não foi nada fácil dizê-lo, e a existir algum atraso, ele seria perfeitamente compreensível, por necessidade de encontrar as palavras acertadas e estabelecer um fio condutor que não provocasse danos, nos dois sentidos. Por um lado aos destinatários, que nada sabiam acerca da nova realidade, por outro ao próprio remetente que estava “obrigado” e/ou “comprometido” em dizer-lhes a verdade. Mas, ao pensar referi-la, é aceitável que se tenha questionado, muitas vezes, sobre as consequências que esta notícia teria no seu seio? Como é que ela seria recebida? Aumentando a angústia e a dor nos seus pares ou desenvolvendo esforços no sentido de encontrar canais de comunicação alternativos? Provavelmente ambas as situações.

2. A IGREJA NA VIDA DOS PRISIONEIROS DE GUERRA (II) - O CASO DE GERALDINO MARQUES CONTINO

Geraldino Marques Contino, o ex-1.º Cabo Op.Crpt da CART 1743, feito prisioneiro naquele sábado, dia 3 de Fevereiro de 1968, na tabanca de Bissássema, certamente que passou pelas mesmas emoções, angústias, privações e sofrimentos relatados pelos seus camaradas de infortúnio, o António Rosa e o Victor Capítulo, desde que foi capturado, depois na prisão de Kindia, onde cinco dias após aí ter dado entrada completou o seu 23º aniversário (em 15 de Fevereiro) e, por último, na de Conacri.

Como referimos anteriormente, foi na busca de informações sobre a sua vida em cativeiro que tomámos em mãos essa tarefa, existindo uma só fonte onde poderíamos obtê-las, isto é «Do outro lado do combate». E a consulta recaiu, uma vez mais, no espólio da Casa Comum – Fundação Mário Soares, onde encontramos várias referências, umas já publicitadas acima, outras relacionadas com a troca de correspondência entre os responsáveis da Igreja Católica e Amílcar Cabral, na qualidade de secretário-geral do PAIGC.

E a causa/efeito para esse contacto nasce da falta de notícias do Geraldino Contino, o qual deixou de escrever aos seus familiares, em particular para os seus pais, depois do mês de Janeiro de 1970, muito provavelmente por volta do dia em que completava o seu 25º aniversário (o 3.º em cativeiro), data considerada para si e para os seus de muito importante. A ausência de liberdade, o permanente controlo dos seus movimentos, e a cada vez menor motivação para a escrita, levaram-no a cortar com o mundo exterior. Será que foi isso que aconteceu? Ou terão as cartas, também elas, ficado retidas/ prisioneiras?

Uma vez que a ausência de notícias se manteve durante alguns meses, os pais do Geraldino Contino tomam a iniciativa de escrever para o Vaticano, dando conta a Sua Santidade o Papa Paulo VI (1897-1978) da sua angústia por desconhecimento do destino do seu filho, feito prisioneiro pelo PAIGC. O Santo-Padre interessa-se por este caso e remete, em 10 de Setembro de 1970, uma carta dirigida ao Arcebispo de Conacri, Raymond-Marie Tchidimbo (1920-2011), solicitando informações concretas sobre a situação desse jovem militar. Este religioso, por sua vez, cumprindo o superior desejo de Paulo VI, escreve em 16 do mesmo mês uma nova missiva de teor semelhante, enviando-a ao cuidado de Amílcar Cabral, na qualidade de secretário-geral.

Recorda-se que estas duas cartas, escritas em francês, constam da Parte I. (*)

A este contacto formal do Arcebispo de Conacri, Raymond-Marie Tchidimbo, seguiu-se a resposta pronta de Amílcar Cabral, com data de 17 de Setembro, cujo conteúdo daremos a conhecer de seguida, a tradução e o original em francês, por esta ordem.

Tradução [de Jorge Araújo]:

Conacri, 17 de Setembro de 1970

Sua Excelência Monsenhor Raymond-Marie Tchidimbo, Arcebispo de Conacri Monsenhor,

Tenho a honra de acusar a recepção da vossa carta de 16 de Setembro, pela qual teve a gentileza de pedir para o pôr ao corrente sobre o conteúdo de uma carta remetida pela Secretaria de Estado da Cidade do Vaticano, por intermédio de Sua Excelência Monsenhor BENELLI, substituto desse mesmo Ministério.

A direcção nacional do nosso Partido está honrada de poder dar as seguintes informações acerca do prisioneiro de guerra Geraldino Marques Contino de acordo com o interesse de Sua Santidade o Papa Paulo VI.

- Nome: Geraldino Marques Contino

- Filho de Armando Contino e de Olinda Marques

- Nasceu em 15 de Fevereiro de 1945 em Envendos [Mação, Santarém]

- Profissão: estudante

- Situação na arma colonial: 1.º Cabo – RAL5

- N.º mecanográfico: 093526/66

- Feito prisioneiro em 3 de Fevereiro de 1968 em Bissássema (Frente Sul) a 17 quilómetros de Bissau, a capital.

O prisioneiro encontra-se bem, tanto física como moralmente. De acordo com os princípios humanitários da nossa luta, do respeito pela pessoa humana e de nunca confundir colonialismo português e povo de Portugal ou cidadãos portugueses, o melhor tratamento é concedido a este prisioneiro como a todos os outros. Toda a sua correspondência é enviada, no tempo, para o seu destinatário. É possível que o Governo português por necessidade da sua propaganda contra a nossa luta legítima, não quer que as famílias dos prisioneiros sejam informadas da situação na qual se encontram os seus filhos, cônjuges e irmãos.

A carta anexa, escrita pela mão do prisioneiro, e endereçada a seus pais, informará melhor que nós sobre a sua situação, a sua saúde e o seu estado de espírito.

À vossa inteira disposição para todas as informações úteis, por favor aceite, Monsenhor, a expressão dos nossos sentimentos de respeito e fraternal amizade.

Pel’ O Secretariado Político do PAIGC

Amílcar Cabral, Secretário-Geral

 


 Na volta do correio, o Arcebispo de Conacri, Raymond-Marie Tchidimbo, acusa a recepção das informações enviadas por Amílcar Cabral, em nova carta datada de 19 de Setembro, nos seguintes termos (primeiro a tradução, depois o original constituído por duas folhas dactilografas):

Tradução [de Jorge Araújo]

Senhor Amílcar Cabral

Secretário-Geral do PAIGC

Conacri

Deixe-me dizer obrigado – um obrigado muito simples mas não menos sincero – pela recepção dispensada à minha carta de 16 de Setembro e a resposta, tão rápida e atenciosa, que se dignou trazer.

Gostaria de ser gentil o suficiente por ter sido o interlocutor junto do Secretariado Político do PAIGC para o qual registo aqui a expressão da minha gratidão.

O SANTO-PADRE será em breve informado, por intermédio de Sua Excelência Monsenhor Substituto da Secretaria de Estado da Cidade do Vaticano, - Monsenhor BENELLI – do conteúdo da sua carta; ao mesmo tempo que será transmitida a relação de Geraldino Marques Contino a seus pais.

O seu gesto, Senhor Secretário-Geral, marca uma etapa decisiva da vossa luta para conseguir, finalmente, libertar a sua Pátria de toda a dominação; o Vaticano, singularmente atento às actividades dos Movimentos de Libertação do mundo inteiro, não vai deixar de apreciar o verdadeiro valor das intenções e dos esforços do PAIGC.

Queira aceitar, Senhor Secretário-Geral, com os meus agradecimentos repetidos, a expressão do meu bem fraterno e respeitosa amizade.

Conacri, 19 de Setembro de 1970

Raymond-Marie TCHIDIMBO,

Arcebispo de Conacri 

Fonte: Casa Comum; Fundação Mário Soares.

Pasta: 07069.111.023.

Assunto: Agradece a resposta à sua carta, em que dá conta da situação do prisioneiro de guerra Geraldino Marques Contino.

Remetente: Monsenhor Raymond-Marie Tchidimbo, Arcebispo de Conacri.

Destinatário: Amílcar Cabral, Secretário-Geral do PAIGC.

Data: Sábado, 19 de Setembro de 1970.

Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Relações com a Guiné-Conacri / Senegal 1960-1970.

Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral.

Tipo Documental: Correspondência.

 



Depois desta data nada mais foi encontrado relacionado com este tema. Desconhece-se, por isso, as consequências destes contactos. O que se sabe é que passados dois meses, naquele domingo, 22 de Novembro de 1970, Geraldino Marques Contino e os restantes vinte e quatro militares portugueses, prisioneiros de guerra em Conacri, às ordens do PAIGC, são libertados na sequência da «Operação Mar Verde», planeada e conduzida pelo Comandante Alpoim Calvão (1937-2014) [vidé postes P3244 e P1967].

Vinte e sete anos depois, numa iniciativa do semanário «Expresso», foi possível reunir em Lisboa, dezasseis desses prisioneiros. Na capa da «Revista do Expresso, n.º 1.309, de 29 de Novembro de 1997, é possível identificar, com a seta amarela, o Geraldino Marques Contino, camarada que esteve no centro deste trabalho de pesquisa [Infogravura nº 4]. O texto da reportagem é da autoria do jornalista José Manuel Saraiva.


 A foto abaixo é do Geraldino Marques Contino, publicada na Revista do Expresso n.º 1309, de 29 de Novembro de 1997, com a devida vénia.


A escassos dias de completar quarenta e sete anos, em que reconquistaram a liberdade na sequência da audaz «Operação Mar Verde» [Guiné-Conacri, 22 de Novembro de 1970], e a vinte anos da primeira reunião pública em grupo, em Lisboa, por iniciativa do Expresso, este trabalho é, também, a minha homenagem a todos eles, uma aprendizagem pessoal e, ainda, uma lembrança pelas duas efemérides.



Obrigado pela atenção.

Com um forte abraço de amizade… e muita saúde.

Jorge Araújo.

8NOV2017

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O LIVRO DO ALFERES ANTÓNIO JÚLIO ROSA, DA CART 1743, FOI REEDITADO.

 "Espero que te encontres bem, assim como a família e votos de um bom ano com muita saúde.

A viúva do Júlio Rosa, ligou-me há dias a dizer que havia uma 2ª. edição do livro, com uma capa diferente, que anexo. O livro foi reeditado pela COLIBRI.

Agradeço-te que metas esta notícia no BART 1914, para que quem estiver interessado em adquirir o livro o possa fazer.

Abraço e boa saúde

Raul Soares"

O alferes António Júlio Rosa, em Tite em 1968