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“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma”


(Do Padre António Vieira, no "Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma", na Capela Real, ano 1669. Lembrado pelo ex-furriel milº Patoleia Mendes, dirigido-se aos ex-combatentes da guerra colonial.).

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"Ó gentes do meu Batalhão, agora é que eu percebi, esta amizade que sinto, foi de vós que a recebi…"

(José Justo)

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“Ninguém desce vivo duma cruz!...”

"Amigo é aquele que na guerra, nos defende duma bala com o seu próprio corpo"

António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente

referindo-se aos ex-combatentes da guerra colonial

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Eles,
Fizeram guerra sem saber a quem, morreram nela sem saber por quê..., então, por prémio ao menos se lhes dê, justa memória a projectar no além...

Jaime Umbelino, 2002 – in Monumento aos Heróis da Guerra Colonial, em Torres Vedras
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“Aos Combatentes que no Entroncamento da vida, encontraram os Caminhos da Pátria”

Frase inscrita no Monumento aos Heróis da Guerra Colonial, no Entroncamento.


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EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

RECONHECIMENTO

ESTES SÃO OS EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART. FALTAM AQUI OS EMBLEMAS DAS UNIDADES DA ARMADA E DA FORÇA AÉREA QUE TANTAS VEZES FORAM AO ENXUDÉ, A TITE, A NOVA SINTRA E OUTROS AQUARTELAMENTOS, PARA ENTREGA E LEVANTAMENTO DE CORREIO, O SPM, REABASTECIMENTOS DE GÉNEROS E MATERIAL BÉLICO E OUTRO DIVERSO, OU PARA EVACUAÇÃO DE MORTOS E FERIDOS E TAMBÉM PARA FLAGELAÇÃO DO IN. E AINDA VÁRIAS UNIDADES DE INTERVENÇÃO RÁPIDA TAIS COMO PARAQUEDISTAS, FUZILEIROS, COMANDOS E OUTRAS COMPANHIAS, PELOTÕES OU SECÇÕES, PARA AJUDA EM MOMENTOS MAIS DIFICEIS, NÃO ESQUECENDO AS ENFERMEIRAS PARA-QUEDISTAS.
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sábado, 1 de maio de 2010

Dia da Mãe

Mãe, a Senhora é linda Os teus braços estão sempre abertos quando preciso de um abraço. O teu coração sabe compreender quando preciso de uma amiga. Os teus olhos sensíveis endurecem-se quando preciso uma lição. A tua força e teu amor dirigiram-me pela vida,
dando-me as asas que precisava para voar.

A todas as Mães do Universo

Blog BART 1914 - 2 Maio 2010

Você é linda, canção de Caetano Veloso http://www.youtube.com/watch?v=3tcY9rE_Cjs

Google - José Justo

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A cachimónia do Hipólito, quando se abre, é um perigo...

Já que o Pica insiste, malgrado a congénita preguicite aguda em escrever que me é peculiar, I remember . . .
De pouco valerão os louváveis esforços do Cavaleiro para branquear aquela equipa coesa das TMS, sobretudo dos “galfarros” seus ex(in)subordinados.Senão, vejamos:
Como é consabido, entre a /minha camarata e o edifício das TMS, existia um nicho com uma imagem da Senhora de Fátima.Fazia parte integrante do meu múnus (ex oficio), zelar pelo asseio e conservação do mesmo, pelo que, amiúde, ali me deslocava (embora, hoje e injustamente, acusado do contrário).
Daí que me apercebesse, com alguma fiabilidade, do que se passava portas adentro do dito cujo edifício das TMS, sobretudo, quando cheirava a borrasca, era vê-los, como disseste e bem, “cagadinhos”, a clamar pelos paisinhos:
- Papá Óscar;
- Papá Víctor;
- Papá Romeu, e sei lá por quantos mais papás . . .
E o mais intrigante é que, em tempo de bonança, lá dentro, também cheirava a “forrobodó” ou “quase a bacanal”, ouvindo-se, assim:
- Wiskey;
- Tango; -
C . . . uniforme [como sempre sofri de dificuldades auditivas (não, não era de mente depravada, não senhor), era assim que percebia, embora, hoje, esteja ciente da desnecessidade do c];Presumo, Pica, que, como se intui do exposto, não haveria necessidade de me obrigares a puxar tanto pela “cachimónia”
. . . e perdoe-me o Cavaleiro.
Continuação de boa Páscoa.
Hipólito

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Hipólito, era o nosso SPM...

Com a devida vénia, para que não subsistam quaisquer dúvidas, passo a capear dois excertos do texto inserto no site “guerra colonial” sobre o correio:. . .
“O SPM que escolheu como divisa do seu guião “A vida por uma mensagem” bem a honrou até ao fim.. . . e a todos os que integraram o SPM durante toda a sua existência, é devida uma enorme gratidão por milhões de portugueses; por todos os que, de 1961 a 1975, serviram na Índia, em África, em Macau e em Timor, e também por todas as suas famílias que em Portugal mitigavam as saudades e as suas angústias com as notícias dos seus filhos tão longe. Os que estiveram na guerra nunca os esquecem!”
E, então? Qu'é das outras especialidades? . . . Não li nada . . .
E qu´é da gratidão?Para que conste, só o Mestre (de Mértola) cumpriu.
Recepção com lhaneza, guarda de honra e banda de música às portas do seu burgo, como mandam os cânones. Tudo seguido de um aconchego ao estômago, digno de um alentejano que se preze.
Lá me oxigenou as meninges, quanto a algumas “cusquisses” (autênticos ovni's) que, de quando em vez, sibilinamente, pululam no firmamento do blog e que me punham como a um hipo a olhar para o palácio.
E já não vos cobro nada por, paralelamente, também ter zelado pelas vossas, pelos vistos, cândidas (nem nas orelhas) alminhas!
Aguardarei (por ora, sem juros).
Nota:Posto que, desta vez, presumei em morigerar/comedir o vocabulário, espero que o n/blogueiro-mor e censor do reino (de cognome o tesouras) publique este arrazoado.
Boa Páscoa para todos.
Hipólito

terça-feira, 7 de abril de 2009

Casa Hipólito, em Torres Vedras

Amigos Como nem só de tropa vive o homem... Enviaram-me hoje uma série de fotos dos anos 50. E uma delas quero partilhar connvosco - um eléctrico a passar no Campo Grande em Lisboa, com um placard de publicidade à Casa Hipólito. A Casa Hipólito foi a maior industria do século passado, em Torres Vedras. Esta fábrica teve o seu inicio em 1900 como pequena latoaria em Torres Vedras. Foi-se desenvolvendo, chegando a ter nos anos setenta, 1.200 funcionários, sendo um dos seus principais produtos, os fogareiros a petróleo. fogão a petróleo
Quem não se lembra destes fogões a petróleo, que cozinharam refeições para muitas gerações por esse Portugal fora, sendo exportados para muitos paises! Eram a coqueluche da época. E também os Petromax, candeeiros a petróleo e mais tarde a gáz, feitos na Casa Hipólito e exportados para todo o mundo, principalmente Africa, América do Sul e Central. Mas a empresa não resistiu à globalização desenfreada, não se modernizou atempadamente e teve que fechar as portas, tendo nessa altura apenas 300 funcionários. Mas o que me faz falar desta importante industria do concelho, a mais importante, é o facto de por ela terem passado dezenas de homens que serviram nas colónias, tal como nós.
Eram homens que ali trabalhavam, iam para o ultramar, regressavam, constituiam familia e todos os seus membros trabalhavam na Casa Hipólito. Era na altura prestigiante trabalhar na casa Hipólito - os salários eram atractivos, pagos a tempo e horas.
Os agricultores passaram a operários da Casa Hipólito, cultivando as suas vinhas em parte-time. O nivel de vida subiu no concelho. Hoje as suas antigas instalações estão transformadas num parque de estacionamento, em prédios de apartamentos e numa grande superficie.

foto dum fogão a petróleo e de um Petromax

A Casa Hipólito enriqueceu a história do concelho de Torres Vedras, mas com o seu fecho em 1990, morreu um pouco do espirito empreendedor e da cultura industrial nacional, que tanta falta nos faz hoje.
Leandro Guedes
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O Justo também relembra os seus contactos com a Casa Hipólito:
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"Amigo Guedes
Desta vez és tu a trazer-me gratas recordações.
Tanta vez que fui à Casa Hipólito naquela rua estreitinha, um casarão enorme, mas cheio de maquinarias e material tão diverso.
Desde a bomba d'água (aquelas com uma grande cabeçorra laranja) aos PETRÒMAX, ferramentas de jardinagem...eu sei lá, tudo lá comprava-mos.
Ainda me lembro dos fogareiros HIPÓLITO (que eram os melhores) a PITRÒLINO, de dar à bomba, e que de quando em vez tinha que se mudar a sola da dita para voltar a conseguir a chama azulada...
Não sabia que tinha fechado...mais uma mágoa para aquela terra, e a quem por essa centenária casa passou !!
Abraços e Saudades com muita pena. Zé Justo "

sábado, 4 de abril de 2009

Como se o tempo não tivesse passado...

Não sei quem, mas estou certo que, um de “nós” foi o autor da expressão: “Amigos na Guerra Amigos para Sempre”. Não sabendo a razão ao que levou tal proclamação, hoje, arrisco dizer que quem a escreveu ou a pronunciou, tinha decerto os seus motivos, na ideia, bem enraizados. Digo-o, porque partilho, convicto, da justeza desta afirmação.

Digo-o, porque não me passava pelo pensamento de quanta alegria sentida e da reciprocidade manifestada desse contentamento, no momento de abraçar um companheiro, um camarada, um amigo de guerra, sobretudo aqueles que há 4 décadas não os via! Têm sido momentos inesquecíveis. Só quem comigo partilhou esses encontros, saberão avaliar e testemunhar essa satisfação de amizade e de confraternização, de tal forma ricas que procuro continuar e partilhar com os demais, para o papel, até ao dia onde sei que deixei e encontro o lápis. Hoje, sei mais dos “meninos de ontem”! Hoje, quando reencontro um camarada e, por momentos partilhamos retratos da nossa vida, “de lá e de cá”, é com a mesma humildade, confiança e respeito mútuo, como no tempo de “menino” naquela terra distante. Falamos com a mesma humildade, confiança e respeito mútuo, como se o tempo não tivesse passado por nós. Falamos dos percursos das vidas, dos filhos, alguns, dos netos, das maleitas e das preocupações.

Partilho alegrias e desabafos com o amigo de guerra, amigo do peito, com a mesma humildade, confiança e respeito mútuo, como se o tempo não tivesse passado. Como foi possível “desviarem-nos a memória” de conhecer quem ao nosso lado lutava por causas, essas, muitos já sabiam, perdidas? Hoje, nos breves momentos do encontro, permite conhecer mais o “menino” nos tempos da sua infância e adolescência do que no período de 2 anos em território de terra vermelha e do pôr-do-sol inigualável. Como é bom e gratificante vê-los com os olhos ainda brilhantes e, a deixar cair uma ou outra lágrima que teima fugir, alegres e vaidosos, pois claro, satisfeitos do encontro e por contarem histórias passadas naquele chão distante que nos encontrou a todos, ainda, “meninos”.

Oh Pica; Lembras-te daquele momento no dia em que…? E naquela partida que pregamos ao…? E a fúria do major hortelão quando via que não tinha alfaces na horta…? E aquele petisco na arrecadação…? E a bebedeira do outro que ficou em coma alcoólico…? E o que sofremos porque…. Lembras-te Pica? Se me lembro camarada! É por tudo isto e, por muito mais que não consigo explicar, que continuo a procurar os meus “amigos de guerra, os meus amigos para sempre”! Pica Sinos

terça-feira, 3 de março de 2009

Do Cavaleiro

Amigo Zé, Eu prometi!!! A carta estava religiosamente guardada no fundo do BAÙ!!!! Eu sabia que existia!!! Acreditem que foi das poucas coisas que guardei! Porquê?! Esta carta reflecte a amizade, a brincadeira na base do respeito, traduz a minha forma de estar na vida como líder de um grupo – sempre apologista do máximo da liberdade aliado ao máximo da responsabilidade; reflecte a capacidade criativa que sempre admirei no Justo e que esta carta é o exemplo. Criativo na “história”, criativo no desenho, na certeza e na beleza da sua caligrafia. E como eu, também tu escrevias com caneta de tinta permanente, lembras-te? Desfruta deste bocadinho de papel e como eu, espero que dês sempre e sem hesitar (o Pica também) valor à nossa amizade, às nossas convicções e à nossa solidariedade. Obrigado Justo e Pica Sinos. Um abraço para todos, Cavaleiro .................................................. Que grande surpresa o Cavaleiro me pregou...não me lembrava nada da resposta ao postal ilustrado que ele nos enviou de Viana aquando das férias que veio passar à Metrópole.

A da "luz eléctrica" era mesmo para meter a faquinha, pois naquele tempo um dos temas fortes das conversas eram o confronto verbal sobre as "terras" de cada um.

A carta do "amor Guineense", está bem claro que se tratava de uma laracha para envenenar o ambiente amoroso com a namorada !! Aqui vai a "tradução do crioulo macarrónico":

Cavaleiro Meu Amor Quero que quando receberes esta minha carta estejas bem. Quero também que regresses depressa para minha casa, porque a tua presença me faz muito bem. Tenho muitos ciúmes, porque sei que tu estás muito feliz na casa aí na Metrópole. Todos os teus familiares, que te adoram, dispensam-te muitos mimos, mas sabes que quando estás na minha casa a tabanca da Rosa Balanta, e mesmo dando-me muitos chocolates, eu continuo a dar-te milhões de beijinhos na tua cova do ladrão. Eu a Rosinha (como tu me chamas) queria que me troucesses um vestido para o nosso casamento. Regressa rápido para perto de mim porque eu morro de saudades”.

Obrigado Chevalier por esta recordação.

Zé Justo

E O MIGUEL TAMBÉM SE JUNTOU Á FESTA

Caros Através de uma agradável e inesperada conversa com o Pica Sinos, tomei conhecimento deste blog. Foi com enorme prazer que revi este "papelinho", por mim assinado, e do qual, confesso, não tinha a mais remota noção da sua existência. Nem me lembrava que tinha o "cognome", (alcunha não é tão nobre), de TÉTÉ. Um grande abraço para todos e um especial agradecimento ao Raul por me ter proporcionado este agradável "regresso ao passado", que certamente vai ter futuro numa convivência que vamos reatar. Até breve. Um abraço José Miguel

3 de Março de 2009 23:24

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Os Milicianos... pelo Pica Sinos

foto tirada junto ao abrigo/base do Morteiro
EM TITE – OS MILICIANOS - FORAM OS VERDADEIROS COMANDANTES Na crónica “Espólio de Guerra” publicada, no Blog, em Abril de 2008, escrevo que desde a constituição (do Batalhão) até à data da guia de marcha para embarque, 08 de Abril de 1967, a nível dos militares oficiais do quadro e milicianos, a designação para comando das companhias operacionais agrupadas, registou alguns ajustamentos nas nomeações, não sendo pacífica pelo menos uma…
Digamos que o autor sabe da contenda, mas ainda não tem criada a “vontade” para a sua divulgação, contudo, não quer deixar de opinar sobre factos que de algum modo podem (ou não) terem simultaneidade, a exemplo; a observada prática de comando e a vivencia no dia-a-dia no teatro das operações, da maior parte dos oficiais do quadro indigitados para nos comandar, para concluir, e no mínimo dizer que a “sorte” não nos bafejou, dada a incompetência e a prepotência da maior parte dos ditos oficiais.
Sabemos quão deficiente foi a preparação das NT para a especificidade da guerra colonial, e as dificuldades iniciais que encontrámos no desenvolvimento da actividade operacional que nos foi destinada, não fora a bravura no comando das operações dos oficiais e dos furriéis milicianos, creio que o nosso espólio de guerra em termos de vidas e sofrimento humano seria muito mais penoso, comparativamente com aquele que infelizmente assistimos, e que jamais esquecerei.
Lembro ouvir dizer que, entre esses oficiais, havia quem defendesse, ainda antes da partida, que se deviam distribuir aos militares raquetes de ténis, para devolver as granadas de mão que o IN eventualmente remessasse.
Ou um outro, que só tinha olhos para as alfaces, debaixo de forte flagelação ao aquartelamento, no silo dos morteiros, se agachou com as mãos na cabeça, tremendo como varas verdes, estorvando o melhor funcionamento para o contra ataque, óbvio será dizer que do mato só conheciam o nome.
Um outro não gostava que o incomodassem durante e quando dormia para lhe serem entregues mensagens de carácter urgente, chegando mesmo a ameaçar, cobardemente, com acções de violência física.
Não permitia, fosse qual fosse o militar, sentar-se ao seu lado no jeep que o fazia transportar.
Ou mandava “desencostar” da sua secretária, quem quer que fosse se com um dedo nela se apoiasse.
Este homem, anos mais tarde, cruzou-se comigo no Teatro Tivoli, em Lisboa, por ocasião de um sarau de ballet, onde minha filha e a sua participaram.
Teve a coragem de virar a cara para evitar o cumprimento.
Quero finalizar dizendo que estas breves palavras, não foram fruto de qualquer conversa ou recolha de informação prévia, mas somente a percepção de quem esteve no terreno, conhecedor dos factos e observador atento.
Correndo o risco de estar a ser injusto ou ter falhas na precisão, não posso nem devo esquecer aqueles - tenho a certeza que muitos dos meus camaradas partilham da mesma opinião - homens que foram oficiais e furriéis milicianos como os verdadeiros comandantes na guerra em que participei. Para eles o meu maior respeito e admiração.
Pica Sinos

domingo, 15 de fevereiro de 2009

As meditações do Pica Sinos...

Meus Amigos
Tenho vindo a escrever factos da vida real em Tite, colocando para "detrás das costas" tudo o que foi, era verdadeiramente mau - a guerra -!
Quem lê as crónicas que venho produzindo até parece que a nossa vida naquela terra era um paraíso que não havia problemas, que era inexistente o sofrimento.
Um dia deste escrevo sobre isso, mas nada impede que seja um de vocês a fazer tal critica. Não é que não me lembre desses episódios.
Esses até estão muito mais "vivos" na minha memória do que os demais, mas não sou capaz de os relatar, o melhor não os quero relatar,não os quero recordar, e os que recordo não posso deixar de colocar, nesses escritos, uma ponta de humor.
Quero que me entendam por não descrevo esses momentos, mas tão só aqueles que me dão gozo e menos tristeza, se bem por entre linhas o sofrimento, a solidão, as incertezas, estão lá.
Camufladas é certo, mas estão lá. Mas tenho dúvidas que seja bem interpretado por alguns de nós e sobretudo por quem não viveu os momentos que nós vivemos e passamos.Talvez o Guedes, como mentor do blog, tivesse o cuidado em escrever um texto sobre esta forma de estar, tenho receio que alguns digam que foi "bom viver" em Tite.
Pica Sinos
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Este apontamento do Pica Sinos, é muito contundente, embora não pareça. Chama-nos à realidade, puxa por nós, desafia-nos para a luta... Na verdade, como ele diz, todos temos histórias para contar, situações mais ou menos militares, ou mais ou menos civis. Acho que possa ter havido alguém que tenha gostado de viver em Tite - ou porque tivesse tido uma vida difícil na Metrópole e ali tinha cama, mesa e roupa lavada, porque os havia;
ou porque o seu alheamento da situação era tanto que mal se apercebiam do sofrimento dos camaradas ali desterrados deixando muitos deles mulheres e filhos, para combaterem e morrerem por uma causa que não passou dum bluff, com medo, sofrimento, lágrimas e morte, um certo jogar às guerras por parte de militares do quadro e dos politicos;
ou porque simplesmente a sua (in) consciência não lhes permitia o desvio da trajectória duma bala, para eles tanto fazia. Cada um deles à sua maneira gostaram de estar em Tite, ou simplesmente não se “aperceberam” onde estiveram… As histórias têm surgido. As descrições também. Não estão em causa as suas gentes, pese embora a cumplicidade que em muitos casos era visível entre a população e o IN. Cumplicidade com o IN até do Branco e do Jamil, únicas lojas existentes. Mas eu, tal como o Pica, também tenho receio que alguém possa dizer que foi "bom viver" em Tite…! Mesmo assim, arrisco continuar a pedir aos nossos camaradas que tragam as suas histórias ao de cima. Desabafem, expludam, partam a loiça toda. Estamos cá, todos, para a luta ! Um abraço. Leandro Guedes
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Amigos Li, reli, e fiquei a pensar nestas vossas sábias palavras. Sois bons cronistas, parafraseando o nosso Amigo Minhoto, Cavaleiro.
Qualquer guerra, tem e esconde sempre secretos e tremendos interesses e ambições. Arrasa vidas, desmembra famílias, causa morte e traumas para toda a vida. No desespero de defender a própria vida, a guerra põe “igual contra igual” mata gentes das mesmas condições, com os mesmos problemas, medos e até as mesmas esperanças. Matamos filhos de pais como os nossos...que os vão chorar, como os nossos nos chorarão. No meu caso, estive lá, porque a isso fui obrigado, (o Presídio de Elvas era a alternativa) porque não tinha formação política (quantos a teriam?), nem conhecimentos da própria realidade da guerra, nem coragem para “dar o salto” e escapar aquele inferno de três anos.
Dei à dita “Mãe Pátria” três longos anos da minha juventude...nada mais lhe devo. Na Veiga Beirão, íamos vendo todos os anos, os colegas de curso mais velhos a serem mobilizados, mas também os havia que garantiam ir dar o “piro heróico” assim o fazendo alguns.
Já com alguns meses de Guiné, muitas vezes nas longas noites de serviço no Centro Cripto, e entre o decifrar de duas “secretas” me interrogava; como era possível, nós continuarmos com as Colónias em África, quando já tinham sido “empurrados” para fora daquele Continente, países como a Inglaterra, França, Espanha, Bélgica etc. Devia-mos ser muito grandes e especiais ou muito estúpidos!! A propaganda espalhava, que o nosso Colonialismo era diferente...mais soft...mais humano... estavam estes territórios em franco desenvolvimento... a vivência entre brancos e negros era normal e amistosa...todos tinham as mesmas oportunidades etc...etc... Num aspecto estou de acordo, até acredito na “boa convivência”. Como alguém disse, “foram os Portugueses que inventaram o mulato”...porque nesse campo, sempre “tivemos boa boca” !! Terei sempre presente a imagem de quando entrei pela primeira vez no quartel de Tite. Estavam junto à porta de armas dois indígenas muito novos e extremamente magros, rodeados pelo nosso pessoal, e um deles, com uma raiva enorme, desferia coronhadas nas cabeças de ambos com a G3. Ainda me soa aos ouvidos, tantos anos passados, o som das pancadas, como que, se tivesse a bater com um pau num coco rachado...eram exactamente assim. Impressionou-me o facto de...não ouvir um único gemido ou queixume da parte dos supostos guerrilheiros!! Mais tarde, vim a verificar, que mesmo presos, sobre apertados interrogatóris e espancamentos, poucos eram os rasgos de dor nos seus semblantes. Revoltou-me aquele espectáculo brutal. Tentei saber o porquê e um dos “velhinhos” de Lisboa que entretanto conheci, me informou que se tratava de dois guerrilheiros, que foram capturados escondidos na Bolanha e que tinham detonadores. Vi na prisão perto dos duches, um elemento IN capturado, que tinha sido atingido um pouco acima da cintura, por um estilhaço das nossas granadas de morteiro, com uns 30 cm, que lhe cortou a parte esquerda do tronco de um lado ao outro.
Como único tratamento, tinha um pano ensanguentado enrolado à cintura, estava impávido !!.
Reparei que a carne dos africanos, abaixo da pele escura é de um rosa claríssimo, exactamente como a nossa. Quando nos fitava, o seu olhar de profundo ódio e raiva, era impressionante, mas nunca disse uma palavra. Passados uns meses, depois de vários ataques ao aquartelamento, ver camaradas com quem na véspera tinha-mos jogado ás cartas e bebido umas cervejas, mortos, feridos, amputados, todo aquele sentimento de revolta e dó pelas coronhadas, se tinha desvanecido, e sentia um tremendo ódio a quem nos causava tanta dor e sofrimento. Tinha-se criado o sentimento de desprezo pela vida dos outros, e era “Matar para não ser Morto”, o eterno lema de todas as malditas guerras. Como dizem companheiros, momentos muito difíceis por nós passaram, durante aqueles dois longos anos. Tantas noites, sempre a pensar quando seria a minha hora...se chegaria à Metrópole e se "viria inteiro"... Sempre disse e assumi, que se não fosse algum efeito de álcool, nunca teria suportado com o mínimo de sanidade mental todo aquele tempo em permanente tensão. Não encontrava outra forma de atenuar os pânicos e pesadelos nocturnos. Fazia por me deitar sempre tarde, e um pouco grogue, para adormecer rápido e não ter a cabeça a latejar.
Exceptuando os dias de serviço, ou momentos de mais responsabilidade, a cerveja tornou-se o lenitivo de eleição para me abstrair dos medos, da realidade das temíveis e longas noites, sempre à espera de mais um ataque. Tudo isto já se passou, e hoje só de quando em vez me vêm estes maus momentos à lembrança, no entanto os bons, recordo-os muito. Tudo, menos a guerra, em África é lindo para mim !! Minha mulher, há anos, foi ver o filme bastante badalado “África Minha” não a acompanhei, o que ela estranhou ? Falas tanto da beleza de África, que gostavas de lá voltar! Este filme tem paisagens lindas, porque não te desperta interesse, não gostavas de recordar ? Respondi que o filme não me recordaria nunca o que mais me marcou...os cheiros daquela terra !!
Em 1992, proporcionou-se fazer uma Feira Internacional em Luanda. Seria uma estadia de um mês de novo em África, o que me agradou. Estava desfeito e saturado da longa viagem (viajar para mim sempre foi uma penitência), mas ao sair do avião, senti um enorme bafo quente...e então de novo...os cheiros...avivaram-me a alma. Senti uma sensação, misto de estranha e agradável, que me fez recuar o metabolismo aos antigos tempos de Guiné. Na Guiné, as cores da terra, aquele vermelhão, quiçá tantas vezes impregnado de sangue e lágrimas; As árvores de largos e enormes troncos; O odor característico e sensual das Bajudas, que como dizia Fernando Pessoa “Ao princípio estranha-se, mas depois entranha-se”. Os pássaros exóticos multicor de longa cauda, com o seu esvoaçar ondulado; Os "Jagudis", abutres horríveis feiosos de aspecto, mas tão úteis para a limpeza do solo (era crime punido o abater alguma destas aves);
Os mangos da India, com aquele sabor único, misto de marmelo e resina;
A mancarra já descascada (amendoim) que era vendida pelos miúdos em todo o lado; Nos cafés de Bissau aquelas sandes em pão de farinha de arroz, que ao apertar um pouco se desfaziam nas mãos;
Os céus nocturnos, que pela pouca luz em redor, nos mostravam biliões de estrelas; O café com leite e torradas com manteiga dos Açores (deliciosa) que eu e o Pica fazia-mos no nosso quarto, que nos sabiam pela vida, mesmo por vezes tendo que raspar e sacudir as formigas que tinham chegado primeiro ao banquete; As músicas gravadas em fita de bobine, no bruto gravador profissional AKAI do alferes Carvalho. Grandes programas da "Rádio Local de Tite" coordenados pelo Pica Sinos, com entrevistas, canções regionais dos TMS, anedotas etc. O prazer de no dia certo receber a roupa lavada e primorosamente engomada da minha lavadeira, por sinal linda, Sábado de seu nome (também haviam as de nome Quinta e Terça); As noitadas de Poker com o alferes Carvalho, grande mestre na arte da jogatina. Não sabia sequer o valor das cartas, e com ele aprendi a jogar a tudo !!; A grande admiração que aprendi a ter pelos Paraquedistas.
Homens super corajosos, operacionais de primeira água e super disciplinados, que noite dentro, conseguiam sair do nosso quartel, armados e equipados para montar emboscadas sem que ninguém desse por eles.
Autênticos fantasmas deslizando no Éter !!
Curioso e significativo o facto de quando em zona de combate, tinham que ter ordem específica para descalçar botas – sempre operacionais, de seu lema “Que nunca por vencidos se conheçam”. A “pesca a tiro” nos pontões da estrada do Enxudé, pelo eficaz método de disparo de uma curta rajada de G3 para o rio e esperar calmamente que os peixinhos começassem a vir ao de cima com as barriguinhas para o lado, mesmo a pedir frigideira. Tinha-mos também a variante da granada para dentro do rio, quando a pescaria se pretendia mais abundante; A deslumbrante luminosidade dos dias e o tremendo calor, que espicaçava os neurónios sensuais; Ver uma quantidade enorme de nativos Muçulmanos vestidos ricamente, pois iriam fazer a viagem da sua vida até Meca; A estranheza que me faziam os vegetais e frutos serem todos muito pequenos: Bananas, Tomates e outros, tinham dimensões ridículas comparando aos nossos. Até o gado era magríssimo; Chuvadas repentinas e diluvianas, com o forte ribombar dos trovões, que tão depressa surgiam, como findavam, deixando a terra vermelha fumegando, com aquele cheiro característico, sempre os cheiros; Os banhos a céu aberto com essas mesma chuvas, pois corria a crença que “preveniam e coravam as impinges” OS CHEIROS...óh os cheiros...como recordo os “doces” odores daquela terra;
Os rituais indígenas de alegria e morte, com os seus batuques durante um dia inteiro, a vaca morta no chão para compartir com todos os convivas, o correr da aguardente de cana pelas goelas ressequidas, que os fazia atacar os enormes tambores de troncos ocos, com redobrado frenesim; A beleza das “Bajudas” (nativas muito novas) com as suas peles de ébano imaculadas. O olhar das “Mulheres Grandes” (nativas mais velhas); As conversas de fim de tarde com os companheiros, cada qual recordando vivências e as saudosas terras que os viram nascer, e quiçá alguns não mais veriam;
Os petiscos, peça de substância para equilibrar a triste alimentação que nos impunham; As Suecadas no “Branco”...”quem perde paga a rodada”; O regalo para a nossa vista que era a maravilhosa imagem da “Branca”, que tantos pensamentos libidinosos nos sugeria e embelezava os sonhos; O que me impressionou e fez lacrimejar, tropeçar numa revista vinda da Metrópole o Bar Gingão no Bairro Alto...onde tive a minha primeira “namorada”...o Luso, o Lua Nova, nosso "escritório nocturno" durante anos. Que saudades já tinha daquela vida que me parecia ter sido à longos anos atrás; O receber correio das Madrinhas de Guerra, dos familiares, dos amigos; O tirar fotos “compostinhas” para enviar à família, como se tudo fosse um Paraíso, pois preocupações e temores já eles os tinham de sobra; O assistir, quase por favor, ao enterrar dos mortos na religião Muçulmana (maioritária na Guiné-Bissau), onde as covas eram abertas na vertical e lateralmente em forma de “L” onde então era depositado o corpo, envolto num pano branco.
Hoje sabe-se que uma das formas de propagação da Cólera na Guiné-Bissau é através do estranho e quase bárbaro ritual dos familiares e amigos, beberem da água que serviu para lavar o corpo do falecido !!??; As calorassas de 40 e tal graus, em que se abria um ovo sobre uma chapa de “lusalite” e em poucos segundos, como que por milagre, aparecia uma omoleta; Os duches colectivos, onde nós brancos e soldados negros da milícia gozava-mos com as pilas uns dos outros, e que mal acabava-mos de nos secar, logo reaparecia a suadeira; O ritual de levar as revistas de foto-novelas “Capricho” para os WC...sabe-se lá com que secretas intenções;
O ouvir os insectos nocturnos no seu eterno desafio cantante; O admirar a destreza dos Costureiros nativos (sempre homens), agarrados a velhas máquinas de costura, no fabrico de calções de chita em cores garridas, que todos vestia-mos por tão frescos e leves; As “lerpadas” nas mesas do refeitório, algumas vezes com os “Paras” como parceiros; O comprar de sapatilhas de “meter o dedo” quase todos os meses, pois rompiam-se todas;
O milagroso Lion Brand, eficaz repelente de insectos.
Uma espiral verde, que à noite se acendia na ponta e se consumia lentamente, aniquilando os malvados mosquitos, devoradores e sempre sequiosos de sangue; O tabaquinho SG Filtro, vindo da Metrópole, pois a Guiné não tinha fabrico próprio; A fruta em lata que nos davam no refeitório, mas que a maior parte do pessoal da província não gostava e que trocava-mos pela nossa ração de vinho (que diziam ter cânfora misturada, para quebrar os “ímpetos da juventude”); Os paradisíacos por-do-sol, com o imenso céu raiado de majestosos vermelhos, roxos e azuis; O prazer de desenhar no cinto de lona, um sinal, símbolo que mais um mês tinha passado naquele inferno; O sentir verdadeiramente o peso e significado da palavra Saudade, quando tudo aquilo a que era indiferente e detestava em Lisboa, aparecia com outra roupagem.
O ouvir com prazer, de músicas que não imaginava algum dia apreciar.
Com o passar dos meses, a milhares de quilómetros de distância, cada vez mais tudo assumia outra e maior importância: O Fado, a música folclórica, os cantores ditos românticos da época, fotos de lugares por onde passava diariamente e que agora me pareciam tão longínquos. A partir de um ano de comissão, tudo começava a tornar-se muito mais penoso, e os medos do não retorno aumentavam. A constante tensão, a má e pobre alimentação do quartel, (eu e o Pica lá nos safava-mos, e éramos bastante faltosos às vitualhas regimentais no refeitório) o arrastar lento dos dias, a saturação das repetitivas conversas, tudo contribuía para o massacrar do corpo e da mente.
No regresso à Metrópole, findos os intermináveis dois anos, a bordo do Uige, ver no horizonte começar a desenhar-se a Ponte Sobre o Tejo...com os olhos repletos de lágrimas, que por falta de forças não chegaram a escorrer... ao sentir-me inteiro no magro corpo...então tive a certeza de estar a viver o dia mais feliz da minha vida. Estas recordações, são para mim como a Paixão quando se apaga, dá lugar ao Amor e depois à sublimação da Ternura e da Veneração. Tudo o que foi bom, fez no meu arquivo da memória, apagar os horrores da guerra... Várias vezes me dispus a voltar a Tite, só com amigos ou com a minha mulher.
A vida agitada e sempre super-ocupada profissionalmente, levou-me sempre a protelar e nunca concretizar esta viagem. Seria talvez a única que faria com imenso gosto. Tenho pena !!
Amigos e Companheiros, afinal, para mim, sempre ficou algum bocadinho bom daquelas longas paragens. Durante 13 arrastados anos, milhares e milhares de jovens, pouco mais que crianças, foram forçados a uma Guerra que provavelmente se podia ter evitado...e que cimentou ódios e indiferenças, mesmo depois de terminada. Mas de uma coisa estou certo: Passamos de meninos a homens num forcing de situações e vivências que nos tornaram mais duros e responsáveis, embora feridos por dentro e revoltados por vezes. Creio que a nossa geração, fez o melhor para que os filhos tivessem tudo, até talvez em demasia. Tenho receio pelos sinais que todos conhecemos, que muitos se tornem egoístas e egocêntricos, e que todos os nossos sacrifícios foram em vão...
Que também para vós tenham acontecido bons momentos, e que os partilhem com todos no vosso Blog. Zé Justo fotos Google JJ arquivo e edição fotos