A todas as Mães do Universo
Blog BART 1914 - 2 Maio 2010
Você é linda, canção de Caetano Veloso http://www.youtube.com/watch?v=3tcY9rE_Cjs
Google - José Justo
“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma”
(Do Padre António Vieira, no "Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma", na Capela Real, ano 1669. Lembrado pelo ex-furriel milº Patoleia Mendes, dirigido-se aos ex-combatentes da guerra colonial.).
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"Ó gentes do meu Batalhão, agora é que eu percebi, esta amizade que sinto, foi de vós que a recebi…"
(José Justo)
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“Ninguém desce vivo duma cruz!...”
"Amigo é aquele que na guerra, nos defende duma bala com o seu próprio corpo"
António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente
referindo-se aos ex-combatentes da guerra colonial
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“Aos Combatentes que no Entroncamento da vida, encontraram os Caminhos da Pátria”
Frase inscrita no Monumento aos Heróis da Guerra Colonial, no Entroncamento.
A todas as Mães do Universo
Blog BART 1914 - 2 Maio 2010
Você é linda, canção de Caetano Veloso http://www.youtube.com/watch?v=3tcY9rE_Cjs
Google - José Justo
Com a devida vénia, para que não subsistam quaisquer dúvidas, passo a capear dois excertos do texto inserto no site “guerra colonial” sobre o correio:. . .
Amigos
Como nem só de tropa vive o homem...
Enviaram-me hoje uma série de fotos dos anos 50. E uma delas quero partilhar connvosco - um eléctrico a passar no Campo Grande em Lisboa, com um placard de publicidade à Casa Hipólito. A Casa Hipólito foi a maior industria do século passado, em Torres Vedras.
Esta fábrica teve o seu inicio em 1900 como pequena latoaria em Torres Vedras. Foi-se desenvolvendo, chegando a ter nos anos setenta, 1.200 funcionários, sendo um dos seus principais produtos, os fogareiros a petróleo.
fogão a petróleo
foto dum fogão a petróleo e de um Petromax
Não sei quem, mas estou certo que, um de “nós” foi o autor da expressão: “Amigos na Guerra Amigos para Sempre”.
Não sabendo a razão ao que levou tal proclamação, hoje, arrisco dizer que quem a escreveu ou a pronunciou, tinha decerto os seus motivos, na ideia, bem enraizados.
Digo-o, porque partilho, convicto, da justeza desta afirmação.
Digo-o, porque não me passava pelo pensamento de quanta alegria sentida e
da reciprocidade manifestada desse contentamento, no momento de abraçar um companheiro, um camarada, um amigo de guerra, sobretudo aqueles que há 4 décadas não os via!
Têm sido momentos inesquecíveis. Só quem comigo partilhou esses encontros, saberão avaliar e testemunhar essa satisfação de amizade e de confraternização, de tal forma ricas que procuro continuar e partilhar com os demais, para o papel, até ao dia onde sei que deixei e encontro o lápis.
Hoje, sei mais dos “meninos de ontem”!
Hoje, quando reencontro um camarada e, por momentos partilhamos retratos da nossa vida, “de lá e de cá”, é com a mesma humildade, confiança e respeito mútuo, como no tempo de “menino” naquela terra distante.
Falamos com a mesma humildade, confiança e respeito mútuo, como se o tempo não tivesse passado por nós.
Falamos dos percursos das vidas, dos filhos, alguns, dos netos, das maleitas e das preocupações.
Partilho alegrias e desabafos com o amigo de guerra, amigo do peito, com a mesma humildade, confiança e respeito mútuo, como se o tempo não tivesse passado.
Como foi possível “desviarem-nos a memória” de conhecer quem ao nosso lado lutava por causas, essas, muitos já sabiam, perdidas?
Hoje, nos breves momentos do encontro, permite conhecer mais o “menino” nos tem
pos da sua infância e adolescência do que no período de 2 anos em território de terra vermelha e do pôr-do-sol inigualável.
Como é bom e gratificante vê-los com os olhos ainda brilhantes e, a deixar cair uma ou outra lágrima que teima fugir, alegres e vaidosos, pois claro, satisfeitos do encontro e por contarem histórias passadas naquele chão distante que nos encontrou a todos, ainda, “meninos”.
Oh Pica;
Lembras-te daquele momento no dia em que…?
E naquela partida que pregamos ao…?
E a fúria do major hortelão quando via que não tinha alfaces na horta…?
E aquele petisco na arrecadação…?
E a bebedeira do outro que ficou em coma alcoólico…?
E o que sofremos porque….
Lembras-te Pica?
Se me lembro camarada!
É por tudo isto e, por muito mais que não consigo explicar, que continuo a procurar os meus “amigos de guerra, os meus amigos para sempre”!
Pica Sinos
Amigo Zé,
Eu prometi!!!
A carta estava religiosamente guardada no fundo do BAÙ!!!!
Eu sabia que existia!!!
Acreditem que foi das poucas coisas que guardei!
Porquê?!
Esta carta reflecte a amizade, a brincadeira na base do respeito, traduz a minha forma de estar na vida como líder de um grupo – sempre apologista do máximo da liberdade aliado ao máximo da responsabilidade; reflecte a capacidade criativa que sempre admirei no Justo e que esta carta é o exemplo. Criativo na “história”, criativo no desenho, na certeza e na beleza da sua caligrafia. E como eu, também tu escrevias com caneta de tinta permanente, lembras-te?
Desfruta deste bocadinho de papel e como eu, espero que dês sempre e sem hesitar (o Pica também) valor à nossa amizade, às nossas convicções e à nossa solidariedade.
Obrigado Justo e Pica Sinos.
Um abraço para todos,
Cavaleiro
..................................................
Que grande surpresa o Cavaleiro me pregou...não me lembrava nada da resposta ao postal ilustrado que ele nos enviou de Viana aquando das férias que veio passar à Metrópole.
A da "luz eléctrica" era mesmo para meter a faquinha, pois naquele tempo um dos temas fortes das conversas eram o confronto verbal sobre as "terras" de cada um.
A carta do "amor Guineense", está bem claro que se tratava de uma laracha para envenenar o ambiente amoroso com a namorada !! Aqui vai a "tradução do crioulo macarrónico":
“Cavaleiro Meu Amor
Quero que quando receberes esta minha carta estejas bem.
Quero também que regresses depressa para minha casa, porque a tua presença me faz muito bem.
Tenho muitos ciúmes, porque sei que tu estás muito feliz na casa aí na Metrópole.
Todos os teus familiares, que te adoram, dispensam-te muitos mimos, mas sabes que quando estás na minha casa a tabanca da Rosa Balanta, e mesmo dando-me muitos chocolates, eu continuo a dar-te milhões de beijinhos na tua cova do ladrão.
Eu a Rosinha (como tu me chamas) queria que me troucesses um vestido para o nosso casamento.
Regressa rápido para perto de mim porque eu morro de saudades”.
Obrigado Chevalier por esta recordação.
Zé Justo
E O MIGUEL TAMBÉM SE JUNTOU Á FESTA
Caros
Através de uma agradável e inesperada conversa com o Pica Sinos, tomei conhecimento deste blog.
Foi com enorme prazer que revi este "papelinho", por mim assinado, e do qual, confesso, não tinha a mais remota noção da sua existência.
Nem me lembrava que tinha o "cognome", (alcunha não é tão nobre), de TÉTÉ.
Um grande abraço para todos e um especial agradecimento ao Raul por me ter proporcionado este agradável "regresso ao passado", que certamente vai ter futuro numa convivência que vamos reatar.
Até breve.
Um abraço
José Miguel
3 de Março de 2009 23:24
foto tirada junto ao abrigo/base do Morteiro
das operações, da maior parte dos oficiais do quadro indigitados para nos comandar, para concluir, e no mínimo dizer que a “sorte” não nos bafejou, dada a incompetência e a prepotência da maior parte dos ditos oficiais.
egando mesmo a ameaçar, cobardemente, com acções de violência física. 
m os mesmos problemas, medos e até as mesmas esperanças.
Matamos filhos de pais como os nossos...que os vão chorar, como os nossos nos chorarão.
No meu caso, estive lá, porque a isso fui obrigado, (o Presídio de Elvas era a alternativa) porque não tinha formação política (quantos a teriam?), nem conhecimentos da própria realidade da guerra, nem coragem p
ara “dar o salto” e escapar aquele inferno de três anos.
rviço no Centro Cripto, e entre o decifrar de duas “secretas” me interrogava; como era possível, nós continuarmos com as Colónias em África, quando já tinham sido “empurrados” para fora daquele Continente, países como a Inglaterra, França, Espanha, Bélgica etc.
Devia-mos ser muito grandes e especiais ou muito estúpidos!!
A propaganda espalhava, que o nosso Colonialismo era diferente...mais soft...mais humano... estavam estes territórios em franco desenvolvimento... a vivência entre brancos e negros era normal e amistosa...todos tinham as mesmas oportunidades etc...etc...
Num as
pecto estou de acordo, até acredito na “boa convivência”.
Como alguém disse, “foram os Portugueses que inventaram o mulato”...porque nesse campo, sempre “tivemos boa boca” !!
Terei sempre presente a imagem de quando entrei pela primeira vez no quartel de Tite.
Estavam junto à porta de armas dois indígenas muito novos e extremamente magros, rodeados pelo nosso p
verificar, que mesmo presos, sobre apertados interrogatóris e espancamentos, poucos eram os rasgos de dor nos seus semblantes.
Revoltou-me aquele espectáculo brutal.
Tentei sabe
r o porquê e um dos “velhinhos” de Lisboa que entretanto conheci, me informou que se tratava de dois guerrilheiros, que foram capturados escondidos na Bolanha e que tinham detonadores.
Vi na prisão perto dos duches, um elemento IN capturado, que tinha sido atingido um pouco acima da cintura, por um estilhaço das nossas granadas de morteiro, com uns 30 cm, que lhe cortou a parte esquerda do tronco de um lado ao outro.
os fitava, o seu olhar de profundo ódio e raiva, era impressionante, mas nunca disse uma palavra.
Passados uns meses, depois de vários ataques ao aquartelamento, ver camaradas com quem na véspera tinha-mos jogado ás cartas e bebido umas cervejas, mortos, feridos, amputados, todo aquele sentime
nto de revolta e dó pelas coronhadas, se tinha desvanecido, e sentia um tremendo ódio a quem nos causava tanta dor e sofrimento.
Tinha-se criado o sentimento de desprezo pela vida dos outros, e era “Matar para não ser Morto”, o eterno lema de todas as malditas guerras.
Como dizem companheiros, momentos muito difíceis por nós passaram, durante aqueles dois longos anos.
Tantas noites, s
empre a pensar quando seria a minha hora...se chegaria à Metrópole e se "viria inteiro"...
Sempre disse e assumi, que se não fosse algum efeito de álcool, nunca teria suportado com o mínimo de sanidade mental todo aquele tempo em permanente tensão.
Não encontrava outra forma de atenuar os pânicos e pesadelos nocturnos.
Fazia por me deitar sempre tarde, e um pouco
grogue, para adormecer rápido e não ter a cabeça a latejar.
o lenitivo de eleição para me abstrair dos medos, da realidade das temíveis e longas noites, sempre à espera de mais um ataque.
Tudo isto já se passou, e hoje só de quando em vez me vêm estes maus momentos à lembrança, no entanto os bons, recordo-os muito.
Tudo, menos a guerra, em África é lindo para mim !!
Min
ha mulher, há anos, foi ver o filme bastante badalado “África Minha” não a acompanhei, o que ela estranhou ? Falas tanto da beleza de África, que gostavas de lá voltar! Este filme tem paisagens lindas, porque não te desperta interesse, não gostavas de recordar ? Respondi que o filme não me recordaria nunca o que mais me marcou...os cheiros daquela terra !!
Seria uma estadia de um mês de novo em África, o que me agradou.
Estava desfeito e saturado da longa viagem (viajar para mim sempre foi uma penitência), mas ao sair do avião, senti um enorme bafo quente...e então de novo...os cheiros...avivaram-me a alma. Senti uma sensação, misto de estranha e agradável, que me fez recuar o metabolismo aos antigos tempos de Guiné.
Na Guiné
, as cores da terra, aquele vermelhão, quiçá tantas vezes impregnado de sangue e lágrimas;
As árvores de largos e enormes troncos;
O odor característico e sensual das Bajudas, que como dizia Fernando Pessoa “Ao princípio estranha-se, mas depois entranha-se”.
Os pássaros exóticos multicor de longa cauda, com o seu esv
oaçar ondulado;
Os "Jagudis", abutres horríveis feiosos de aspecto, mas tão úteis para a limpeza do solo (era crime punido o abater alguma destas aves);
tar um pouco se desfaziam nas mãos;
manteiga dos Açores (deliciosa) que eu e o Pica fazia-mos no nosso quarto, que nos sabiam pela vida, mesmo por vezes tendo que raspar e sacudir as formigas que tinham chegado primeiro ao banquete;
As músicas gravadas em fita de bobine, no bruto gravador pr
ofissional AKAI do alferes Carvalho. Grandes programas da "Rádio Local de Tite" coordenados pelo Pica Sinos, com entrevistas, canções regionais dos TMS, anedotas etc.
O prazer de no dia certo receber a roupa lavada e primorosamente engomada da minha lavadeira, por sinal linda, Sábado de seu nome (também haviam as de nome Quinta e Terça);
As noitadas de Poker com o alferes Carvalho, grande mestre na arte da jogatina.
Não sabia sequer o valor das cartas, e com ele aprendi a jogar a tudo !!;
A grande admiração que aprendi a ter pelos Paraquedistas. 
método de disparo de uma curta rajada de G3 para o rio e esperar calmamente que os peixinhos começassem a vir ao de cima com as barriguinhas para o lado, mesmo a pedir frigideira.
Tinha-mos também a variante da granada para dentro do rio, quando a pescaria se pretendia mais abundante;
A deslumbrante luminosidade dos dias e o tremendo calor, que espicaçava os neurónios sensuais;
Ver uma quantidade enorme de nativos Muçulmanos vestidos ricamente, pois iriam fazer a viagem da sua vida até Meca;
A estranheza que me faziam os vegetais e frutos serem todos muito pequenos: Bananas, Tomates e outros, tinham dimensões ridículas comparando aos nossos.
Até o gado era magríssimo;
Chuvadas repentinas e diluvianas, com o forte ribombar do
s trovões, que tão depressa surgiam, como findavam, deixando a terra vermelha fumegando, com aquele cheiro característico, sempre os cheiros;
Os banhos a céu aberto com essas mesma chuvas, pois corria a crença que “preveniam e coravam as impinges”
OS CHEIROS...óh os cheiros...como recordo os “doces” odores daquela terra;
As conversas de fim de tarde com os companheiros, cada qual recordando vivências e as saudosas terras que os viram nascer,
evista vinda da Metrópole o Bar Gingão no Bairro Alto...onde tive a minha primeira “namorada”...o Luso, o Lua Nova, nosso "escritório nocturno" durante anos. Que saudades já tinha daquela vida que me parecia ter sido à longos anos atrás;
O receber correio das Madrinhas de Guerra, dos familiares, dos amigos;
O tirar fotos “compostinhas” para enviar à família, como se tudo fosse um Paraíso, pois preocupações e temores já eles os tinham
O ritual de levar as revistas de foto-novelas “Capricho” para os WC...sabe-se lá com que secretas intenções;
fabrico de calções de chita em cores garridas, que todos vestia-mos por tão frescos e leves;
As “lerpadas” nas mesas do refeitório, algumas vezes com os “Paras” como parceiros;
O comprar de sapatilhas de “meter o dedo” quase todos os meses, pois rompiam-se todas;
O tabaquinho SG Filtro, vindo da Metrópole, pois a Guiné não tinha fabrico próprio;
A fruta em lata que nos davam no refeitório, mas que a maior parte do pessoal da província não gostava e que trocava-mos pela nossa ração de vinho (que diziam ter cânfora misturada, para quebrar os “ímpetos da juventude”);
Os paradisíacos por-do-sol, com o imenso céu raiado de majestosos vermelhos, roxos e azuis;
O prazer de desenhar no cinto de lona, um sinal, símbolo que mais um mês tinha passado naquele inferno;
O sentir verdadeiramente o peso e significado da palavra Saudade, quando tudo aquilo a que era indiferente e detestava em Lisboa, aparecia com outra roupagem.
umia outra e maior importância: O Fado, a música folclórica, os cantores ditos românticos da época, fotos de
lugares por onde passava diariamente e que agora me pareciam tão longínquos.
A partir de um ano de comissão, tudo começava a tornar-se muito mais penoso, e os medos do não retorno aumentavam.
A constante tensão, a má e pobre alimentação do quartel, (eu e o Pica lá nos safava-mos, e éramos bastante faltosos às vitualhas regimentais no refeitório) o arrastar lento dos dias, a saturação das repetitivas conversas, tudo contribuía para o massacrar do corpo e da mente.
No regresso à Metrópole, findos os intermináveis dois anos, a bordo do Uige, ver no horizonte começar a desenhar-se a Ponte Sobre o Tejo...com os olhos repletos de lágrimas, que por falta de forças não chegaram a escorrer... ao sentir-me inteiro no magro corpo...então tive a certeza de estar a viver o dia mais feliz da minha vida.
Estas recordações, são para mim como a Paixão quando se apaga, dá lugar ao Amo
r e depois à sublimação da Ternura e da Veneração.
Tudo o que foi bom, fez no meu arquivo da memória, apagar os horrores da guerra...
Várias vezes me dispus a voltar a Tite, só com amigos ou com a minha mulher.
ais que crianças, foram forçados a uma Guerra que provavelmente se podia ter evitado...e que cimentou ódios e indiferenças, mesmo depois de terminada.
Mas de uma coisa estou certo: Passamos de meninos a homens num forcing de sit
Que também para vós tenham acontecido bons momentos, e que os partilhem com todos no vosso Blog.
Zé Justo
fotos Google
JJ arquivo e edição fotos