Amigos
Batalhão de Artilharia 1914
“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma”
(Do Padre António Vieira, no "Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma", na Capela Real, ano 1669. Lembrado pelo ex-furriel milº Patoleia Mendes, dirigido-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar.).
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"Ó gentes do meu Batalhão, agora é que eu percebi, esta amizade que sinto, foi de vós que a recebi…"
(José Justo)
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“Ninguém desce vivo duma cruz!...”
"Amigo é aquele que na guerra, nos defende duma bala com o seu próprio corpo"
António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente
referindo-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar
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“Aos Combatentes que no Entroncamento da vida, encontraram os Caminhos da Pátria”
Frase inscrita no Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar, no Entroncamento.
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"Tite é uma memória em ruínas, que se vai extinguindo á medida que cada um de nós partir para “outra comissão” e quando isso nos acontecer a todos, seremos, nós e Tite, uma memória que apenas existirá, na melhor das hipóteses, nas páginas da história."
Batalhão de Artilharia 1914, Tite/Guiné
Não
voltaram todos… com lágrimas que não se veem, com choro que não se ouve… Aqui
estamos, em sentido e silenciosos, com Eles, prestando-Lhes a nossa Homenagem.
Ponte de Lima, Monumento aos Heróis
da Guerra do Ultramar
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domingo, 4 de outubro de 2026
Victor Manuel Carvalho Amaral, voluntário
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Espólio do Bart 1914 - um trabalho do Pica Sinos.

O presente trabalho tem apenas como objectivo dar a conhecer a familiares e aos amigos dois anos da vida de muitos nós na chamada guerra colonial. Os factos relatados, decerto por defeito, estão abertos à discussão. Venham de lá esses comentários.
ESPOLIO DE GUERRA
O BATALHÃO DE ARTILHARIA 1914
(SEM TEMOR)
I
(Constituição e Comando)
A formação das Unidades destinadas a constituir o Batalhão de Artilharia 1914, no objectivo de intervir militarmente na guerra na província ultramarina da Guiné-Bissau, o pessoal mobilizado, com excepção de um pequeno núcleo da região da Estremadura e Ribatejo, era quase todo das regiões das Beiras e Minho.
Desde a constituição até à data da guia de marcha para embarque, 08 de Abril de 1967, a nível dos militares oficiais do quadro e milicianos, a designação para comando das companhias operacionais agrupadas, registou alguns ajustamentos nas nomeações, não sendo pacifica pelo menos uma, pois foi conhecido o propósito de formular uma exposição ao Ministro do Exercito.
Os estágios das manobras do aperfeiçoamento militar tiveram lugar na Serra da Carregueira (Sintra) e no Guincho (Cascais), onde na primeira foram vitimas três soldados por acidente de arma de fogo, vindo a falecer dois em consequência dos ferimentos verificados.
O Aquartelamento do Regimento da Artilharia Costa na Parede foi palco da cerimónia, com missa campal, para a entrega do guião ao Batalhão (Companhia de Comandos e Serviços, Companhias de Artilharia nºs 1690, 1691 e 1692).
A 08 de Abril de 1967, no Cais da Rocha de Conde Óbitos (Lisboa) após as cerimónias da praxe, a Companhia de Comando e Serviços e as Companhias Operacionais de Artilharia 1961 e 1962, embarcam, com destino à Guiné-Bissau, no navio “Uige”. A Companhia Operacional de Artilharia 1690 embarca no navio “Ana Mafalda”.
A 15 de Abril de 1967, na Guiné-Bissau, as Companhias Operacionais, deixam de depender do Batalhão 1914, para sua substituição são designadas as Companhias de Caçadores 1549, 1566, 1567 e a 1587. Ainda os Pelotões de Morteiros 1039 e de Reconhecimento Daimler 1131.
II
(Actividade operacional)
A actividade operacional do Batalhão desenvolveu-se num terreno que não constituiu excepção à generalidade dos terrenos da Guiné-Bissau; cotas bastantes baixas, grandes áreas alagadiças, não só na época das chuvas como em resultado das marés. Grande quantidade de cursos de água. Com excepção de algumas áreas na região de Falacunda não existem grandes matas na região,
Em termos de aglomerados populacionais os mais importantes eram os da Ilha de Bolama, Tite, Bissassema, Fulacunda e Empada.
O IN actuando com grande mobilidade, é conhecedor do terreno com pormenor. Organizado militar, politica e administrativamente em largas zonas territoriais, com o apoio das populações, é forte, aguerrido e dispõe de um potencial de meios igual se não superior aos do Batalhão. Meios esses só desequilibrado graças à actuação da Força Aérea. Paralelamente à luta armada, exerce uma actividade importante no controle das populações e na sua promoção social.
Ás nossas NT geram-se algumas dificuldades na operacionalidade de conjunto pelo facto das Companhias operacionais estarem espalhadas pelo vasto sector operacional. A exemplo; na área de Tite, o Comando do Batalhão está na primeira linha do IN, pois não tem à sua volta quaisquer outras unidades de defesa. Jabadá está a quilómetros, a Companhia em Fulacunda está completamente isolada e as tropas de Empada estão numa situação que apenas lhe permite controlar a povoação e o destacamento de Ualada a cerca de 5 Km. Assim sendo é a região de Tite que oferece mais possibilidades de obter o sucesso não só do ponto vista militar como de controlo e promoção social, laboral, educacional e sanitária das populações, e consequentemente travar ao IN objectivos de flagelação militar às NT e do controle das populações nesta mesma região.
Como resultado das operações militares das NT, estima-se que o IN sofreu cerca de 300 baixas militares e cerca 130 capturados (cerca de 200 mortos e de 100 feridos). Do material capturado destacam-se milhares de munições do tipo variado, minas, dezenas de granadas de mão, uma vintena de armas automáticas de marca e calibre diverso entre outros equipamentos de guerra.
As flagelações do IN ás nossas tropas assim como aos aquartelamentos, foram registadas cerca de 150 baixas militares, três capturados dois desaparecidos (29 mortos, 120 feridos). Os flagelamentos que o IN infligiu aos aquartelamentos das NT das áreas já referidas, foram cerca de 110 flagelações. Sendo que os mais flagelados foras os de Fulacunda, Nova Sintra e Tite.
III
(Louvores e Condecorações)
Pelos serviços prestados à Pátria……Aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando…… ficaram registados no Quadro de Honra do Batalhão todos os camaradas que morreram no espaço operacional da Guiné-Bissau, assim com os dois camaradas Furriéis desaparecidos, um em combate e o outro no Rio Geba. Igualmente os três militares capturados na Operação Bissassema.
Registam-se 49 louvores concedidos pelo Comandante Militar, 48 pelo Comandante do Agrupamento, 200 pelo Comandante do Batalhão e 79 pelo Comandante da Companhia Comandos e Serviços. Num total de 376 Louvores,
Nas Condecorações, com a Cruz de Guerra de 2ª classe, 2 Alferes e 1 Soldado; com a Cruz de Guerra de 3ª classe, 1 Furriel Miliciano; com a Cruz de Guerra de 4ª classe, 1 Cabo e 7 Soldados. Das milícias, com a Cruz de Guerra de 4ª classe, 1 Alferes e 1 Soldado 2 vezes. Com a Medalha de Mérito Militar de 4ª Classe 1 Furriel.
Raul Pica Sinos
terça-feira, 4 de março de 2008
O Centro cripto e os seus acólitos ...
Foto do cais do Enxudé, porto fluvial por onde eram feitos os principais reabastecimentos a Tite. Estes reabastecimentos também eram feitos em pequena escala, através da aviação (avionetas Dornier´s e aviões bimotores Dakotas), porque Tite tinha um pequeno aerodromo de terra batida. O correio (aerogramas e não só) era normalmente recebido por via aérea, e constituia o mais desejado e festejado acontecimento em Tite.Bissau, 14 de Abril de 1967. Oito dias depois do embarque no Uige em Lisboa! Á nossa esquerda a cidade. Desembarca, em último lugar, a Companhia de Comandos e Serviços do BART 1914, não sabendo a maior parte dos jovens soldados o seu destino. Chegamos ao Enxudé, já noite, porto de mar (só mais tarde soubemos nome), situado a cerca de 8/10 quilómetros do quartel onde a Companhia ficaria sitiada. Um conjunto de veículos de grande e médio porte depressa foram carregados de “periquitos” com sua bagagem. A grande velocidade, o rumo foi Tite. Ou seja, a localidade que em Janeiro de 1963, tiveram inicio as acções de guerrilha do PAIGC na Guiné.
(II)
Á minha e espera e do Justo, o Sopinha! Quem são os Criptos? Quem são? Sorridente abraçou-nos e acalmou-nos. Um “velho” comparativamente à nossa juventude, só tinha mais dois anos.
Não nos deixou mais, o Sopinha, acompanhou-nos à nossa camarata, apresentou-nos a outros camaradas das transmissões e fomos ao bar beber um copo. No dia seguinte, já no Centro de Cripto, em reunião de trabalho, fez o ponto da situação da operacionalidade do centro, dos problemas vividos, e mais tarde, ajudou-nos na montagem do quarto, onde dormimos, chorámos e sonhámos até à hora da partida.
Creio, em Setembro desse mesmo ano, a Companhia Operacional onde o Sopinha estava integrado, regressou Lisboa. Sendo substituída por uma outra a Companhia de Caçadores a….1549, incorporando outro Operador de Cripto, o camarada Contínuo.
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Tivemos a oportunidade e a honra de assistirmos em Tite, no mês de Julho de 1967, ao seu casamento por procuração, No dia do casamento, fizemos uma boda, participando também o Furriel Cavaleiro e o Alferes Carvalho. A sua esposa infelizmente morreu no passado ano de 2006.
O Sopinha já está reformado, trabalhou durante largos anos na Associação empresarial, a Groquifar.
Ao Continuo aconteceu, segundo a CHERET, algo que jamais devia acontecer a um Operador de Cripto. Foi capturado juntamente com o Capitulo e o Rosa, pelo PAIGC, no mês de Fevereiro de 1968, numa operação desencadeada em Bissassema. Foi levado para a Guiné Conacry, onde esteve prisioneiro até as tropas portuguesas o libertarem. Muito se especulou e se tem especulado sobre este acontecimento. Nunca ouvi a versão na figura principal.
O Contínuo, sempre morou e mora para os lados de Carcavelos, a sua esposa Luísa foi, durante muitos anos, minha colega nos Supermercados Pão de Açúcar. Em conversa telefónica, prometeu-me, quando eu proporcionar um almoço ou jantar entre os cinco (Cavaleiro, Continuo, Justo. Pica e Sopinha) poderá eventualmente contar umas coisas. Até lá, tenham boa saúde, disse!
(III)
O Centro de Cripto em Tite estava situado no edifício das transmissões. Em sua frente, o Mural da homenagem aos mortos em combate, o Hastear de Bandeira e a Porta de Armas.
Os Operadores de Cripto que nele trabalharam era, foram durante algum tempo em numero de três, tinham como função a aplicação das técnicas da transformação da escrita para ilegível, manual ou em termos mecânicos, definindo o grau de segurança e prioridade, de modo a ser apenas legível, por um outro camarada da especialidade onde quer que se encontrasse.
Na hierarquia de comando, um Furriel e um Alferes que acumulavam a chefia com as restantes áreas das transmissões.
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O hastear da Bandeira (em frente à janela do nosso quarto) era feito pelas oito da manhã acompanhado por cornetim, mas….tinha dois inconvenientes. O primeiro – muito grave – dava a conhecer ao IN a localização exacta da bandeira e o agrupamento dos homens. A segunda – não menos “grave” – acordar de “madrugada” a malta cripto. Pela primeira razão, o toque da corneta deixou de existir, e ainda bem…o Justo podia curtir as suas ressacas já mais à vontade.
Acreditem que me é difícil escrever sobre o Cavaleiro. Homem bem simpático, sorridente, amigo do seu amigo, aparentemente sempre satisfeito, mas uma forma de estar, sobre ele, muito própria. Se dizemos bem….diz que estamos a “engraxar”…. Não gosta! Se dizemos mal….bem aqui, como qualquer outro, também não gosta. Se não dizemos uma coisa e outra, que estamos disenteressados, que não ligamos “puto”, etc.
O Cavaleiro, como todos os outros, em Tite, sofria! Não só por ele…. Mas também por ver os outros sofrerem!
Jamais o Cavaleiro disse uma palavra de desagrado à minha pessoa.
Filho de Barbeiro, extremamente educado, visão aos acontecimentos avançada.
Não esqueço uma…. de muitas coisas que partilhamos:
Com o conhecimento da morte do meu pai, foi o primeiro a disponibilizar-se na construção das condições para eu assistir ao enterro em Lisboa. Por diversas razões pessoais não quis. Sendo a principal a de ter dúvidas de regressar à Guiné, e se saberia suportar as consequências de daí derivariam.
Hoje, reformado, mora numa vivenda nos arredores de Viana do Castelo. Segundo diz todo o dinheiro que consegue poupar vai para a agência de viagens. Um grande abraço Camarada.
Numa das ocasiões de formação às milícias que comandava, o Alferes Carvalho, morreu. Eu não estava presente quando o acidente ocorreu, mas contaram-me, que houve troca, na espingarda metralhadora G3, do projéctil impulsionador das granadas de mão, originando o seu rebentamento.
Estava no hospital em Bissau quando o soube do acidente. Não sou pela morte física de quem quer que seja. Sofri pela forma inglória da sua morte, mas…era personagem que não me inspirava simpatia.
(IV)
Em sede, disse que os operadores de cripto eram três, durante algum período de tempo assim foi, deixou de ser quando o Continuo foi capturado. Não sei se ele sabe, mas derivado à situação, imediatamente, numa mensagem classificada como secreta e de prioridade zulu, mandamos, justificadamente, a todos os operadores no território, alterar o sistema de cripto vigente para o sistema alternativo. No dia seguinte tivemos como “visita” o Comandante da Cheret sitiado em Bissau, a cumprimentar-nos, inteirar-se pormenorizadamente da situação e sugerir ao Comandante da Companhia um louvor disciplinar, como mais tarde veio a acontecer.
O tempo passava vagarosamente, os dias parecem não ter “horas”. É hoje, é amanhã que seremos atacados? Quando é que chega de Bissau “frescos” em condições de se comerem? Não querias mais nada, come vianda (arroz) , diz um, vai à merda, diz outro. O Furriel Cavaleiro, procura dedicar mais tempo aos trabalhos do Centro de Cripto, ajudando-nos nas tarefas do dia a dia, na conferencia e na distribuição do material cripto pelas Companhias Operacionais, situadas em outras localidades na região operacional de Tite, etc. O elemento em falta jamais foi substituído até ao fim da comissão. E aqui chegados:
A história repetiu-se com a chegada dos “periquitos” com a sua bagagem que nos vinham substituir………………… Quem são os Criptos? Quem são?
O embarque para Lisboa é efectuado a 3 de Março de 1969, no mesmo navio, com a chegada a nove de Março.
Raul Pica Sinos
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Quando do regresso não percorri o mesmo caminho Tite/Enxudé, na medida em que fui distribuir material cripto a Fulacunda, via a Bolama. Mas isto é outra história, bem gira, penso contar numa outra ocasião.
do Cavaleiro:
Olá Pica Sinos. Uma vez mais os meus sinceros parabéns pela forma como rediges. És exemplar. Relativamente ao conteúdo do artigo gostei muito de ler, até porque me "avivaste" a memória de situações que já se me tinham varrido completamente!. Tenho uma dúvida, o alferes Carvalho morreu de acidente involuntário ou foi provocado? Não sei porquê mas fiquei com a ideia que tinha sido ele que, quando em formação lá com os seus heróis, despolotou propositadamente uma granada e morreram uns tantos....Se não foi assim, esquece! Também não interessa. Sabes bem que não nutria simpatia por aquela "ave-rara! Enfim....é pessoa para apagar da memória! Outras situações que narras, agora e nas anteriores, algumas delas não consigo recordar, nomeadamente aquela da morte de teu Pai. Não me vou pronunciar acerca do que dizes da minha pessoa. Respeito o julgamento duma vivência de quase dois anos. Uma vivência amiga, com algumas rixas pelo meio, ultrapassadas imediatamente e.... aí é que residia a nossa arte de saber estar, de saber desculpar e de saber compreender as situações. Bolas no fundo, todos nós estávamos lá contrariados e revoltadíssimos! As divisas e os galões eram e continuo a vê-los sempre da mesma forma É e era através da inteligência, do carácter e da personalidade das pessoas que eu os distinguia e distingo. Depois........sou um "gajo" esquisito!!!, não é Pica Sinos?!!! Entendo-te perfeitamente. Vou pedir apenas para rectificares a profissão de meu saudoso Pai. Ele não era ferroviário (não sei aonde foste buscar essa!), mas sim barbeiro, proprietário de uma barbearia, a mais antiga da cidade e situada na zona histórica (Praça da República), que por sinal ainda continua na posse da família. Olha Pica Sinos, proporcionaste-me um fim de tarde fora do comum. Agarrei-me a esta coisa e...........agora vou ler o jornal, se não .......começam as notícias a ficar desactualizadas e sem interesse Esta vida de reformado.......o tempo não chega a nada!Um forte abraço extensivo a toda a família e....um bom resto de domingo.
A.Cavaleiro (Viana do Castelo)
