“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma”
(Do Padre António Vieira, no "Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma", na Capela Real, ano 1669. Lembrado pelo ex-furriel milº Patoleia Mendes, dirigido-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar.).
-
"Ó gentes do meu Batalhão, agora é que eu percebi, esta amizade que sinto, foi de vós que a recebi…"
(José Justo)
-
“Ninguém desce vivo duma cruz!...”
"Amigo é aquele que na guerra, nos defende duma bala com o seu próprio corpo"
António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente
referindo-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar
-
Eles,
Fizeram guerra sem saber a quem, morreram nela sem saber por quê..., então, por prémio ao menos se lhes dê, justa memória a projectar no além...
Jaime Umbelino, 2002 – in Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar, em Torres Vedras
---
“Aos Combatentes que no Entroncamento da vida, encontraram os Caminhos da Pátria”
Frase inscrita no Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar, no Entroncamento.
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Sem fanfarra e sem lenços a acenar, soa a sirene do navio para o regresso à Metrópole. Os que partem não são os mesmos homens de outrora, a guerra tornou-os diferentes…
Pica Sinos, no 30º almoço anual, no Entroncamento, em 2019
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"Tite é uma memória em ruínas, que se vai extinguindo á medida que cada um de nós partir para “outra comissão” e quando isso nos acontecer a todos, seremos, nós e Tite, uma memória que apenas existirá, na melhor das hipóteses, nas páginas da história."
Francisco Silva e Floriano Rodrigues - CCAÇ 2314
Batalhão de Artilharia 1914, Tite/Guiné
Não
voltaram todos… com lágrimas que não se veem, com choro que não se ouve… Aqui
estamos, em sentido e silenciosos, com Eles, prestando-Lhes a nossa Homenagem.
Ponte de Lima, Monumento aos Heróis
da Guerra do Ultramar
nota - Bugio quer
dizer qualquer coisa bojuda, redonda, circular, que se contorna e a que se dá a
volta, tal como Bojador, Bugio é aqui um derivado regressivo do verbo bojar,
assim o significado aceitável para Bugio, é, de facto, o que caracteriza a
forma invulgar do Forte, ser bojudo, redondo, circular e a que se pode dar a
volta.
Uma nota final
sobre a expressão popular "ir bugiar", o mandar bugiar que já
aparecia em Gil Vicente, e que Tomás Pinto Brandão, falando do Bugio em 1681, a
utiliza em 1738,
"Ali a fortaleza
do Bugio
Com quem de
quando em quando
Muita mestrança
anda bugiando
E sem lhes
darem vaia
Vinham os mais
deles bugiar à praia."
In "
Elucidário de alguma Oeiras", Jaime Casimiro, 2010
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José da Costa:
Sem duvida que ninguém dormiu nessa memorável noite.
Recordo-me perfeitamente ao aproximarmos da barra e ver luzes muito ténues ao
longe! Nunca esquecerei esse dia maravilhoso que foi a nossa chegada e o
desembarque meio atabalhoado, tal como no embarque em Bissau com malas a cair
ao rio!
---
Amadeu Contige:
É Verdade quando vimos o nosso Cristo Rei foi uma alegria
E já lá vão
52 anos obrigado Guedes pela recordação abraços grande amigo
---
José da
Costa
Foi um
grande dia de emoções fortes!
---
Raúl Soares
Há 52 anos, estava ainda em Nova Sintra a entregar o
material á Compª. Cav. 2484. No dia 4 (amanhã) saída do último grupo da
Cart.1743, onde estava incluido e chegada a Bissau a 5. No dia 7 saída para o
XIME em lancha, para entrar na operação "LANÇA AFIADA", No dia 8
pelas 8 horas estávamos emboscados e tentamos apanhar á mão elementos armados
do PAIGC, sem sucesso. Houve cumprimentos. Passados 15/20 minutos, via rádio,
recebo ordens para levantarmos e começarmos a progredir. Houve mais
cumprimentos e ouvi o silvo das balas. Como bom militar atirei-me ao chão e a
rapaziada retribuiu. Passadas umas horas entramos numa tabanca e fomos
brindados novamente e nós não reagimos, porque dentro desta estavam elementos
nossos. Ao meu lado as balas batiam no chão, levantavam terra e poeira, mas nós
quietinhos. O ataque durou cerca de 30/40 segundos. Pensaram que nós estávamos
a envolvê-los e puseram-se a cavar. A partir desta cena atacaram-nos várias
vezes mas de longe, com armas ligeiras. Esta operação foi ao nível de 3
batalhões e acabou a 17/03/69 (10 noites ao luar no meio da mata), com a visita
de abelhas e mosquitos, além de outros rastejantes. Abraço a todos os
combatentes em todas as frentes.
---
Anibal Silva
Raúl Soares
Amigo Raul Soares permite uma correção, a entrega de material foi á Ccav 2483 e
não á Ccav 2484, ao alferes Carriço e ao 2 Sargento Canaveira
Faz hoje (8
de Abril de 1967) cinquenta e três anos que partimos para a Guiné.
Em jeito de
comemoração publicamos a seguir um video que foi feito para ser exibido durante
o almoço do ano passado, no Entroncamento.
Pedimos
desculpa por alguma incorrecção, falta de definição ou omissão, neste video.
Abraços para
todos, com votos de boa saúde.
Aproveitamos
para agradecer os "parabéns" enviados por vários amigos neste dia.
Leandro
Guedes.
---
Comentários surgidos no nosso Facebook:
João Manuel
Pais Trabulo
Um grande
abraço de amizade para todos os militares do Bart Tite Guiné Bissau
-
Raúl Soares
A emoção
chegou, depois de ver este video que o Leandro teve a amabilidade de colocar no
face, para que possamos rever e ver por onde andámos. Obrigado amigo. Para
todos os combatentes, que estiveram sob o comando do Bart.1914 e não só, VOTOS
SINCEROS DE BOA SAÚDE. Abraço amigo
-
Bart Tite
Guiné Bissau Obrigado amigo Raul pelas tuas palavras. Neste video existem
imagens que só a ti se devem - aquelas que mostram Tite após a nossa saída e
que são uma verdadeira tristeza. Votos de boa saúde. Um forte abraço.
-
Jorge
Gouveia
Eu e o meu
Pelotão a receber-vos já quase com um ano de Guiné saude para todos
-
Bart Tite
Guiné Bissau Um abraço Jorge. Tudo de bom para ti. Obrigado.
-
Julio Garcia
Obrigado pelo envio.
Parabéns ao
Bart e um forte abraço para todos com votos de boa saúde. Júlio Garcia
-
Bart Tite
Guiné Bissau Obrigado Garcia. Um forte abraço também para ti, com votos de boa
saúde.
-
João Manuel
Pais Trabulo Amigo LEANDRO GUEDES
O que
poderei dizer sobre este vídeo: EXCELENTE E EMOTIVO!
Fiquei
surpreendido ao ver estas imagens e recordar camaradas e amigos que estiveram
em TITE, muitos dos quais ainda me recordo.
Foi o
‘reviver’ de tempos difíceis, mas passados mais de 50 anos, pudemos dizer que,
no fundo, “valeu a pena”. Cumprimos, e bem, um dever patriótico que, embora
imposto, era a nossa obrigação e, principalmente, angariámos ‘novos amigos'.
Mas sobre o
vídeo, é curioso a identificação das fotos e pelo que me cabe, o meu
agradecimento por ter figurado no mesmo. Sinto-me honrado por tal.
Finalmente,
um grande abraço de amizade para TODOS.
PARABÉNS
Cor. Trabulo
- Alf. Mil. CCaç 2314
-
Bart Tite
Guiné Bissau Obrigado Senhor Coronel Trabulo, pelas palavras e pelo abraço que
retribuimos com amizade. O video foi o possivel, melhor seria se algumas fotos
tivessem melhor definição e fossem mais variadas, mas é o que temos. Quanto às
legendas nem todas as fotos as têm, mas com o tempo há-de chegar outro video
melhor. Gostei de falar com o meu Coronel e saber que se encontra bem. Um forte
abraço e votos de boa saúde. Muito obrigado.
-
Jorge
Gouveia Bom trabalho Parabéns Guedes
-
Bart Tite
Guiné Bissau Obrigado Jorge. Boa saúde aí por S. Mamede de Infesta, terra que
tão ligada está à minha infância e juventude. Um abraço.
Editar ou
eliminar isto
-
José Luís
Patrício Parabéns!
-
Bart Tite Guiné
Bissau Obrigado amigo José Luis. Votos de boa saúde e boas fotografias. Um
abraço.
-
Bart Tite
Guiné Bissau
Escreve uma
resposta...
-
Amadeu
Contige Parabéns Amigo Guedes muito lindo não há palavras gostei de recordar
esses tempos e já lá vão 53 anos um grande abração Amigo Guedes
-
Bart Tite
Guiné Bissau É sempre bom recordar mesmo que os momentos não tenham sido assim
tão bons. Um grande abraço amigo e bem hajas pelo pão que nos deste - parecias
a Rainha Santa Isabel...
-
Jose Narciso
Costa Este vídeo serviu para recordar amigos e companheiros , vivos e
falecidos.Parabens amigo Leandro Guedes grande trabalho A
👏👏👏braço
-
Bart Tite
Guiné Bissau É verdade Narciso. Ao fazê-lo senti essa mesma nostalgia. Mas é a
vida amigo. Boa saúde para ti e as melhoras da tua Esposa. Obrigado.
Editar ou
eliminar isto
-
Alberto
Camelo Como é bom recordar! gostei de ver, parabéns abraço bem forte
-
Bart Tite
Guiné Bissau Obrigado Alberto. Um abraço.
8 de Abril de 1967. Faz hoje 51 anos que embarcámos para a Guiné. Já na partida dois de nós faltaram à chamada - os que tombaram no quartel da Carregueira. A nossa homenagem aos mortos. Votos de rápidas melhoras para os que se encontram doentes. A todos os guerreiros um grande abraço. Leandro Guedes.
O Narciso
entregou-nos uma coleção de fotos a que eu chamei de FIM DE SÉCULO (a lembrar
uma aguardente famosa).
Estas fotos são duma riqueza extraordinária, porque
mostram bem como eram as fatiotas nos anos 90, do fim do século passado e o
aprumo com que os guerreiros se apresentavam nos primeiros almoços (o primeiro
foi em 1990) - muitos de nós estão de fato e gravata e o Hipólito até ia de
gabardine comprida, como à época se usava.
De realçar também que estas fotos foram tiradas como se usava na altura, com uma máquina analógica, rolo de filme de 36 fotografias, que eram reveladas em laboratório. Nada que se compare com a rapidez das máquinas digitais atuais.
Estou a organizar um
pequeno video, mas para vos abrir o apetite, junto estas fotos que acho
deliciosas, tiradas no almoço da Batalha, organizado pelo Monteiro e Guimarães e no almoço em Mira, organizado pelo Claro.
Leandro Guedes.
É verdade. Foi há 49 anos que embarcamos em Lisboa, no Uige, rumo à Guiné.
Foi uma mistura de emoções e receios, duvidas e ansiedades que a todos envolvia. Alguns de nós que fomos, não voltaram. Infelizmente. Outros vieram com problemas de saúde vários. Mas hoje, já com idade avançada, vamos festejando à nossa maneira, a oportunidade de continuarmos a viver. AMIGOS NA GUERRA AMIGOS PARA SEMPRE. Leandro Guedes.
Hoje, dia 3 de Março, faz 47 anos que embarcamos no Uige, em
Bissau, de regresso à Metrópole.
Foi um dia de muitas emoções e até o navio partir, estivemos
sempre na dúvida se era a sério.
Os dias antecedentes, em Tite, foram de muita ansiedade,
pois há meses que nos vinham prometendo o tão esperado regresso à Metrópole.
Estávamos no mato há 23 meses. Foram meses muito duros, onde
perdemos amigos, em situações de sofrimento, com mortos, feridos,
incapacitados e prisioneiros. Houve de tudo um pouco.
Mas o ansiado regresso tinha chegado. Tinham ficado para
trás os bons e maus momentos passados num quartel no mato, rodeado de arame
farpado e chapas de bidões, numa Tabanca
cercada de bolanhas e floresta, com o perigo a espreitar por trás de cada
árvore.
A 9 de Março chegámos a Lisboa e ao passarmos o farol do
Bugio foi a alegria geral, espontânea, infantil, sem limites – choramos, rimos, saltamos,
cantámos, praguejamos… Era a Metrópole.
Muitos de nós tínhamos regressado sãos e salvos, tendo-se
gerado naquele tempo e até hoje, uma amizade entre todos, fazendo jus ao lema:
AMIGOS NA GUERRA, AMIGOS PARA SEMPRE.
Companheiros
Neste domingo de Páscoa, passa mais um ano sobre a nossa partida para a Guiné - 8 de Abril de 1967. Já são 45 anos.
Vou a seguir publicar um texto, que foi o primeiro alusivo ao facto, depois que foi criado o blog. E publico também os comentários que à época foram feitos.
Espero que gostem.
navio UIGE
"Meus amigos
Foi no longinquo dia 8 de Abril de 1967, que partimos rumo à Guiné, onde permanecemos vinte e três meses, durante os quais se criaram laços de amizade que perduram entre nós. Completam-se portanto, 41 anos.
Ainda hoje é um dia de emoções...
Recordando esse dia envio um grande abraço para todos.
Lembremos aqui e agora aqueles que não regressaram e também aqueles que tendo regressado, entretanto também já partiram..
Leandro Guedes.
. Renasceram dois de nós. Só por vos termos encontrado, o Sopinha e o Costa, valeu a pena iniciarmos este blog. Outros serão encontrados também. José Costa disse...
Meus Deus!! Quis o destino que precisamente hoje, 41 anos depois, e de tanto procurar os meus companheiros da CCS Bart 1914, nos jornais,nas revsitas e anúncios vários, nunca encontrei ninguém!E hoje por um acaso encontro este blog!!! Então eu sou o Costa Op.Msgs!! Alguém se lembra de mim? Dêm-me notícias vossas... porra!
8 de Abril de 2008 23:42 alcinda leal disse...
As maravilhas da blogosfera! Leandro, razão tinha o nosso professor em insistir que criássemos os nossos blogues! Estou completamente rendida! Já viu as possibilidades de Comunicação? O vosso camarada Zé Costa encontrou-vos através do blogue! Também na minha família criámos um blogue de forma a comunicarmos os cerca de 40 elementos que a constituem! O meu blogue fica assim para a comunicação entre amigos !Eis a razão por que estou rendida à Blogosfera!
Cumprimentos
9 de Abril de 2008 15:42 Raul Pica Sinos disse...
És o Costa de Ovar? Onde andas? O Blog já falou de ti várias vezes. O Cavaleiro também já perguntou por ti. O Justo já mostrou várias fotos tuas.Vai ler a história do Padeiro Contige e lá vens mencionado. Diz coisas rapaz. Deixa a tua morada electrónica.
Pica Sinos
9 de Abril de 2008 18:16 Zé Justo disse...
Grande Costa, sejas ben aparecido rapaz, sou o Justo op. Cripto lembras-te? Tenho perguntado por ti pois eras do nosso grupo de convivio diário. Vou falar com o pessoal de forma a contactar-mos mas sem deixar mails nos Blogs.Um abração e até breve.
9 de Abril de 2008 20:17
.
Amigo Costa
Folgo em saber que ainda "mexes"A malta ( Justo e Cavaleiro entre outros) têm perguntado por ti e não tinha respostas. Disse que te encontrei várias vezes (há muitos anos) no Porto na estação deS.Bento. Mas que perdi o teu rasto. Felizmente apareceste. Tenho escrito umas coisas para o blog onde mencionei o teu nome uma ou duas vezes.Seria muito bom que dissesses algo aos amigos que te procuraram e já agora, no Blog.
Um Abraço
Pica Sinos
.
Nota: Para todos
Um dia destes vou encontrar-me (para a semana que vem) com o Dr. Paraíso Pinto para me fornecer uns elementos Da nossa vida em Tite, já está tudo combinado.Como ele não "mexe" nestas coisas da Internet vou fazer copia de todos os textos do blog entregar ao amigo.Aliás fiz ao Contino que mandei por correio.Também para a semana (talvez no mesmo dia) vou almoçar com O Sopinha e vou dar os vossos endereços electrónicos. Se não se importarem.
(ainda perguntas?. Segue em frente Amigo). "
Pica Sinos.
__________________________
"Menina dos Olhos Tristes", de Adriano Correa de Oliveira e letra de Reinaldo Ferreira, é uma canção que experime os sentimentos, as ansiedades, as angustias e as incertezas que então nos acodiam...
Transcrevemos aqui um artigo do Costa, sobre esta efeméride...
Mobilização
No mês de Fevereiro de 1967, iniciaram-se as mobilizações dos quadros. Em Março de 1967, grande parte dos efectivos foram concentrados na Parede.
Concentração
Foi em princípios de Março, que demos início ao IAO, na zona da mata na praia do Guincho onde se formaram os quadros e especialistas para da CCS BART 1914, então destinada à Província Ultramarina da Guiné.
Deslocação para o C.T.I.GUINÉ
Meio de Transporte
Em 08-04-1967, saída da Parede em Viaturas até ao Cais da Rocha de Conde de Óbidos. A bordo do N/T UÍGE ao Cais da Rocha de Conde de Óbidos para o porto de Bissau. Com destino a vários locais da Guiné, iriam embarcar a CCS BART 1914 e mais outras companhias destinadas à Província da Guiné. No Cais da Rocha de Conde de Óbidos, onde se encontrava já grande multidão de familiares e amigos, todas as Companhias formaram e foi-lhes proferida uma alocução. Após passada a revista à formatura as tropas desfilaram em continência.
Embarque
Após todas as formalidades e rituais cumpridos no cais perante as Autoridades civis e militares, embarcámos no navio Uíge, o qual largou amarras eram 12 horas enquanto uma banda tocava o Hino Nacional e freneticamente se faziam as últimas despedidas. A viagem decorreu da melhor forma, sendo o tempo ocupado com exercícios de alarme, programa de variedades e sessões de cinema. “SARILHO DE FRALDAS” com Madalena Iglésias e António Calvário e ainda “SALOMÃO E A RAINHA DE SABÁ” com Yul Brynner e Gina Lollobrigida foram projectados ao ar livre num ecrã improvisado no convés do navio. Durante o dia o nosso Furriel Luís Manuel e seu irmão, abrilhantavam na 1ª classe do navio os oficiais e sargentos com solos de violino e piano. Enquanto a rapaziada, jogava às cartas ou dormia e… também bebia!
Desembarque
Chegamos pelas 06;00 da manhã á entrada do Rio Geba e depois das manobras de ancoramento, ali permanecemos até que se fez noite. Depois de embarcarmos em LDM’s com destino ao Destacamento do Enxudé, cais de acesso ao caminho que nos levaria ao Quartel de Tite onde ali permanecemos 23 meses!
Curiosamente este mesmo navio havia de nos trazer de volta 23 meses depois!
motor a gasóleo, dum navio, algo parecido com o do Uige. Reparem no tamanho do Operador em relação ao tamanho do motor.
O navio de passageiros e carga UIGE integrou a frota da Companhia Colonial de Navegação em 1954 e foi concebido para o transporte de passageiros em classe turística e carga entre Portugal e Angola.
Era o paquete mais utilitário de entre os 6 que constituíram a frota final da CCN e acabou os seus dias imobilizado no Mar da Palha, em Lisboa a partir de 1986, sendo demolido em Alhos Vedros em 1989.
Foi um dos navios mais utilizados no transporte de tropas para o Ultramar entre 1961 e 1975 e segundo a minha Avó, era um navio muito simpático...
Ficha técnica e biografia deste paquete disponível no DICIONÁRIO DE NAVIOS PORTUGUESES. Na época o nome deste paquete foi uma homenagem à região do UIGE no Norte de Angola, onde o armador Bernardino Correia tinha fazendas. O insigne explorador e aventureiro ALEX voltou recentemente a terras do Uíge.
Falta dizer que o UIGE foi o primeiro navio da frota da CNN, a trabalhar integralmente a gasóleo.
Texto e imagens /Text and images copyright L.M.Correia
José Costa
foto do blog "avenida da liberdade", com a devida vénia
Do Costa:
1 - Mobilização
No mês de Fevereiro de 1967, iniciaram-se as mobilizações dos quadros.
Em Março de 1967, grande parte dos efectivos foram concentrados na Parede.
2 – Concentração
Foi em princípios de Março, que demos início ao IAO, na zona da mata na praia do Guincho bem como, formaram-se os quadros e especialistas para da CCS BART 1914, então destinada à Província Ultramarina da Guiné.
3 – Deslocação para o C.T.I.GUINÉ
a)– Meio de Transporte
Em 08-04-1967, saída da Parede em Viaturas até ao Cais da Rocha de Conde de Óbidos.
A bordo do N/T UÍGE ao Cais da Rocha de Conde de Óbidos para o porto de Bissau.
Com destino a vários locais da Guiné, iriam embarcar a CCS BART 1914 e mais outras companhias destinadas à Província da Guiné.
No Cais da Rocha de Conde de Óbidos, onde se encontrava já grande multidão de familiares e amigos, todas as Companhias formaram e foi-lhes proferida uma alocução.
Após passada a revista à formatura as tropas desfilaram em continência.
b) – Embarque
Após todas as formalidades e rituais cumpridos no cais perante as Autoridades civis e militares, embarcámos no navio Uíge, o qual largou amarras eram 12 horas enquanto uma banda tocava o Hino Nacional e freneticamente se faziam as últimas despedidas.
A viagem decorreu da melhor forma, sendo o tempo ocupado com exercícios de alarme, programa de variedades e sessões de cinema. “SARILHO DE FRALDAS” com Madalena Iglésias e António Calvário e ainda “SALOMÃO E A RAINHA DE SABÁ” com Yul Brynner e Gina Lollobrigida foram projectados ao ar livre num ecrã improvisado no convés do navio. Durante o dia o nosso Furriel Luís Manuel e seu irmão, abrilhantavam na 1ª classe do navio os oficiais e sargentos com solos de violino e piano. Enquanto a rapaziada, jogava às cartas ou dormia e… também bebia!
d) Desembarque
Chegamos pelas 06;00 da manhã á entrada do Rio Geba e depois das manobras de ancoramento, ali permanecemos até que se fez noite. Depois de embarcarmos em LDM’s com destino ao Destacamento do Enxudé, cais de acesso ao caminho que nos levaria ao Quartel de Tite onde ali permanecemos 23 meses!
Curiosamente este mesmo navio havia de nos trazer de volta 23 meses depois!
PEDRO SOLDADO.
Já lá vai Pedro Soldado
Num barco da nossa armada
E leva o nome bordado
Num saco cheio de nada.
Triste vai Pedro Soldado.
Branda rola não faz ninho
Nas agulhas do pinheiro
Não é Pedro marinheiro
Nem no mar é seu caminho.
Nem anda a branca gaivota
Pescando peixes em terra
Nem é de Pedro essa rota
Dos barcos que vão à guerra.
Nem anda Pedro pescando
Nem ao mar ditou a rede
No mar não anda lavrando
Soldado a mão se despede
Do campo que se faz verde
Onde não anda ceifando
Pedro no mar navegando.
Onde não anda ceifando
Já o campo de faz verde
E em cada hora se perde
cada hora que demora
Pedro no mar navegando.
E já Setembro é chegado
Já o Verão vai passando.
Não é Pedro pescador
Nem no mar vindimador
Nem soldado vindimando
Verde vinha vindimada.
Triste vai Pedro Soldado.
E leva o nome bordado
Num saco cheio de nada.
Soldado número tal
Só a morte é que foi dele.
Jaz morto. Ponto final
O nome morreu com ele.
Deixou um saco bordado
E era Pedro Soldado.
Hoje faz 43 anos quando da viagem para a Guiné !Foto do embarque, no Uige, em 8 de Abril de 1967.
"Este parte,
Aquele parte,
E todos,
Todos se vão,
Oh terra ficas sem homens,
que possam cortar o pão.
Zeca Afonso "
..
8 de Abril de 1967, Cais de Alcântara em Lisboa.
Após a despedida da família que nos acompanhou ao embarque, seguiu-se a formatura, um emproado oficial superior e sua comitiva fazem a revista da praxe, o embarque das tropas sucede-lhe.
Ao som da fanfarra militar e dos gritos de adeus e do acenar dos lenços, o paquete Uíge largou amarras.
A Torre de Belém fica para trás, a ponte sobre o Tejo já não se vê, a terra é coisa sumida, os olhos de todos há muito que estão rasos de água.
Muitos de nós fomos acomodados nos porões do navio (a maioria), lugares destinados a dormitório e, também para tomada das refeições.
Os camarotes e as salas de refeições de categoria, terceira, segunda ou primeira classe, estavam destinados ao militares consoante a hierarquia.
As condições de quem “vivia” nos porões eram degradantes.
As mesas estavam colocadas ao comprimento dos porões, com lotação para uma vintena de militares, os beliches, também em madeira, acompanhava-os na altura.
Os vomitados do enjoo eram constantes, a limpeza era precária, que em conjunto com a falta do banho diário o cheiro era nauseante, asfixiante. Com barulho dos motores, etc., o ambiente era insuportável.
Durante os oito dias (mais três que o normal por avaria num dos motores) que a viagem durou, foi neste contexto que os jovens militares fizeram a sua vida no navio.
Inconformados com o destino, no convés, uns passeavam, outros conversavam e ainda outros jogavam ou viam jogar às cartas.
Uma ou duas vezes fizeram-se exercícios de salvamento em caso de naufrágio.
Os peixes voadores que quase sempre acompanharam o barco eram também motivo de entretenimento.
Em 14 do mesmo mês, chegamos ao destino para o qual fomos obrigatoriamente mobilizados.
O pior estava para vir……a guerra.
Aqui o sofrimento a todos tocou!
Raul Pica Sinos
Meus amigos
Relembrando o dia em que muitos de nós chegámos a Lisboa, no regresso da Guiné, fui confirmar na minha caderneta militar esse acontecimento.
Foi na verdade o dia mais feliz das nossas vidas até àquele momento.
Tanta alegria sentida naquele dia, tanta saudade saciada, tanta gente à nossa espera. Alguns de nós eram de Lisboa e logo ali encontraram os seus familiares e amigos, as suas namoradas, as suas esposas e alguns até os seus filhos. Mas muitos outros, a maior parte, eram de vilas e aldeias afastadas, no interior do Algarve, Alentejo, das Beiras, do Norte e tiveram que calcorrear horas de estrada até chegarem aos seus lares, à sua família, aos seus amigos, ao seu ambiente.
Foi um dia luminoso nas nossas mentes.
É com emoção que recordo este dia e esse momento, revendo a folha da minha caderneta que assinala o facto e o navio que nos trouxe, o Uige.
E recordo aqueles que entretanto partiram - tanto aqueles que infelizmente vieram antes de nós e não viram a Luz daquele dia; e também aqueles que faleceram posteriormente e que tal como nós chegaram a experimentar a alegria desse dia.
A foto do Uíge foi legendada em tempos pelo Pica, e muito bem, dizendo o seguinte:
"Regresso a Lisboa depois de dois anos de tormento. Que sensação ver nascer a ponte sobre o Tejo, muitas vezes pensei não mais a ver. Foi o dia mais feliz da minha vida".
E mais adiante diz: " Debruçam-se do convés, põem as mãos em pala por cima dos olhos e tentam identificar quem possa esperá-los naquela multidão anónima e desconhecida..."
Abraços para todos..
Hoje faz 42 anos quando da viagem para a Guiné !Foto do embarque, no Uige, em 8 de Abril de 1967.
"Este parte,
Aquele parte,
E todos,
Todos se vão,
Oh terra ficas sem homens,
que possam cortar o pão.
Zeca Afonso "
..
8 de Abril de 1967, Cais de Alcântara em Lisboa.
Após a despedida da família que nos acompanhou ao embarque, seguiu-se a formatura, um emproado oficial superior e sua comitiva fazem a revista da praxe, o embarque das tropas sucede-lhe.
Ao som da fanfarra militar e dos gritos de adeus e do acenar dos lenços, o paquete Uíge largou amarras.
A Torre de Belém fica para trás, a ponte sobre o Tejo já não se vê, a terra é coisa sumida, os olhos de todos há muito que estão rasos de água.
Muitos de nós fomos acomodados nos porões do navio (a maioria), lugares destinados a dormitório e, também para tomada das refeições.
Os camarotes e as salas de refeições de categoria, terceira, segunda ou primeira classe, estavam destinados ao militares consoante a hierarquia.
As condições de quem “vivia” nos porões eram degradantes.
As mesas estavam colocadas ao comprimento dos porões, com lotação para uma vintena de militares, os beliches, também em madeira, acompanhava-os na altura.
Os vomitados do enjoo eram constantes, a limpeza era precária, que em conjunto com a falta do banho diário o cheiro era nauseante, asfixiante. Com barulho dos motores, etc., o ambiente era insuportável.
Durante os oito dias (mais três que o normal por avaria num dos motores) que a viagem durou, foi neste contexto que os jovens militares fizeram a sua vida no navio.
Inconformados com o destino, no convés, uns passeavam, outros conversavam e ainda outros jogavam ou viam jogar às cartas.
Uma ou duas vezes fizeram-se exercícios de salvamento em caso de naufrágio.
Os peixes voadores que quase sempre acompanharam o barco eram também motivo de entretenimento.
Em 14 do mesmo mês, chegamos ao destino para o qual fomos obrigatoriamente mobilizados.
O pior estava para vir……a guerra.
Aqui o sofrimento a todos tocou!
Raul Pica Sinos
sábado, 27 de setembro de 2008
Aconteceu durante a recruta, no quartel da Serra da Carregueira Zé Justo
O presente trabalho tem apenas como objectivo dar a conhecer a familiares e aos amigos dois anos da vida de muitos nós na chamada guerra colonial. Os factos relatados, decerto por defeito, estão abertos à discussão. Venham de lá esses comentários.
ESPOLIO DE GUERRA
O BATALHÃO DE ARTILHARIA 1914
(SEM TEMOR)
I
(Constituição e Comando)
A formação das Unidades destinadas a constituir o Batalhão de Artilharia 1914, no objectivo de intervir militarmente na guerra na província ultramarina da Guiné-Bissau, o pessoal mobilizado, com excepção de um pequeno núcleo da região da Estremadura e Ribatejo, era quase todo das regiões das Beiras e Minho.
Desde a constituição até à data da guia de marcha para embarque, 08 de Abril de 1967, a nível dos militares oficiais do quadro e milicianos, a designação para comando das companhias operacionais agrupadas, registou alguns ajustamentos nas nomeações, não sendo pacifica pelo menos uma, pois foi conhecido o propósito de formular uma exposição ao Ministro do Exercito.
Os estágios das manobras do aperfeiçoamento militar tiveram lugar na Serra da Carregueira (Sintra) e no Guincho (Cascais), onde na primeira foram vitimas três soldados por acidente de arma de fogo, vindo a falecer dois em consequência dos ferimentos verificados.
O Aquartelamento do Regimento da Artilharia Costa na Parede foi palco da cerimónia, com missa campal, para a entrega do guião ao Batalhão (Companhia de Comandos e Serviços, Companhias de Artilharia nºs 1690, 1691 e 1692).
A 08 de Abril de 1967, no Cais da Rocha de Conde Óbitos (Lisboa) após as cerimónias da praxe, a Companhia de Comando e Serviços e as Companhias Operacionais de Artilharia 1961 e 1962, embarcam, com destino à Guiné-Bissau, no navio “Uige”. A Companhia Operacional de Artilharia 1690 embarca no navio “Ana Mafalda”.
A 15 de Abril de 1967, na Guiné-Bissau, as Companhias Operacionais, deixam de depender do Batalhão 1914, para sua substituição são designadas as Companhias de Caçadores 1549, 1566, 1567 e a 1587. Ainda os Pelotões de Morteiros 1039 e de Reconhecimento Daimler 1131.
II
(Actividade operacional)
A actividade operacional do Batalhão desenvolveu-se num terreno que não constituiu excepção à generalidade dos terrenos da Guiné-Bissau; cotas bastantes baixas, grandes áreas alagadiças, não só na época das chuvas como em resultado das marés. Grande quantidade de cursos de água. Com excepção de algumas áreas na região de Falacunda não existem grandes matas na região,
Em termos de aglomerados populacionais os mais importantes eram os da Ilha de Bolama, Tite, Bissassema, Fulacunda e Empada.
O IN actuando com grande mobilidade, é conhecedor do terreno com pormenor. Organizado militar, politica e administrativamente em largas zonas territoriais, com o apoio das populações, é forte, aguerrido e dispõe de um potencial de meios igual se não superior aos do Batalhão. Meios esses só desequilibrado graças à actuação da Força Aérea. Paralelamente à luta armada, exerce uma actividade importante no controle das populações e na sua promoção social.
Ás nossas NT geram-se algumas dificuldades na operacionalidade de conjunto pelo facto das Companhias operacionais estarem espalhadas pelo vasto sector operacional. A exemplo; na área de Tite, o Comando do Batalhão está na primeira linha do IN, pois não tem à sua volta quaisquer outras unidades de defesa. Jabadá está a quilómetros, a Companhia em Fulacunda está completamente isolada e as tropas de Empada estão numa situação que apenas lhe permite controlar a povoação e o destacamento de Ualada a cerca de 5 Km. Assim sendo é a região de Tite que oferece mais possibilidades de obter o sucesso não só do ponto vista militar como de controlo e promoção social, laboral, educacional e sanitária das populações, e consequentemente travar ao IN objectivos de flagelação militar às NT e do controle das populações nesta mesma região.
Como resultado das operações militares das NT, estima-se que o IN sofreu cerca de 300 baixas militares e cerca 130 capturados (cerca de 200 mortos e de 100 feridos). Do material capturado destacam-se milhares de munições do tipo variado, minas, dezenas de granadas de mão, uma vintena de armas automáticas de marca e calibre diverso entre outros equipamentos de guerra.
As flagelações do IN ás nossas tropas assim como aos aquartelamentos, foram registadas cerca de 150 baixas militares, três capturados dois desaparecidos (29 mortos, 120 feridos). Os flagelamentos que o IN infligiu aos aquartelamentos das NT das áreas já referidas, foram cerca de 110 flagelações. Sendo que os mais flagelados foras os de Fulacunda, Nova Sintra e Tite.
III
(Louvores e Condecorações)
Pelos serviços prestados à Pátria……Aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando…… ficaram registados no Quadro de Honra do Batalhão todos os camaradas que morreram no espaço operacional da Guiné-Bissau, assim com os dois camaradas Furriéis desaparecidos, um em combate e o outro no Rio Geba. Igualmente os três militares capturados na Operação Bissassema.
Registam-se 49 louvores concedidos pelo Comandante Militar, 48 pelo Comandante do Agrupamento, 200 pelo Comandante do Batalhão e 79 pelo Comandante da Companhia Comandos e Serviços. Num total de 376 Louvores,
Nas Condecorações, com a Cruz de Guerra de 2ª classe, 2 Alferes e 1 Soldado; com a Cruz de Guerra de 3ª classe, 1 Furriel Miliciano; com a Cruz de Guerra de 4ª classe, 1 Cabo e 7 Soldados. Das milícias, com a Cruz de Guerra de 4ª classe, 1 Alferes e 1 Soldado 2 vezes. Com a Medalha de Mérito Militar de 4ª Classe 1 Furriel.