Batalhão de Artilharia 1914


“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma”


(Do Padre António Vieira, no "Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma", na Capela Real, ano 1669. Lembrado pelo ex-furriel milº Patoleia Mendes, dirigido-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar.).

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"Ó gentes do meu Batalhão, agora é que eu percebi, esta amizade que sinto, foi de vós que a recebi…"

(José Justo)

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“Ninguém desce vivo duma cruz!...”

"Amigo é aquele que na guerra, nos defende duma bala com o seu próprio corpo"

António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente

referindo-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar

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Eles,
Fizeram guerra sem saber a quem, morreram nela sem saber por quê..., então, por prémio ao menos se lhes dê, justa memória a projectar no além...

Jaime Umbelino, 2002 – in Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar, em Torres Vedras
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“Aos Combatentes que no Entroncamento da vida, encontraram os Caminhos da Pátria”

Frase inscrita no Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar, no Entroncamento.

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Sem fanfarra e sem lenços a acenar, soa a sirene do navio para o regresso à Metrópole. Os que partem não são os mesmos homens de outrora, a guerra tornou-os diferentes…

Pica Sinos, no 30º almoço anual, no Entroncamento, em 2019
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"Tite é uma memória em ruínas, que se vai extinguindo á medida que cada um de nós partir para “outra comissão” e quando isso nos acontecer a todos, seremos, nós e Tite, uma memória que apenas existirá, na melhor das hipóteses, nas páginas da história."

Francisco Silva e Floriano Rodrigues - CCAÇ 2314


Batalhão de Artilharia 1914, Tite/Guiné

Não voltaram todos… com lágrimas que não se veem, com choro que não se ouve… Aqui estamos, em sentido e silenciosos, com Eles, prestando-Lhes a nossa Homenagem.

Ponte de Lima, Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar


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quinta-feira, 2 de maio de 2024

O Soldado Castro

 Após a nossa conversa de hoje e depois de termos falado do Dr. Paraíso Pinto, junto o texto do dia em que eu descrevo o meu aniversário em 2 de maio de 1968, data em que fui informado de que tinha sido punido pela perda de um soldado em combate e, por esso motivo, impedido de poder gozar férias até maio de 1969.

Sorte que o então capitão Neves patrocinou a festa do meu aniversário com uma prenda e a leitura da ordem do dia com a minha punição.

Um abraço, meu caro.

Joaquim Caldeira                                                                                                                                                          -------------------

“O SOLDADO CASTRO

Nunca percebi porque sendo eu apenas um simples furriel, menos que sargento, tivesse que assumir funções que pertenceriam a oficiais ou, na sua ausência, a sargentos.

Em mais um regresso de Nova Sintra, comandando uma força de cerca de 30 homens, na qual se incluía o soldado Castro que até era da secção do sargento Faria, também integrante da força, sofremos uma emboscada. Mas antes o Faria tinha oferecido o cantil de aguardente ao Castro e, este, não se fazendo rogado, bebeu talvez em quantidade razoável. Ficou grogue e, durante o tiroteio, resguardou-se debaixo de umas raízes de embondeiro e por lá adormeceu. Tropa fandanga.

No final da emboscada, reunido o pessoal, certifiquei-me de que não tinha havido danos pessoais e, após comunicar com a sede do batalhão, certifiquei-me de estávamos todos e mandei prosseguir. Passadas duas horas fui informado de que faltava o Castro. Pensei logo o pior. Que talvez estivesse morto ou ferido e que, por eu nem sequer o conhecer - estávamos há muito pouco tempo na Guiné e ele nem pertencia à minha unidade - não tinha dado pela sua falta. O Faria também não. Nova comunicação para o batalhão a informar da falta de um elemento. Recebo ordens para prosseguir e informaram que pessoal da companhia de Nova Sintra, por estar mais perto do local da emboscada, iria procurá-lo. Mas não o encontrou. Quando acordou, ainda sob o efeito da cachaça, dando pela nossa falta, caminhou errante para Nova Sintra. Chegou lá no dia seguinte. Foi um heli buscá-lo para Tite. E eu tive um processo disciplinar que resultou em castigo de dois dias de detenção que vim a cumprir fora do quartel, a caminho de Bissássema.

Como não podia deixar de ser, estes processos são demorados e só vim a saber da minha punição uns meses depois. Precisamente no dia 2 de Maio, data do meu aniversário. Até foi giro. O capitão presenteou-me com uma lembrança, um álbum para fotografias e a nota de culpa.

Quanto ao Castro, por remorso tentou dar um tiro na boca e eu fui chamado para o impedir. Não me foi difícil convencer do seu erro, mas sei que ficou marcado para sempre.

Uns anos mais tarde, fui chamado para ser sua testemunha num processo em que pedia uma pensão de reforma, que lhe foi concedida por incapacidade motivada por stress de guerra. Perdi-lhe o rasto, mas gostava de reencontrá-lo.”

 


segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Capitão Vicente, comandante da Cart 1802, em Nova Sintra.



Capitao Vicente o ultimo à direita


 O Hipolito partilhou hoje esta foto em que está o capitão Luis Sousa Vicente, no tempo em que era comandante da Cart 1802, "Os pioneiros de Nova Sintra",  em virtude de o comandante da Companhia ter sido evacuado por ter sido ferido em combate.

O capitao Luis Vucente era o responsavel da secção de Reabastecimentos Operacionaus do Bart 1914, em Tite. Faziam ainda parte desta secção o furriel Leandro Guedes  e o cabo Marinho.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Raul Soares da CART 1743 - A entrevista ao Correio da Manhã

 Hoje foi a vez do Raul Soares fazer o seu relato ao Correio da Manhã. O Raul era furriel milº da CART 1743.

Obrigado Raúl Soares. Obrigado ao Correio da Manhã, à sua Jornalista D. Manuela Guerreiro e aos seus foto-jornalistas.









domingo, 20 de fevereiro de 2022

A entrevista do Joaquim Caldeira, ao Correio da Manhã.

 Conforme estava anunciado, saiu hoje no Correio da Manhã, a entrevista do nosso amigo Joaquim Caldeira, sobre factos relacionados em Tite, Bissassema e Nova Sintra. Obrigado companheiro pela tua disponibilidade para relatares mais um episódio da nossa guerra. Agradecidos também  ao Correio da Manhã, à sua Jornalista D. Manuela Guerreiro e seus foto-Jornalistas.

Leandro Guedes.




sábado, 19 de fevereiro de 2022

CCAÇ 2314 (Age Quod Agis) - Hiistória duma guerra

CCaç 2314 - Age Quod Agis

História de uma guerra…

COMPANHIA DE CAÇADORES 2314 – GUINÉ

A CCAÇ 2314 começou por ser formada a 28AGO67, tendo como unidade mobilizadora o Regimento de Infantaria n°. 15 de Tomar, e sendo uma subunidade do Batalhão de Caçadores  n°. 2834. Em Tomar, tem início, a 28 de Agosto de 1967, a Escola Preparatória de Quadros (EPQ) e, em 18 de Setembro de 1967, a Instrução da Especialidade (2.ª Parte da ER), concluídas na 1.ª semana de Novembro. A Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO), que foi feita na zona de Carregueiros, decorreu de 27 de Novembro a 15 de Dezembro de 1967, ao que se seguiu o período de licença, que terminou em 1 de Janeiro de 1968.

Em 8 de Janeiro de 1968, em cerimónia pública realizada na cidade de Tomar, e que contou, para além de autoridades militares, com a presença das autoridades civis da região e muita população e familiares, foram entregues ao BCaç 2834, e às suas Sub-Unidades (CCS, CCaç 2312, CCaç 2313 e  CCaç 2314), os respetivos Guiões, seguindo-se um desfile das forças em parada. Estas Cerimónias de despedida tiveram a presença do Combatente do RI 15 e um delegado do Q.G. – 2.ª Região Militar de Tomar.

Na madrugada de 10 de Janeiro de 1968, desloca-se, em comboio especial, para o Cais de Alcântara, em Lisboa, onde embarca, pelas 12h00 desse mesmo dia, no navio “UÍGE”, com destino à Província da Guiné. Às cerimónias de embarque esteve presente, em representação do Ministro do Exército, o Brigadeiro ADRIANO AUGUSTO PIRES.

Chegou à  Guiné a 15 de janeiro do mesmo ano. Foi-lhe atribuído a quadricula do subsetor de Jabadá, na região de Quinara, integrada no Sector de Tite sob a responsabilidade do Comando do Batalhão de Artilharia n°. 1914.

Por isso, desembarcou diretamente do navio Uíge e seguiu rio Geba acima, em LDM’s  com destino a Tite, onde desembarcou no Enxudé, e daí seguiu em coluna auto até ao aquartelamento de Tite onde chegou pelas 20 horas.

Ali iria decorrer o seu treino operacional, e depois ir para Jabadá, mas acontecimentos consequentes alteraram toda a programação.

Após a sua estadia em BISSÁSSEMA fica a reforçar este Batalhão, e posteriormente o BCav 2867, como Subunidade de intervenção e reserva do Subsector de Tite.

Entretanto surge a abertura do itinerário Tite - Nova Sintra e a construção daquele aquartelamento, entre 6 e 31 de Maio em conjunto com a CArt 1802.

Em 6 de Agosto de 1968, a CCaç 2314 assume, rendendo a CCaç 1624, a responsabilidade do Subsector de Fulacunda, colaborando em operações efetuadas em outras regiões, ou em reforço temporário de outras guarnições, nomeadamente em Bedanda, Xitole, Nova Sintra e Jabadá, bem como na organização das autodefesas das povoações de Camsongo, Chumael, Madina Mamadubuco e Afiá.

Em 30 de Junho de 1969, por troca com a CCav 2482, é colocada novamente em Tite, assumindo, mais uma vez, a responsabilidade operacional do respetivo Subsector.

Em 29 de Outubro de 1969, e tendo sido substituída pela CCav 2443, inicia o deslocamento, em faseamento, para o navio Uíge, para regressar a Lisboa.

Assim, da sua história da unidade e na permanência até Novembro de 1969, podemos considerar fatores importante da companhia as suas intervenções e estadia em BISSÁSSEMA, NOVA SINTRA, FULACUNDA  e TITE.

TITE  de 10JAN a 02FEV1968,

BISSÁSSEMA de 03FEV a 13MAR68,

TITE de 13MAR a 5MAI68,

NOVA SINTRA de 06MAI a 31MAI68,

TITE de 01JUN a 05AGO68,

FULACUNDA de 05AGOa68 a 30JUN69.

Durante este período, apenas esteve completa de 07AGO a 05NOV68, porque cedeu o 4°. pelotão à CAÇ 6, em BEDANDA, de 06NOV a 31DEZ68 e cedeu o 3°. e o 4°. pelotões ao B. CAÇ 2852, em BAMBANDINCA, de 22DEZ68 a 10MAI69.

TITE de 01JUL a 27OUT69, e neste período cedeu o 2°. pelotão à C.CAÇ 2482, em FULACUNDA, de 05AGO a 27SET69.

No subconsciente fica a situação conturbada da ocupação temporária de Bissássema com a CArt 1743, na sequência de frequentes e fortes ataques das forças do PAICG e o antecedente aprisionamento de três militares da CArt 1743, a abertura de itinerário de Tite para Nova Sintra, e a construção do aquartelamento com a CArt 1802 e, em Fulacunda, a permanência desfalcada de dois Grupos de Combate que culminaram com o terrível flagelamento do aquartelamento na noite de consoada de 1968.

Para além disto, a realização da primeira coluna auto entre Nova Sintra e Tite, a 31 de Maio de 1968, a construção uma mesquita destinada à população islâmica e a recuperação de uma capela em FULACUNDA, e o elevado número de baixas, infelizmente, causadas aos combatentes do PAIGC, em especial em BISSÁSSEMA, são fatores que não se podem apagar no decurso da sua permanência na Guiné.

A permanência em TITE de 01JUL a 31OUT69, foi por assim dizer, um pouco mais sossegada como que uma ‘compensação’ do que nas situações anteriores aconteceram.

Refira-se que efetuou 39 operações, sofreu 26 ataques aos aquartelamentos pelo PAIGC, vários deles comandados por Nino Vieira. No que concerne “…aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando…”, sofreu a baixa de um militar europeu e de 6 soldados africanos que lhe estavam em reforço e 33 europeus e 9 guineenses ficaram feridos.

Terminada a sua Comissão de Serviço na Guiné, a CCAÇ 2314 embarca, no dia 3 de Novembro de 1969, no navio “Uíge”, desembarcando em Lisboa, na Rocha de Conde de Óbidos, no dia 8 de Novembro, no que foi deslocada, de imediato e em comboio especial, para o Regimento de Infantaria 15, em Tomar, ao que, tendo feito o espólio, é desmobilizada.

19 de Fevereiro de 2022.

JT







terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Nova Sintra- a visita do Sr. General Spínola em Junho de 1968

 


Bart 1914, Tite - Guiné

"Há pouco em conversa com o Pica Sinos, ele fez-me recordar a importância desta foto, não só pelos militares ali presentes, mas também pela importância estratégica do aquartelamento que ali ia ser construído e ainda pelos mortos e feridos que ali se verificaram, em circunstâncias verdadeiramente dramáticas, conforme tem sido amplamente referido noutros escritos tanto no blog do BART 1914, como neste e noutros facebook's, por vários militares intervenientes. Esta foto que o alf. Vaz Alves me enviou em Agosto de 2011, relata uma visita do Comandante Chefe da Guiné General António Spniola a Nova Sintra, em 5 de Junho de 1968, data esta que está escrita no verso da foto, pelo ten-cor Helio Felgas.. Esta foto vinha acompanhada da seguinte carta do alf. Vaz Alves, dirigida a mim. Repare-se na descontração da indumentária dos militares em pleno teatro operacional, embora perfilados... Para quem conheceu o Gen. Spinola sabe que isto só muito raramente era permitido.: - 

"Amigo Guedes

Um abraço antes de mais e as desculpas por só agora ir ao encontro do que me solicitaste. Já tinha há tempos o “rascunho” feito desta história, mas perdi-lhe o sitio onde o tinha guardado. Ontem, ao passar a vista no blog, envergonhei-me ao ler a tua carta e prometi a mim mesmo que de hoje não passava a história da foto do comandante Spínola.

Não sei se a foto tem alguma data no verso mas ela anda à volta do dia 7 de Junho de 1968.

A minha referencia vai para essa data uma vez que tinha passado um mês sobre o inicio da construção de Nova Sintra. (esta data confirma-se, escrita pelo então Ten-Cor. Hélio Felgas).

Nesse dia o comandante Felgas disse-me que no dia seguinte viria a Nova Sintra a Companhia Operacional de Tite e por sua vez a Companhia de Nova Sintra ia a S.João buscar reabastecimentos. Nessa altura a ementa estava limitada a arroz com chouriço e chouriço com arroz.

A chegada dos helicópteros com a poeira do quartel ainda em construção, encheu-nos a panela de areia e arroz. Ao mastigar é que notávamos a diferença.

O comandante Spínola viu a situação e no dia seguinte enviou alguns helis com frango e outros alimentos.

A situação era um pouco “gágá” em termos de segurança, uma vez que fiquei só no quartel, a fazer a defesa e a segurança aos helicópteros, com alguns cozinheiros e elementos do meu pelotão, num total de cerca de uma dúzia de homens. Isto porque o meu pelotão (Nativos 66) tinha sido reduzido por ferimentos no 1º. ataque ao quartel, em 10 de Maio.

Nesse ataque vi uma série de granadas de morteiro a explodirem nas árvores em frente ao meu abrigo.

Essas que explodiram em cima das árvores, espalhavam os estilhaços e atingiam as pessoas em especial na cabeça. Uma das que não explodiu em cima, veio pela árvore abaixo, atingir o Sapador Neto, que faleceu dali a dois dias.

Algumas dessas granadas, pelo que me disse o rádio telegrafista, que estava com o meu pelotão, andaram por bem perto de mim, com os estilhaços a ficarem marcados na árvore do meu abrigo.

Nesta dia, melhor, a esta hora lembrei-me de Bissássema e até a sombra dos baga-baga, lembravam alguém a rastejar na nossa direcção. Aliás nesse ataque os “turras” chegaram a tropeçar no arame farpado.

Nesse período de Bissássema, eu não estava em Tite, porque fui destacado pelo Quartel General, para fazer exames aos que tivessem 3ª. ou 4ª. classe, como se dizia na altura.

Foi o período negro do Batalhão em que, além de Bissássema com a captura pelo IN do Alf. Rosa e dos Soldados Contino e Capítulo, (da CART 1743) rapazes das transmissões, aconteceram a morte do Alf. Carvalho, do Soldado Victor e do furriel Rato, que trabalhava ao meu lado na sala de operações, em Tite.

da esquerda para a direita: Rato, Vaz Alves e Bagulho

Durante esses quatro meses o Comandante Felgas pressionou o Quartel General de tal maneira que tive de voltar a Tite. Ele argumentava que eu lhe fazia falta, mas o que é certo é que logo a seguir me mandou para Nova Sintra, como que “castigado”, embora eu nada fizesse para sair para os exames. Conheci no entanto vários pontos da Guiné e cheguei a pernoitar em Madina do Boé (o Algarve da Guiné...).

Com estas e com outras já não te falava na foto.

Em primeiro plano estão o Alf. Domingos Sá, um antigo colega meu do Liceu de Braga e que faleceu num dos ataques a Nova Sintra, em finais de 1968.

Logo a seguir aparece o Cap. Vicente que estava a comandar a Companhia Operacional 1802 em Nova Sintra, a substituir um Capitão que tinha sido apanhado por uma mina anti-pessoal.

Voltando ao caso da foto, queres saber o porquê da foto com toda a gente em calções e tronco nu? É simples. Era assim que se andava há um mês, com barba por fazer, vestidos o mais aligeirado possivel. Ninguém avisou da ida do Gen. Spínola e os guarda fatos estavam “fechados”, com as fardas nº. 1.

Aliás, o nosso banho era tomado com uma mangueira não sei de quantos polegadas e um motor a puxar água dum charco. Tenho a impressão que no meu album, que há tempos vos enviei, existe lá uma foto do banho, penso que com o Cap. Vicente, o Alf. Sá e eu.

Sem mais, aí vai mais um abraço e telefona quando receberes este “arrazoado.

Vaz Alves".

sábado, 11 de dezembro de 2021

Bissassema e Nova Sintra

 No Correio da Manhã de hoje, foi publicado o restante da entrevista dada anteriormente pelo furriel sapador de Minas e Armadilhas Domingos Monteiro, da CCS do BART 1914.

O nosso agradecimento ao Correio da Manhã e sua Jornalista D. Manuela Guerreiro.

Voltamos a lembrar que os elementos da CART 1743, CART 1802 e CCAÇ 2314, podem também se assim o entenderem, dar testemunho das suas vivências em terras da Guiné.

Obrigado Domingos Monteiro pela tua disponibilidade.




quinta-feira, 13 de maio de 2021

Adelino Ramiro Dias Neto - faleceu a 13 de Maio de 1968

 "NOVA SINTRA – O PÃO QUE O DIABO AMASSOU

O saudoso Ramiro Neto, destacado na cozinha do nosso Batalhão, dias antes da partida, disse: - …Meu Capitão Paraiso Pinto, eu tenho muito medo, não me deixe ir para N.Sintra, tenho um mau pressentimento… -

…Não sei? Vou falar com o Comandante, logo te digo…respondeu-lhe o Capitão. –

…Então meu Capitão já tem resposta para mim? –

…Tenho! O Comandante não abre excepções. Vão todos. Ninguém fica para trás…olha que insisti bastante…não consegui demovê-lo!

Aquando da flagelação IN, 7 dias depois de estacionadas as NT em Nova Sintra, o nosso bravo camarada morreu. Morte originada pelo estilhaço do rebentamento de uma granada de morteiro. Pensava ele estar protegido pela tampa da chapa de bidão, que colocou na vala-abrigo construída. O fragmento entrou pelo único buraco que deixou aberto. Foi a 13 de Maio de 1968.

Quem esteve por lá sabe que, na zona operacional do comando do Bart 1914, a tabanca de Tite, que ladeava a sul e a norte o aquartelamento das NT, era (a seguir a Bissássema com dimensão para além do triplo), o maior agregado populacional desta área, seguindo-se os das regiões de Jabadá e Fulacunda.

Também é do conhecimento que esta dispersão populacional, contornada por rios, bolanhas e matas, rica no cultivo orizícola, em pecuária (bovino) e na suinicultura (suínos), possibilitava, ao IN, grande mobilidade no desencadear acções de guerrilha, para flagelação aos nossos aquartelamentos, para controlo demográfico e político-administrativo das populações. Consequentemente, ainda permitia sacar, das populações, farto abastecimento em géneros e roupas (panos), e elevado recrutamento de carregadores. Com vistas a desencadear as já citadas flagelações, com armas pesadas, às nossas posições aquarteladas na região, nomeadamente em Tite, Enxudé, posto avançado e porto fluvial de Tite, Jabadá, Fulacunda, Empada e ainda em S. João, destacamento avançado de Bolama. Assim como na montagem de emboscadas, colocação de minas e armadilhas com vistas a barrar ou mesmo anular o avanço no território das NT. Toda esta magnificência operacional do IN, obrigava, no ponto de vista militar, a implementar um vasto e variado conjunto de operações, que foram em número de 117, até à ocupação do terreno de N. Sintra, visando desobstruir estradas e caminhos há muito emaranhados por denso matagal, possibilitando fácil acesso das NT ao patrulhamento, batidas, emboscadas e outras acções de confronto, com vistas ao enfraquecimento e despejo do IN da região.

Desobstruídas as estradas de terra batida, reparados, reconstruídos ou mesmo construídos os pontões, permitiu utilizar outros meios, até aí impossibilitados, nomeadamente os carros de combate – Daimlers – (jeeps blindados) e de transportes das tropas em viaturas ligeiras e pesadas, concludentemente a uma mais rápida ligação aos aquartelamentos implantados na região, proporcionando eficazes controlos territoriais e populacionais, fixar tropas e materiais de engenharia no terreno, nomeadamente em Nova Sintra, visando a construção de um novo quartel.

 

Dos nossos opositores, todas estas acções não podiam ficar sem resposta. Detentores do território, organizados, bem armados e municiados, procuravam, energicamente, impedir a progressão das NT, montando, por efeito de nomadização, várias emboscadas, colocando dezenas de minas no terreno e granadas accionadas por fio de tropeçar. Destruíram, por várias vezes, os pontões já implantados, colocavam abatizes armadilhados, obstáculos constituídos por grossos ramos de árvores, fortemente ligados ao solo com as extremidades aguçadas, tudo obviamente com vistas ao impedimento da progressão das NT.

Cumulativamente desencadearam, aos diversos aquartelamentos e posições agrupadas nas regiões afectas (exemplo Bissássema), 47 flagelações, com destaque para Fulacunda e Tite, causando às NT, até ao final de Março de 1968, 8 mortos (2 por afogamento) cerca de meia centena de feridos, alguns de muita gravidade e com necessidade de serem evacuados para o continente, e ainda 3 capturados.

Sabemos que as moedas têm duas faces, as guerras também. Até ao começo da implementação do quartel em Nova Sintra, – Maio de 1968 – nas operações, de diverso tipo, desencadeadas pelas companhias aquarteladas em Tite, Jabada, Fulacunda, Empada, pelo destacamento de S.João e por Companhias de Pára-quedistas (2 vezes), estima-se que foram mortos 128 guerrilheiros, feridos, mais do dobro, presos ou capturados 117, dos quais foram soltos por falta de interesse estratégico/militar 112. Destruído 3 de acampamentos militares, 12 canoas e capturadas várias toneladas de material de guerra, pesado e ligeiro, onde se inclui 1 canhão s/recuo.



Nestas fotos estão a imagem do Neto, no cemitério e a outra é da placa de Homenagem que já está pronta mas que por causa do covid ainda não foi possível colocar na campa. 

Após 50 anos o Hipólito conseguiu encontrar a campa do nosso amigo no cemitério de Penamacor, concelho de Paços de Ferreira, tendo falado com a familia e conseguido autorização para a colocação da placa. Obrigado ao Pica Sinos e ao Hipólito. 

Leandro Guedes.


sábado, 8 de maio de 2021

Nova Sintra - uma permanência feita de sofrimento, sangue, suor e lágrimas

 CCaç 2314 - Age Quod Agis

21 h  ·

NOVA SINTRA – GUINÉ

Faz hoje 53 anos que foi o início do aquartelamento de Nova Sintra, na Península de Gantangó, Guiné Portuguesa.

Na madrugada de 6 de Maio de 1968, a CCAÇ 2314 e a CART 1802 saiam de Tite e São João, respetivamente, com destino à região de Nova Sintra, para a construção de um aquartelamento.

A CCAÇ 2314 atinge o objetivo, pelas 9 horas e 30 minutos e a CART 1802, pelas 15 horas, com uma coluna de 17 viaturas carregadas de material diverso necessário à sua construção, que ocorreu até 31 de maio.

Esta acção tinha tido inicio com trabalhos de abertura e desmatação da estrada que ligava Tite a Nova Sintra, entre 17 de março e 4 de Maio de 1968 e as operações de reconhecimento em 19, 23 e 30/31 de março.

A CCAÇ 2314, a 31 maio 1968, regressa a Tite, fazendo-se acompanhar de 5 viaturas GMC, tendo atingido Tite pelas 9 horas, sem qualquer contato com o IN e a Cart 1802 permaneceu em Nova Sintra.

Esta permanência em Nova Sintra foi bastante penosa quer para a CCac 2314 bem como para a CArt 1802, onde sofreram ataques ao aquartelamento em 10MAI, com um morto soldado nativo e 10 feridos, a 12, 14 e 19 de Maio, sem consequências, e finalmente no dia 26 de Maio com um ferido.

Outras companhias se seguiram no melhoramento das condições e defesa destas instalações.

Assim, verificamos que no historial de Nova Sintra, consta:

- O aquartelamento foi construído pela CCAC 2314 e pela Cart 1802 entre 6 e 31 de Maio de 1968;

- A Cart 1802, ‘Os Pioneiros de Nova Sintra' permaneceram depois até Outubro de 1968;

- A CArt 1743, esteve entre outubro de 1968 e Março de 1969;

- A CCav 2483, os ‘Cavaleiros de Nova Sintra', esteve entre Março de 1969 e Setembro de 1970;

- A CCav 276, 'Pica na Burra', esteve entre Setembro de 1970 e 8 de Dezembro de 1970;

- A CArt 2771, os ‘Duros de Nova Sintra', entre 8 de Dezembro de 1970 e 16 de Setembro de 1972;

- Finalmente, a 2ª CART do  BART 6520, permaneceu em Nova Sintra entre 16 de Setembro de 1972 e 17 de Julho de 1974, data em que entregou o aquartelamento ao PAIGC.

Desse dia, diz-nos Carlos Barros: 

“Quando os guerrilheiros do PAIGC estavam perto do arame farpado, portões das bananeiras, criou-se suspense de quem os iria receber. Os furriéis Barros e Ferreira, desarmados e em calções, assumiram corajosamente esse papel, e foram para junto do portão de acesso ao destacamento, onde os guerrilheiros/as e a população afeta ao PAIGC entraram, conviveram connosco, tiramos fotografias, jantaram, dormiram e afinal cheguei a uma conclusão: - Eles e nós estávamos fartos da guerra e desejávamos a paz e, acima de tudo, a libertação da Guiné”.

Diz-nos, também, que ajudou a oferecer livros e outras lembranças, tendo sido para ele ‘um momento marcante da história da Guerra Colonial, em Nova Sintra’.

Ajudou a arrear a bandeira portuguesa, mas o PAIGC não hasteou a sua porque não tinha bandeira.

Ficou com uma recordação dessa bandeira portuguesa da qual guardou dois pedaços como lembrança da História Real ou Virtual da Guerra. Bandeira que já estava em muito mau estado, diz ...

Uma das fotografias, publicada por José Pires, é um documento histórico da entrega formal do quartel de Nova Sintra (BART 6520 de Tite) ao PAIGC, em 17 de Julho de 1974, onde vemos o Alf. José Pires, o Ten. Cor. Almeida Mira e o Cap. de Nova Sintra, pela parte portuguesa.

O Furriel Miliciano Carlos Barros, da 2ª. CART do  BART 6520, relata-nos assim como foram os últimos dias da presença portuguesa em Nova Sintra, na Província  Ultramarina da Guiné, situada na região de Gantangó, Quinara.

Este relato é ‘o princípio e o fim” de uma permanência feita de sacrifícios, sangue, suor e lágrimas e até da própria morte, quer do lado das Forcas Armadas Portuguesas, quer do PAIGC.

Nova Sintra estava situada na parte sul do Setor de Tite, na Península de Gantangó,  Quinara. Era uma região abundante em cajueiros e mangueiros, onde se fazia o cruzamento da estrada internacional que tinha início  no Enxudé, porto no rio Geba, e ligava Tite a Bolama por São João e Fulacunda até Buba e Catió.

Presentemente, segundo informações, o local encontra-se completamente abandonado e as instalações desaproveitadas cobertas pelo mato.

Gouveia, 6 de Maio de 2021.

Cor. JMPTrabulo





sexta-feira, 7 de maio de 2021

Nova Sintra - As Memórias

 CCaç 2314 - Age Quod Agis

Ontem às 11:51  ·

NOVA SINTRA – GUINÉ

Foi na madrugada de 6 de Maio de 1968 que a CCAÇ 2314 partia do aquartelamento de Tite rumo à região de Nova Sintra, em Gantangó, onde chegou pelas 9 horas e 30 minutos para ali construir um novo aquartelamento em conjunto com a CART 1802 que também tinha saído do aquartelamento de São João, tendo chegado, cerca das 15 horas, acompanhada de 17 viaturas carregadas de material diverso para a construção do Quartel.

Aberto o itinerário de Tite para Nova Sintra entre 17 de março e 4 de Maio de 1968 e terminados os trabalhos de abertura e desmatação e as operações de reconhecimento em 19, 23 e 30/31 de março, ali permaneceu onde nomadizou, com a finalidade de construir uma proteção afastada aos trabalhos do novo aquartelamento e coadjuvar a CArt 1802 na construção e na defesa do novo aquartelamento onde aquela companhia ficaria instalada.

A CCAÇ 2314 esteve em Nova Sintra entre 06 maio a 31 maio 1968, data em que regressou a Tite, fazendo-se acompanhar de 5 viaturas GMC, tendo atingido Tite pelas 9 horas, sem qualquer contato com o IN.

A Cart 1802 permaneceu em Nova Sintra.

Esta permanência em Nova Sintra foi bastante penosa, quer para a CCac 2314 bem como para a CArt 1802, onde sofreram ataques ao aquartelamento em 10MAI, com um morto soldado nativo e 10 feridos, a 12, 14 e 19 de Maio, sem consequências, e finalmente no dia 26 de Maio com um ferido.

Por ali, outras companhias permaneceram para a 2ª. CART do  BART 6520, fazer a passagem do destacamento de Nova Sintra de Portugal para o PAIGC, no dia 17 de julho de 1974.

6 de Maio de 2021.

Cor. Pais Trabulo




domingo, 11 de abril de 2021

A "Inha"

"A "Inha"… O furriel Carlos Barros, que nos deu indicações sobre a entrega de Bissássema ao PAIGC, enviou-nios a seguinte estória...:

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Registo:” Estórias” da Guiné

A cabrinha INHA:

Os militares da 2ª Companhia de Nova Sintra, com reforços de pelotões de Jabadá/Fulacunda, estiveram envolvidos na abertura da estrada Nova-Sintra –Fulacunda, em 1973.

Ao rasgar essa estrada, por entre mato denso, iriamos ter problemas com o inimigo , o que se veio a verificar já que fomos emboscados algumas vezes, tentando obstruir a nossa

progressão porque esse acesso a Fulacunda não interessava militarmente ao PAIGC.

O furriel Barros estava com o seu grupo de combate na segurança da estrada, com outro grupo, e estavam homens e mulheres africanas envolvidas na descapinagem do estradão.

Verifiquei, por mero acaso, que uma indígena tinha apanhado uma cabrinha à mão que se tinha perdido da mãe e perguntei-lhe o que iria fazer com o animal. Prontamente me respondeu, dizendo que a ia matar e depois comê-la!

Abeirei-me dela e pedi que ma vendesse por 50 pesos , o que concordou perante a minha alegria, vendo que o animal não seria morto. No regresso ao destacamento, trouxe a cabrinha para o quartel, arranjei e adaptei um biberão e comprava leite na cantina e assim a Inha era alimentada por mim com todo o carinho e protecção.

Foi crescendo, dormia debaixo da minha cama na caserna e na parada do destacamento seguia-me para todo o lado.

O Capitão Cirne , queria comprar a Inha mas confesso, que não a vendia por dinheiro nenhum porque gostava muito do animal. A cabrinha era acarinhada pelos soldados do meu grupo, sendo a coqueluche da companhia e passeava por todo o lado, sem ninguém a molestar.

Tinha chegado a hora do jantar e quando começávamos a comer o arroz com salsichas, vieram os soldados Cruz , Barros e Lurdes à messe e um deles disse-me:

- A INHA “adormeceu”…

Levantei-me a correr para a caserna e encontrei já morta a minha INHA, perante o meu desgosto…

O que aconteceu?

Um dos soldado deu-lhe cascas de manga e provavelmente , teve uma congestão já que só se alimentava de leite e não vi outra razão…

Perdi a vontade de jantar e peguei n cabrinha, enterrei-a junto à caserna e depois coloquei uma cruz com uma lápide com os dizeres:

- “Aqui jaz a INHA”…

Foi um dia triste para mim e para os meus companheiros do pelotão e, nesse mesmo dia, morreu à mesma hora, uma gazela selvagem que tinha sido apanhada pelos militares e que se encontrava num galinheiro - “Gazeleiro”- improvisado….Triste coincidência…

Nunca mais desejei nenhum animal comigo, já que eles querem viver em liberdade, como todos nós seres humanos que, felizmente, só a conseguimos obtê-la no dia 25 de Abril de 1974.

Nova Sintra maio de 1973 

Carlos Manuel de Lima Barros"

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

A última vez que foi içada a Bandeira de Portugal em Nova Sintra.

 Ex-combatentes do BART 6520/72

Desta vez fotos da partida dos Portugueses de Nova Sintra, depois da entrega.

Fotos do facebook do BART 6520/72, da autoria de José Elias, a quem agradecemos.

7 h , em 16 de Julho de 1974.

A última vez que foi içada a bandeira de Portugal, em Nova Sintra e a partida para Tite.

Nova Sintra era uma zona deserta, que pertencia à região de Quinara, pertencente também à zona de intervenção do BART 1914 e onde começou a ser tentado construir um quartel a partir de 1967, com muitos contratempos e dificuldades.











Entrega de Nova Sintra ao PAIGC

 "Ex-Combatentes do BART 6520/72

Chegada dos elementos do PAIGC a Nova SIntra. Do lado direito, de óculos,  Tchambu Mane que era o comandante da artilharia que tanta dor de cabeça nos deu. De boné, o comandante de sector Quinto Cabi"

Esta fotografia está publicada no facebook do BART 6529 e é da autoria de Ramiro Figueira, a quem agradecemos.

Esta foto é de 16 de Julho de 1974 e representa a entrega de Nova Sintra ao PAIGC.

Por trás do Tchambu Mané, parece estar o alf. Fernando Teixeira, que relatou ao Pica as entregas de Nova Sintra e Tite ao PAIGC, relatos esses que fazem parte do nosso Livro de Memórias.

Leandro Guedes.

terça-feira, 14 de julho de 2020

O inferno de Nova Sintra - CCAÇ 2314


Joaquim Caldeira:
"As fotografias que publiquei sobre Nova Sintra poderão dar uma pálida ideia do que foi viver aquela aventura. Mas antes desta tínhamos vivido a aventura de Bissássema. Em qualidade e perigo, terá sido ainda pior. Convido os companheiros que possuam fotos daquele inferno para que façam a sua publicação."






segunda-feira, 8 de junho de 2020

NOVA SINTRA - O pão que o diabo amassou...!


Publicamos novamente este excelente texto do Pica Sinos, sobre a dramática morte do nosso saudoso Ramiro Neto, cuja campa foi encontrada pelo Hipólito Sousa, tendo falado com os familiares do falecido. Brevemente o Hipólito vai escrever um artigo sobre a morte e o luto da familia do Ramiro Neto:
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"NOVA SINTRA – O PÃO QUE O DIABO AMASSOU
O saudoso Ramiro Neto, destacado na cozinha do nosso Batalhão, dias antes da partida, disse: - …Meu Capitão Paraiso Pinto, eu tenho muito medo, não me deixe ir para N.Sintra, tenho um mau pressentimento… -
…Não sei? Vou falar com o Comandante, logo te digo…respondeu-lhe o Capitão. –
…Então meu Capitão já tem resposta para mim? –
…Tenho! O Comandante não abre excepções. Vão todos. Ninguém fica para trás…olha que insisti bastante…não consegui demovê-lo!
Aquando da flagelação IN, 7 dias depois de estacionadas as NT em Nova Sintra, o nosso bravo camarada morreu. Morte originada pelo estilhaço do rebentamento de uma granada de morteiro. Pensava ele estar protegido pela tampa da chapa de bidão, que colocou na vala-abrigo construída. O fragmento entrou pelo único buraco que deixou aberto. Foi a 13 de Maio de 1968.
Quem esteve por lá sabe que, na zona operacional do comando do Bart 1914, a tabanca de Tite, que ladeava a sul e a norte o aquartelamento das NT, era (a seguir a Bissássema com dimensão para além do triplo), o maior agregado populacional desta área, seguindo-se os das regiões de Jabadá e Fulacunda.
Também é do conhecimento que esta dispersão populacional, contornada por rios, bolanhas e matas, rica no cultivo orizícola, em pecuária (bovino) e na suinicultura (suínos), possibilitava, ao IN, grande mobilidade no desencadear acções de guerrilha, para flagelação aos nossos aquartelamentos, para controlo demográfico e político-administrativo das populações. Consequentemente, ainda permitia sacar, das populações, farto abastecimento em géneros e roupas (panos), e elevado recrutamento de carregadores. Com vistas a desencadear as já citadas flagelações, com armas pesadas, às nossas posições aquarteladas na região, nomeadamente em Tite, Enxudé, posto avançado e porto fluvial de Tite, Jabadá, Fulacunda, Empada e ainda em S. João, destacamento avançado de Bolama. Assim como na montagem de emboscadas, colocação de minas e armadilhas com vistas a barrar ou mesmo anular o avanço no território das NT. Toda esta magnificência operacional do IN, obrigava, no ponto de vista militar, a implementar um vasto e variado conjunto de operações, que foram em número de 117, até à ocupação do terreno de N. Sintra, visando desobstruir estradas e caminhos há muito emaranhados por denso matagal, possibilitando fácil acesso das NT ao patrulhamento, batidas, emboscadas e outras acções de confronto, com vistas ao enfraquecimento e despejo do IN da região.
Desobstruídas as estradas de terra batida, reparados, reconstruídos ou mesmo construídos os pontões, permitiu utilizar outros meios, até aí impossibilitados, nomeadamente os carros de combate – Daimlers – (jeeps blindados) e de transportes das tropas em viaturas ligeiras e pesadas, concludentemente a uma mais rápida ligação aos aquartelamentos implantados na região, proporcionando eficazes controlos territoriais e populacionais, fixar tropas e materiais de engenharia no terreno, nomeadamente em Nova Sintra, visando a construção de um novo quartel.

Dos nossos opositores, todas estas acções não podiam ficar sem resposta. Detentores do território, organizados, bem armados e municiados, procuravam, energicamente, impedir a progressão das NT, montando, por efeito de nomadização, várias emboscadas, colocando dezenas de minas no terreno e granadas accionadas por fio de tropeçar. Destruíram, por várias vezes, os pontões já implantados, colocavam abatizes armadilhados, obstáculos constituídos por grossos ramos de árvores, fortemente ligados ao solo com as extremidades aguçadas, tudo obviamente com vistas ao impedimento da progressão das NT.
Cumulativamente desencadearam, aos diversos aquartelamentos e posições agrupadas nas regiões afectas (exemplo Bissássema), 47 flagelações, com destaque para Fulacunda e Tite, causando às NT, até ao final de Março de 1968, 8 mortos (2 por afogamento) cerca de meia centena de feridos, alguns de muita gravidade e com necessidade de serem evacuados para o continente, e ainda 3 capturados.
Sabemos que as moedas têm duas faces, as guerras também. Até ao começo da implementação do quartel em Nova Sintra, – Maio de 1968 – nas operações, de diverso tipo, desencadeadas pelas companhias aquarteladas em Tite, Jabada, Fulacunda, Empada, pelo destacamento de S.João e por Companhias de Pára-quedistas (2 vezes), estima-se que foram mortos 128 guerrilheiros, feridos, mais do dobro, presos ou capturados 117, dos quais foram soltos por falta de interesse estratégico/militar 112. Destruído 3 de acampamentos militares, 12 canoas e capturadas várias toneladas de material de guerra, pesado e ligeiro, onde se inclui 1 canhão s/recuo.
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Meu Caro Guedes
Faz o favor de ler o artigo que eu escrevi sobre Nova Sintra Vem lá referidas datas de quem é quem. Atenção os movimentos e as respectivas datas foram copiadas de sitrepes. O algodão não engana...
Podes puxar por Nova Sintra – O Pão que o diabo amassou
São 2 artigos ou então republica-los.
Dizer ainda que eu vejo na fotografia o Vaz Alves e não creio Que a fotografia fosse tirada noutra “estância de férias” na Guiné.
Uma coisa te garanto quem não este lá fui eu (e tu também não...) e ainda hoje tenho Pena de quem lá esteve a passar todo aquele horror
Tem um bom dia Pica Sinos
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O aquartelamento de Nova Sintra, durante o mês de Maio, foi flagelado 7 vezes, causando 1 morto (a 13/05) e 19 feridos graves que, muitos destes, foram evacuados, nessas mesmas noites, por helicópteros directamente para Bissau. Do lado contrário as mortes confirmadas foram em número de 26 e feridos 31.
A 05/06/68 o aquartelamento de Nova Sinta foi visitado pelo CMDTChefe acompanhado pelo CMDT do Bart.
A 11/07/68 foi inaugurada a iluminação exterior e, a
19/07/68 foi inaugurada a pista de aterragem por uma avioneta, um Dornier 27.
A luta, essa, estupidamente tinha que continuar causando continuadamente mortes e feridos de ambos os lados, estragos e desgraças bem ao gosto daqueles que as fomentavam.
Pica Sinos"

Foi encontrada a campa do Neto


“Porque alguns artilheiros demonstraram interesse, após várias diligências, consegui localizar a sepultura do Neto, Adelino Ramiro Dias Neto, falecido no dia 13/5/1968, em Nova Sintra.
Foi sepultado no cemitério da freguesia de Penamacor, concelho de Paços de Ferreira, onde, ainda, tem irmãos vivos, com uma das quais estabeleci contacto pessoal.
Hipólito Sousa.”




nota - O Neto foi aquele companheiro que faleceu em Nova Sintra.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Nova Sintra - foto do ex-alf. Domingues


Esta foto tirada em Nova Sintra, a sul de Tite,  foi partilhada do Facebook do ex-alf. Domingues.
Leandro Guedes.

sexta-feira, 29 de março de 2019

NOVA SINTRA - Desmatação da estrada, construção de pontões e construção de aquartelamento


Bart 1914, Tite Guiné Bissau 
ESTRADA E AQUARTELAMENTO DE NOVA SINTRA

Tempos difíceis para todos aqueles que intervieram nesta operação tão massacrante e penalizante para as nossas tropas e do IN. Após todos estes anos as recordações permanecem vivas no espírito de todos nós. No nosso blog (bart1914.blogspot.com) estão contadas várias histórias sobre tão triste e trágico episódio da nossa permanência em Tite na Guiné.Todas as Unidades militares que fizeram parte desta operação de desmatação e abertura da estrada para Nova Sintra e construção do respectivo aquartelamento, têm no seu curriculo um role imenso de mortos, feridos, amputados, deprimidos em alto grau, originados pelas situações mais dramáticas e inimagináveis, vividas naquele local, "ONDE O DIABO AMASSOU O PÃO..." Ainda hoje há mães que continuam a chorar os seus filhos, jovens mulheres que tiveram as suas vidas rasgadas pela dor e outras que ainda hoje continuam a amparar e a amar os seus maridos embora com deficiencias várias, e filhos que não conheceram os seus pais. Os cemitérios de todos os cantos do País estão valorizados, dignificados e engrandecidos com as campas dos valorosos guerreiros que à Pátria deram a vida.Outros não tiveram a mesma sorte e continuam esquecidos em campas sem dignidade, cobertas de mato, espalhadas pela Guiné, como é sabido."Se todos eles serviram a Pátria que lhes foi ingrata, eles fizeram o que deviam e ela, o que costuma”