Batalhão de Artilharia 1914
“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma”
(Do Padre António Vieira, no "Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma", na Capela Real, ano 1669. Lembrado pelo ex-furriel milº Patoleia Mendes, dirigido-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar.).
-
"Ó gentes do meu Batalhão, agora é que eu percebi, esta amizade que sinto, foi de vós que a recebi…"
(José Justo)
-
“Ninguém desce vivo duma cruz!...”
"Amigo é aquele que na guerra, nos defende duma bala com o seu próprio corpo"
António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente
referindo-se aos ex-combatentes da guerra do Ultramar
-
“Aos Combatentes que no Entroncamento da vida, encontraram os Caminhos da Pátria”
Frase inscrita no Monumento aos Heróis da Guerra do Ultramar, no Entroncamento.
---
"Tite é uma memória em ruínas, que se vai extinguindo á medida que cada um de nós partir para “outra comissão” e quando isso nos acontecer a todos, seremos, nós e Tite, uma memória que apenas existirá, na melhor das hipóteses, nas páginas da história."
Batalhão de Artilharia 1914, Tite/Guiné
Não
voltaram todos… com lágrimas que não se veem, com choro que não se ouve… Aqui
estamos, em sentido e silenciosos, com Eles, prestando-Lhes a nossa Homenagem.
Ponte de Lima, Monumento aos Heróis
da Guerra do Ultramar
.
.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2022
Carlos Vaz Pires, mais um aniversário
terça-feira, 25 de janeiro de 2022
Este blog completa hoje 14 anos de vida - mensagem de João Godim, em 2019.
O Blog do BART 1914 completa hoje 14 anos de vida.
Teve inicio em janeiro de 2008 e durante todo este tempo
recebeu 618.660 visitas e imensas participações através de mensagens, escritos
vários onde a guerra nem sempre foi o tema, relatos sofridos e outros bem
dispostos, fotografias, vídeos de companheiros, amigos, familiares e
visitantes.
Muitos reencontros se verificaram durante este tempo.
Organizaram-se trinta almoços anuais em diversos pontos do
País, interrompidos devido ao covid.
Foram dadas entrevistas à TV e Jornais sobre a nossa
participação na Guerra do Ultramar.
Com base no Blog foram elaboradas as MEMÓRIAS DO BART
1914.
O BLOG continua a ser um elo de união entre todos os Combatentes da CCS do BART 1914 e demais Unidades Militares estacionadas em Tite, no Sector de Quinara, na Guerra do Ultramar/Colonial, (Bissassema, Nova Sintra, Jabadá, Enxudé,) entre outras localidades, principalmente no período de abril de 1967 a março de 1969.
Com a valiosa ajuda de todos, nestes 14 anos muita coisa
está aqui plasmada, umas boas outras nem tanto, mas é sem duvida um testemunho
da História.
Muito obrigado a todos.
“Amigo, lembrei-me desta vez focar uma triste realidade que
foi a destruição inútil da obra que de qualquer forma se construiu e poderia
ter beneficiado, e muito a população de Tite.
Claro que poderá ser controverso
José Justo”. 24/01/2022.
Antes de mais parabéns pelo XI aniversário do Blog da BART
1914. É dos blogues que conheço o que mais e melhor informação transmite sobre
a guerra na Guiné. Entrar no blog da BART 1914 é aceder a um vasto conteúdo que
nos situa, com todo o realismo, numa Guiné em guerra,
social e culturalmente pobre, vítimas de uma colonização
desprezível, com milhares de jovens portugueses a combater em nome de uma
Pátria que há muito tinha abandonado os territórios africanos.
Seja assim ou assado, fico grato pela informação que o blog da BART me tem proporcionado.
Que dure por muitos e bons anos,
Uma cordial abraço
João Godim"
15/02/2019
segunda-feira, 24 de janeiro de 2022
José Justo - as memórias...
"José Justo
21 de janeiro às 21:08
·
REMEMBER
Tenho imensas ESTÓRIAS de vida recordadas desde há decadas
!!
Esta, teria eu uns 8/9 anos, por ai !!
Das pessoas que mais adorei e que guardo com muito carinho
no coração, era minha querida avó materna, de seu nome; Conceição (foto 8).
Tratava-a por São e já como adulto Sãozinha.
Meu avô – ser humano fantástico – (foto 11) faleceu cedo no
Hospital de Marinha, ficando a avó viúva.
Embora nós os cinco vivesse-mos na mesma casa, nunca nada substituiria as saudades do muito amado marido.
Para quebrar a solidão e como nova motivação de vida,
dedicou-se à igreja, tanto religiosamente como participante ativa nas obras de
apoio social (foto 5).
Agora o problema!!... Eu e meu irmão começámos a ter contra vontade
“uma forçada vida religiosa muito ativa”!!.
Na nossa família a Igreja do Sacramento, no Chiado (fotos 6
e 7), tinha muitas tradições, pois foi lá que nossos pais casaram (fotos 3 e
3A), eu e meu irmão fomos batizados, 1ª comunhão, Comunhão Solene, Crisma…e
“assistentes forçados” em bastantes atos solenes nas datas de destaque
litúrgicos.
Missas dominicais - ainda em Latim - em bastante quantidade
!! Te Deum’s e Via Sacra !!!!
Lembro-me como eu e meu irmão sofríamos horrores com “estas
torturas” !!
Tanto as missas como estas duas cerimónias eram tão
longas…tão longas, tão monótonas…tão monótonas
e repetitivas!! que nos
desesperavam.
Nas Via Sacra, estávamos sempre “mobilizados” para
acompanhar todo aquele ritual das Estacões sempre à volta da igreja e nós os
dois de opa vermelha vestida (foto 1A) e tocha gigante acesa nas mãos (foto
00A), sempre ao lado do padre Carvalho (foto 4), que diga-se de passagem era
super antipático para a miudagem e nós por várias vezes ouvimos responsos da
avó por comportamentos inadequados logo à saída da igreja e em casa desta vez
pela mãe!!
Como em cada Estação lá tínhamos que nos ajoelhar de tocha
acesa na mão (foto 00A) enquanto ouvíamos a “ladainha”, eu tinha o vicio de
estar sempre a tirar bocadinhos de cera da tocha, fazia bolinhas e deitava para
o chão para junto das cadeiras dos fiéis !!…como dizia o outro: “criança não
pensa” mas eu pensava e fazia de propósito!!
Certa vez, por tanto mexer e raspar no suporte superior da tocha que era em madeira com uma grande mola interior, desenrosquei o suporte…salta a mola… e começa a oscilar “feita doida” com a vela a pingar cera por todos os lados!!... e foi o que se vê (foto 1).
O padre Carvalho e a avó São estavam petrificados - ainda
hoje recordo as expressões daqueles dois rostos - o meu irmão ria, ria…o
sacristão – outra pestezinha – de volta da tocha a tentar apagar a vela e meter
a mola dentro do corpo de madeira… enfim imagine-se!!
Querida avó São, tantas saudades.
Houve um período, quando trabalha nos Oulman na rua dos
Fanqueiros que ia almoçar todos os dias a casa da avó e pós almoço nos dias
bons, ficava-mos á janela do quarto dela a falar, a falar…das suas vivências,
do meu querido avô Jordão, do tempo de quando jovem, viveu em Inglaterra e
tantas vezes sobre religião, admitindo ela que a minha maneira de pensar talvez
tivesse origem na forçada, mas inocente presença e influência religiosa.
Sendo ela católica praticante bastante devota, aceitava sem
comentários criticos, as minhas linhas de pensamento - sendo eu já na altura
Agnóstico Ateísta - embora à época, sem o saber exatamente.
Estou certo e hoje compreendo os tempos e as circunstâncias
de então – os pais também adorariam aquele período da casa vazia só para eles
!! LOL – .
Tenho as minhas convicções anti religiões dogmáticas de uma
maneira global, fortemente vinculadas em oito ou nove livros temáticos, e não
só.... “Os dogmas são se discutem, ou se acreditam ou não”!!.
Triste e saudosamente, todos estes queridos “já da lei da
vida se libertaram” formaram lá no alto,
uma nova e bela constelação.
…Quando me for lembrando de algo caricato ou interessante,
que ache valer a pena, eu “pranto aqui” depois já sabem: passem ao boneco
seguinte e esqueçam !! Cuidem-se.
Abraços e Beijinhos.
José Justo"
quinta-feira, 20 de janeiro de 2022
Homenagem ao Alf. Anónio Rosa
21 h ·Dia 19 de janeiro de 2022.
Hoje, cumpriu-se um desejo que ansiava. Recebi o relato do
cativeiro de um amigo que escreveu após ter sido libertado a 22 de novembro de
1970.
Há precisamente 54 anos fazia o seu último registo
fotográfico antes de ser feito prisioneiro em Bissassema na madrugada de 3 de
fevereiro de 1968, pelo PAIGC na Guiné.
Uma recordação que guardarei com saudade...
Bem-hajas António Júlio Rosa, estejas onde estiveres!
O livro e a sua última foto antes de ser feito
prisioneiro...
João Manuel Pais Trabulo – Coronel."
segunda-feira, 17 de janeiro de 2022
Charles Aznavour - Charles Aznavour - J'avais 20 Ans (Tradução)
domingo, 16 de janeiro de 2022
terça-feira, 11 de janeiro de 2022
Parabéns Domingos Monteiro
Mais um aniversário, desta vez o Domingos Monteiro. Parabéns amigo que contes muitos mais com saúde junto dos teus.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2022
Estatistica das visitas ao Blog
Desde sempre – 615254
Hoje - 525
Ontem - 582
Este mês - 3205
Mês Anterior - 8394
O LIVRO DO CATIVEIRO DE UM AMIGO !
Histórias de uma guerra…
O LIVRO DO CATIVEIRO DE UM AMIGO
Finalmente, consegui adquirir o livro que o amigo António
Júlio Rosa escreveu sobre o seu cativeiro que teve inicio na noite de 2/3 de
Fevereiro de 1968, em que foi feito prisioneiro pelo PAIGC, em Bissassema,
GUINÉ.
Era esse o meu desejo e após 50 anos, nos finais de 2018,
consegui falar com ele. Perguntei-lhe como conseguiria adquirir o livro que
escreveu. Deu-me várias pistas, que não tiveram êxito, pois estava esgotado.
Estivemos a trocar impressões durante largo tempo pois muito havia para
conversar. Combinámos encontrar-nos quando eu fosse a Lisboa ou ele viesse à
sua terra, à Abrunhosa, Mangualde e que tinha cá uma foto para lhe dar, a
última antes de ser feito prisioneiro.
Pelas circunstâncias da vida, já não se concretizou. Falou-me muito da sua
vida, principalmente do seu cativeiro e, em especial da doença que,
infelizmente, o afetava. Sofria de problemas respiratórios e, inclusivamente, a
sua respiração já era ajudada por meios auxiliares. Disse-me que já não andaria
por cá por muito tempo. Procurei animá-lo, mas ele tinha a perceção do que o
esperava.
Era Alferes Miliciano da CArt 1743 e faleceu no dia 5 de
Abril de 2019.
Agora que adquiri o seu livro, tenho uma recordação deste
amigo para o recordar com SAUDADE...
10 de Janeiro de 2022.
JT
Faz hoje 54 anos que a CCAÇ 2314 embarcava no navio UIGE, rumo à Guiné.
CCAÇ 2314 – Rumo à GUINÉ
Faz, hoje, 54 anos que a CCAÇ 2314 embarcava no navio Uíge
no cais da Rocha de Conde Óbidos, em Lisboa, com destino à PU da Guiné.
Na madrugada do dia 10, pelas 1 horas, partia de comboio da
estação da CP de Tomar em direção à cidade de Lisboa, onde chegaram pelas 7
horas da manhã.
Seguiu-se a formatura em parada das Unidades, a distribuição
de lembranças pelas Senhoras do Movimento Nacional Feminino e o respetivo
desfile.
Finalmente, cerca das 12 horas, os militares embarcaram no
navio UÍGE, com destino à Província Ultramarina da Guiné.
Passados que foram 54 anos, resta-nos a consciência e o
orgulho do dever cumprido como “Portugueses” e de ter constituído uma “Família”
que ainda hoje recordamos com saudade – a C. CAÇ 2314.
10 de Janeiro de 2022.
JT — em Gouveia Municipality
À Volta Da Península de Peniche em Fotografia 2021
Para os amigos de Peniche...
Video feito pelo amigo Francisco Germano Vieira, ( https://pinturasempeniche.blogspot.com/) com musica
original do seu filho Marco Vieira, e dedicado a todos os amigos de Peniche,
principalmente ao Jacinto
Borges e o Joaquim
Henriques.
Como adquirir o Livro do Alferes António Júlio Rosa - 2ª edição.
O Senhor Coronel Trabulo já adquiriu o Livro do Alf. Rosa -
2ª edição e informou-me dos tramites para o comprar:
Quem estiver interessado manda email para
colibri@edi-colibri.pt a manifestar o seu interesse na compra.
custo - 12 €uros, com 10% de desconto
Podem adquiri-lo na Reitoria da Universidade de Lisboa, por
este preço, ou seja 10,80 €uros. A Colibri tem lá uma Livraria.
Quem quiser o envio por CTT
- mais 2,50
Se for por transportadora - mais 3,85.
Boas leituras!
domingo, 9 de janeiro de 2022
... Os rapazes de Tite estão constantemente a ser atacados...!
seguida, já com cerca de 19 meses de comissão, sempre no duro, fomos para a operação "LANÇA AFIADA", com saída do XIME, de madrugada em direcção á Ponta Luis Dias. Ás 8: da manhã houve contacto, felizmente sem problemas e depois começou o forró. Abraço a todos os combatentes, com votos de muita saúde.
Raul Soares".
sábado, 8 de janeiro de 2022
sexta-feira, 7 de janeiro de 2022
A IGREJA NA VIDA DOS PRISIONEIROS DE GUERRA - O CASO DE GERALDINO MARQUES CONTINO DA CART 1743 - BISSASSEMA.
INTRODUÇÃO
Publicamos este trabalho do Furriel Milº Jorge Alves Araújo, com a devida vénia ao próprio e ao Blog de Luis Graça & Camaradas, das Op. Especiais/Ranger, da CART 3404, de l971/1974 - Xime-Mansambo.
"Os Diabos"
Pasta: 04309.007.011.
Título: Guiné 1 - Falam os portugueses prisioneiros de
guerra.
Assunto: Editado pela FPLN/Portugal, em Alger, exemplar 1 de
publicação com declarações dos militares portugueses feitos prisioneiros pelo
PAIGC. Pretende-se dar conhecimento da verdade às famílias, ao mesmo tempo que
se acusa o governo português de os referir como desaparecidos (militares das
incorporações de 1966). Este número inclui transcrição de uma comunicação de
Amílcar Cabral, Secretário-Geral do PAIGC, aos microfones de “A Voz da
Liberdade”, dirigida aos prisioneiros portugueses, no dia 3 de Agosto de 1968,
com a promessa de fornecer em breve fitas magnéticas com testemunhos dos
prisioneiros, bem como o tratamento que lhes é dado, quando feridos e ligação
com a Cruz Vermelha Internacional, para o seu repatriamento para junto das suas
famílias.
Data: 1968. Observações: Declarações gravadas em fita
magnética e difundidas pela Rádio Libertação, pelo PAIGC, que autorizou
retransmissão pela emissora da FPLN, a Voz da Liberdade. Fundo: Arquivo Mário
Pinto de Andrade.
Tipo Documental: Documentos
2. A IGREJA NA VIDA DOS PRISIONEIROS DE GUERRA (II) - O CASO DE GERALDINO MARQUES CONTINO
Geraldino Marques Contino, o ex-1.º Cabo Op.Crpt da CART
1743, feito prisioneiro naquele sábado, dia 3 de Fevereiro de 1968, na tabanca
de Bissássema, certamente que passou pelas mesmas emoções, angústias, privações
e sofrimentos relatados pelos seus camaradas de infortúnio, o António Rosa e o
Victor Capítulo, desde que foi capturado, depois na prisão de Kindia, onde
cinco dias após aí ter dado entrada completou o seu 23º aniversário (em 15 de
Fevereiro) e, por último, na de Conacri.
Como referimos anteriormente, foi na busca de informações
sobre a sua vida em cativeiro que tomámos em mãos essa tarefa, existindo uma só
fonte onde poderíamos obtê-las, isto é «Do outro lado do combate». E a consulta
recaiu, uma vez mais, no espólio da Casa Comum – Fundação Mário Soares, onde
encontramos várias referências, umas já publicitadas acima, outras relacionadas
com a troca de correspondência entre os responsáveis da Igreja Católica e
Amílcar Cabral, na qualidade de secretário-geral do PAIGC.
E a causa/efeito para esse contacto nasce da falta de
notícias do Geraldino Contino, o qual deixou de escrever aos seus familiares,
em particular para os seus pais, depois do mês de Janeiro de 1970, muito
provavelmente por volta do dia em que completava o seu 25º aniversário (o 3.º
em cativeiro), data considerada para si e para os seus de muito importante. A
ausência de liberdade, o permanente controlo dos seus movimentos, e a cada vez
menor motivação para a escrita, levaram-no a cortar com o mundo exterior. Será
que foi isso que aconteceu? Ou terão as cartas, também elas, ficado retidas/
prisioneiras?
Uma vez que a ausência de notícias se manteve durante alguns
meses, os pais do Geraldino Contino tomam a iniciativa de escrever para o
Vaticano, dando conta a Sua Santidade o Papa Paulo VI (1897-1978) da sua
angústia por desconhecimento do destino do seu filho, feito prisioneiro pelo
PAIGC. O Santo-Padre interessa-se por este caso e remete, em 10 de Setembro de
1970, uma carta dirigida ao Arcebispo de Conacri, Raymond-Marie Tchidimbo (1920-2011),
solicitando informações concretas sobre a situação desse jovem militar. Este
religioso, por sua vez, cumprindo o superior desejo de Paulo VI, escreve em 16
do mesmo mês uma nova missiva de teor semelhante, enviando-a ao cuidado de
Amílcar Cabral, na qualidade de secretário-geral.
Recorda-se que estas duas cartas, escritas em francês,
constam da Parte I. (*)
A este contacto formal do Arcebispo de Conacri,
Raymond-Marie Tchidimbo, seguiu-se a resposta pronta de Amílcar Cabral, com
data de 17 de Setembro, cujo conteúdo daremos a conhecer de seguida, a tradução
e o original em francês, por esta ordem.
Tradução [de Jorge Araújo]:
Conacri, 17 de Setembro de 1970
Sua Excelência Monsenhor Raymond-Marie Tchidimbo, Arcebispo
de Conacri Monsenhor,
Tenho a honra de acusar a recepção da vossa carta de 16 de
Setembro, pela qual teve a gentileza de pedir para o pôr ao corrente sobre o
conteúdo de uma carta remetida pela Secretaria de Estado da Cidade do Vaticano,
por intermédio de Sua Excelência Monsenhor BENELLI, substituto desse mesmo
Ministério.
A direcção nacional do nosso Partido está honrada de poder
dar as seguintes informações acerca do prisioneiro de guerra Geraldino Marques
Contino de acordo com o interesse de Sua Santidade o Papa Paulo VI.
- Nome: Geraldino Marques Contino
- Filho de Armando Contino e de Olinda Marques
- Nasceu em 15 de Fevereiro de 1945 em Envendos [Mação,
Santarém]
- Profissão: estudante
- Situação na arma colonial: 1.º Cabo – RAL5
- N.º mecanográfico: 093526/66
- Feito prisioneiro em 3 de Fevereiro de 1968 em Bissássema
(Frente Sul) a 17 quilómetros de Bissau, a capital.
O prisioneiro encontra-se bem, tanto física como moralmente.
De acordo com os princípios humanitários da nossa luta, do respeito pela pessoa
humana e de nunca confundir colonialismo português e povo de Portugal ou
cidadãos portugueses, o melhor tratamento é concedido a este prisioneiro como a
todos os outros. Toda a sua correspondência é enviada, no tempo, para o seu
destinatário. É possível que o Governo português por necessidade da sua
propaganda contra a nossa luta legítima, não quer que as famílias dos
prisioneiros sejam informadas da situação na qual se encontram os seus filhos,
cônjuges e irmãos.
A carta anexa, escrita pela mão do prisioneiro, e endereçada
a seus pais, informará melhor que nós sobre a sua situação, a sua saúde e o seu
estado de espírito.
À vossa inteira disposição para todas as informações úteis,
por favor aceite, Monsenhor, a expressão dos nossos sentimentos de respeito e
fraternal amizade.
Pel’ O Secretariado Político do PAIGC
Amílcar Cabral, Secretário-Geral
Tradução [de Jorge Araújo]
Senhor Amílcar Cabral
Secretário-Geral do PAIGC
Conacri
Deixe-me dizer obrigado – um obrigado muito simples mas não
menos sincero – pela recepção dispensada à minha carta de 16 de Setembro e a
resposta, tão rápida e atenciosa, que se dignou trazer.
Gostaria de ser gentil o suficiente por ter sido o
interlocutor junto do Secretariado Político do PAIGC para o qual registo aqui a
expressão da minha gratidão.
O SANTO-PADRE será em breve informado, por intermédio de Sua
Excelência Monsenhor Substituto da Secretaria de Estado da Cidade do Vaticano,
- Monsenhor BENELLI – do conteúdo da sua carta; ao mesmo tempo que será
transmitida a relação de Geraldino Marques Contino a seus pais.
O seu gesto, Senhor Secretário-Geral, marca uma etapa
decisiva da vossa luta para conseguir, finalmente, libertar a sua Pátria de
toda a dominação; o Vaticano, singularmente atento às actividades dos
Movimentos de Libertação do mundo inteiro, não vai deixar de apreciar o
verdadeiro valor das intenções e dos esforços do PAIGC.
Queira aceitar, Senhor Secretário-Geral, com os meus
agradecimentos repetidos, a expressão do meu bem fraterno e respeitosa amizade.
Conacri, 19 de Setembro de 1970
Raymond-Marie TCHIDIMBO,
Arcebispo de Conacri
Fonte: Casa Comum; Fundação Mário Soares.
Pasta: 07069.111.023.
Assunto: Agradece a resposta à sua carta, em que dá conta da
situação do prisioneiro de guerra Geraldino Marques Contino.
Remetente: Monsenhor Raymond-Marie Tchidimbo, Arcebispo de
Conacri.
Destinatário: Amílcar Cabral, Secretário-Geral do PAIGC.
Data: Sábado, 19 de Setembro de 1970.
Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Relações
com a Guiné-Conacri / Senegal 1960-1970.
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral.
Tipo Documental: Correspondência.
Vinte e sete anos depois, numa iniciativa do semanário «Expresso», foi possível reunir em Lisboa, dezasseis desses prisioneiros. Na capa da «Revista do Expresso, n.º 1.309, de 29 de Novembro de 1997, é possível identificar, com a seta amarela, o Geraldino Marques Contino, camarada que esteve no centro deste trabalho de pesquisa [Infogravura nº 4]. O texto da reportagem é da autoria do jornalista José Manuel Saraiva.
A escassos dias de completar quarenta e sete anos, em que reconquistaram a liberdade na sequência da audaz «Operação Mar Verde» [Guiné-Conacri, 22 de Novembro de 1970], e a vinte anos da primeira reunião pública em grupo, em Lisboa, por iniciativa do Expresso, este trabalho é, também, a minha homenagem a todos eles, uma aprendizagem pessoal e, ainda, uma lembrança pelas duas efemérides.
Obrigado pela atenção.
Com um forte abraço de amizade… e muita saúde.
Jorge Araújo.
8NOV2017
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
O LIVRO DO ALFERES ANTÓNIO JÚLIO ROSA, DA CART 1743, FOI REEDITADO.
"Espero que te encontres bem, assim como a família e votos de um bom ano com muita saúde.
A viúva do Júlio Rosa, ligou-me há dias a dizer que havia
uma 2ª. edição do livro, com uma capa diferente, que anexo. O livro foi
reeditado pela COLIBRI.
Agradeço-te que metas esta notícia no BART 1914, para que
quem estiver interessado em adquirir o livro o possa fazer.
Abraço e boa saúde
Raul Soares"
segunda-feira, 3 de janeiro de 2022
domingo, 2 de janeiro de 2022
O NATAL NO MEU BAIRRO...
“O NATAL NO MEU BAIRRO
Era o dia mais curto
de todo os dias, do ano
e isso alegrava, dava ânimo
a toda a pequenada
que esperava a Consoada
e as prendas no sapatinho
mas a noite, era a mais longa
de todas as noites, até ali
e a hora da deitada,
vagarosa tardava
prongando o seu caminho.
Queríamos que a noite viesse
e o Pai Natal trouxesse
os presentes do costume.
Mas tínhamos que esperar.
A mãe, de frigideira no lume
fritava as filhós.
Na mesa, uma tacinha com nozes,
já descascadas
e outra maior, com castanhas piladas.
Um prato com açúcar e canela
por onde a Anabela,
que era a filha mais velha,
passava as filhós,
colocando-as depois
numa travessa maior,
alinhando-as com primor.
Após a ceia de Natal
havia um ritual
seguido religiosamente.
O fogareiro de Primus
tinha que estar reluzente
no centro da chaminé.
Os sapatos, ordenados
pelo tamanho do pé,
tinham que estar engraxados
por quem lhes pertencia
e a cozinha arrumada
com tudo no seu lugar,
não fosse o Menino Jesus
tropeçar.
Depois, tudo recolhia
às camas onde dormia.
Só que o sono não chegava!...
Era a noite mais longa e mais fria
mas também a mais desejada.
Um ano, lembro-me bem,
a Anabela gritou pela mãe.
Tinha visto o Menino Jesus
passar à porta do quarto.
Foi um desacato.
Um alvoroço!...
A mãe veio de seguida.
- Estás louca rapariga?!...
ele não se deixa ver...
E a Anabela em pé na cama
com as veias do pescoço
acesas e avermelhadas
- Mas eu vi-o!...
Trazia nas costas o xaile
que a mãe costuma usar.
Se calhar estava com frio...
- Vá lá. Agora vem-te deitar.
Ainda o espantas
e não te deixa nada.
E o silêncio voltou a reinar
na noite gelada.
Não sei que horas seriam
mas era alta madrugada,
levantámo-nos de um salto
correndo para a chaminé.
Lá estavam os embrulhinhos
brilhantes e com lacinhos.
Que encanto, que magia.
Soquetes, dois ou três pares
e laços para o cabelo
ou um travessão com flores.
Caixas com lápis de cores,
cadernos para pintar.
Sombrinhas de chocolate
e caramelos para chupar.
Que lindo Natal o nosso.
Recordo como se fosse
passado há pouco tempo...
Depois corríamos pelo Bairro
felizes, alegres, soltas
seguidas pelas gaivotas,
mostrando umas às outras
o que nos tinha calhado.
Algumas não tinham nada
e com tristeza nos olhos
tentavam sorrir também.
Então, os bombons e chocolates
eram assim repartidos
e por todos nós comidos
sob o olhar da nossa mãe
que com um prato de filhós
participava também.
Outras, com melhor vida
mostravam bonecas de pano
e até de papelão,
uns tachinhos, uma mesa,
cadeirinhas e um fogão.
Os rapazes, um carrinho de corrida,
uma bola, um camião
de lata ou de madeira,
chamavam quem nada tinha
para se juntar à brincadeira.
Jogava-se futebol
ou faziam-se corridas,
trocavam-se as repetidas
destas prendas de Natal.
Era assim uma partilha
de alegria e desafio,
de amizade que aquecia
aquela manhã de frio.
Que saudades do Visconde
e destas manhãs de Natal
em que nas ruas, as crianças
tinham nos olhos a esperança
e o amor fraternal...
Helena Marcão, do facebook de M.A.Granja.
Foto: Internet”