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Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma! (Patoleia Mendes ).

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"Ó gentes do meu Batalhão /

Agora é que eu percebi /

Esta amizade que sinto /

Foi de vós que a recebi…"

(José Justo)


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EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

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segunda-feira, 10 de março de 2008

Alcinda Leal, comentou...

ALCINDA LEAL...comentou...

Amigo Guedes, reparei no comentário da tua amiga Alcinda Leal, que simpácticamente tem colaborado no nosso blog. Diz ela:
“Quase todos os homens da minha família foram à guerra e nunca ouvi histórias sobre esses tempos !!”

Tudo tem uma explicação;
Primeiro e talvez o mais importante, o Estado Novo batia e rebatia na tecla, que nós não estávamos em guerra !!?? os militares no Ultramar tinham como única função POLICIAR e manter a ordem !!!???.
Depois tudo era feito às escondidas e no máximo segredo; Os militares mortos vinham para a Metrópole e eram desembarcados de noite (isto para as famílias que PAGAVAM...e bem...para terem os seus mortos), o mesmo para os feridos graves com destino ao Hospital Militar em Lisboa. Tudo feito com o maior secretismo e com o cuidado de evitar o máximo de testemunhas.
Noticias de ataques aos quartéis, evolução da guerra, desertores e refractários...nada disso era notícia, e ài de quem comentasse em público tais coisas, tinha logo a PIDE à perna.
Os militares, e - custe isto a muita gente - eram mal vistos pelos indígenas e pela população civil branca, suportavam-nos mas sempre à distância. As mãesinhas ainda aceitavam o relacionamento das filhinhas com militares, mas se fossem oficiais...dava um certo estatuto às meninas!!
Nós éramos instruídos para nunca falar de assuntos militares quando escreviamos para a família, pois, “havia sempre tendência para o exagero, e isso iria preocupar sem razão os familiares” além disso batiam na tecla de que, o correio era analisado e se o militar falasse de mais...sobre ”factos militares”... já sabia.
Todos nós, terminada a comissão, e chegados a casa, queriamos era esquecer o que por lá passamos, a vontade de falar não seria muita, e quando por vezes se relatavam episódios de guerra - qual guerra !!?? - ninguém acreditava.
Na minha vida profissional, contactei com imensos ex-militares, e quando falávamos sobre isto, todos confirmavam, que também eles sentiram o alheamento das pessoas, excepto aqueles a quem tinha morrido um parente. Passavamos por mentirosos...e a armar ao herói.
Outro pormenor importante, era posto a correr que o “policiamento nas colónias” fazia muitos jovens conhecer outras paragens, novas gentes, conheciam moças através do Movimento Nacional Feminino (madrinhas de guerra), iam ganhar dinheiro, que nunca conseguiriam com aquelas idades na Metrópole (isso era verdade, mas para os Sargentos e Oficiais), que morriam “muitos” militares em acidentes, porque como “tinham dinheiro” podiam comprar cerveja e por vezes abusavam !! e outras patacuadas, que se não fossem tão imbecis, até davam para rir.
Claro que o álcool teve influência em acidentes graves e mortais, mas que guerra se fez sem o Doping ?, alcool, droga, droga/alcool (no Vietnam). Era também o álcool que fazia de nós por vezes heróis, e nos mantinha “em pé” para suportar dois longos e miseráveis anos, longe do que era o nosso verdadeiro mundo, de não pensar muito, que amanhã estavamos metidos num caixão. Nunca faltou cerveja e whisky nas cantinas, no entanto, frescos, farinha, carne e até alcool para a enfermaria, volta e meia...nada.
Outro factor estratégico do Estado Novo era o de colocar os filhos dos colonos brancos em zonas de pouco ou nenhum conflito, o que levava a distanciar ainda mais as pessoas da realidade da guerra.
Para o meu trabalho sobre a GUINÉ 67-69 fui adquirindo livros sobre o tema GUERRA COLONIAL o que me ajudou bastante a esclarecer e confirmar muitas situações. Não inclui tudo, mas li, entre outras, uma frase que nunca esquecerei...comentava um colono branco...”nem pensem em por os nossos filhos na guerra, então depois, quem é que toma conta dos pretos”. Esclarecedor, não ??
Para finalizar, em boa hora o ex-companheiro e amigo Leandro Guedes começou com o este nosso Blog sobre o BART 1914. Ao ler alguns escritos meus, e dos outros camaradas de armas, que ele fez o favor de inserir, minha mulher e filha, ficaram estupefactas, pois nunca lhes tinha contado nada. Passados 40 anos, e martelados pela vida, já não dói tanto !!
“Inter pares” somos diferentes, e por tudo isto, passamos, sofremos juntos e quando regressados, começamos a sentir uma revolta e indiferença que magoavam muito.
...Iamos defender a “mãe Pátria”, demos o melhor de nós...a juventude (3 anos), a saúde, largas dezenas de milhar ficaram estropiados, perto de 10.000 perderam a vida, e chegando cá...indiferença, desemprego, traumas, o ódio de muitos ditos retornados, muitos empregadores sabendo que o candidato tinha estado no Ultramar, pura e simplesmente lhe dava o estatuto de “apanhado da cabeça”, casos crónicos de alcoolismo, e muito mais que foi constando.
Com uma “mãe” destas, nossa amiga, preferia ser órfão !!

Zé Justo

alcindaleal disse...
Maior clareza de explicação não era possível! O senhor elenca um conjunto de razões que, de facto explicam tudo! gostei do seu artigo e gosto sempre de vos ler,porque me esclarecem muito e ,penso, para vós também é bom por que, inter-pares, fazem a catarse depois de tantos anos e nós aprendemos a conhecer este período negro da nossa história! Obrigada!

1 comentário:

alcindaleal disse...

Maior clareza de explicação não era possível! O senhor elenca um conjunto de razões que, de facto explicam tudo! gostei do seu artigo e gosto sempre de vos ler,porque me esclarecem muito e ,penso, para vós também é bom por que, inter-pares, fazem a catarse depois de tantos anos e nós aprendemos a conhecer este período negro da nossa história! Obrigada!