O seguinte texto é da autoria do Pica Sinos, a quem agradecemos:
HISTORIA QUE FALTAVA CONTAR
EMBORA NÃO HOUVESSE ESCARAMUÇAS FISICAS GENERALIZADAS, NO
MOMENTO DA ENTREGA DAS COLHEITAS AGRICOLAS EXISTIA SEMPRE UM CENÁRIO DE ENORME
TENSÃO PESICOLOGICA E VERBAL
O camponês guineense
passava o ano inteiro a quebrar as costas a cultivar a terra debaixo de um sol
abrasador e de um clima tropical implacáveis, a carregar sacos de arroz e
mancarra (amendoim) por quilómetros a fio, para depois ser enganado e ser
reduzido a um risco de lápis num perpétuo rol de dívidas.
Se a memória não me falha nos anos de 1967/69 estacionado na
Guiné-Bissau/Tite, mobilizado obrigatoriamente para a guerra colonial, grande
parte dos camaradas sabiam da vivência dos naturais e das suas ocupações
profissionais sobretudo na agricultura. Sabíamos quanto eram explorados dando
lugar a graves desentendimentos entre os agricultores e o comerciante Silva que
sem rebuço chamava o chefe de posto, (uma espécie de policia) para colocar
"ordem" na discussão a seu favor.
Este estabelecimento, que apelidávamos como "tasca do
branco Silva", funcionava como sucursal da casa Gouveia do Grupo Cuf!
Sucursal esta considerada como importante entreposto de receção, escoamento e
comercialização dos produtos agrícolas e florestais fundamentalmente; o arroz,
a mancarra, (amendoim).
Fora do contexto monopolista, para sua subsistência, os
agricultores, cultivavam em pequenas áreas de terreno, outros produtos
agrícolas a saber: a mandioca, a batata-doce, o milho, o feijão, etc., cuja
aceitação, na loja, ficava ao critério do comerciante Silva.
NO ROL OFICIAL DE DIVIDAS E PELO LIVRO DE FIADO DO COLONO
(TAMBÉM CONHECIDOS POR PONTEIROS OU COMERCIANTES) OBRIGATORIAMENTE FICAVAM
AGARRADOS À LOJA POR IMPOSSIBILIDADE PERPETUA DO PAGAMENTO
Dizia-se, na década em referência, ser comum em toda a
Guiné-Bissau, os comerciantes (com raras exceções) pagarem as colheitas do
arroz e do amendoim abaixo do valor máximo estabelecido pelo governo colonial.
Atento não poucas vezes tive oportunidade de ouvir gritos e
discussões ruidosas provenientes do balcão da recolha dos produtos agrícolas
acusando, os agricultores, o comerciante de roubo por usar medidas de peso
manipuladas com vistas a pagar menos do que estava estabelecido pelo governo
colonial!
Os agricultores não tinham dinheiro, o valor dos produtos
agrícolas entregues eram registados no rol oficial do governo, assim como o
valor dos produtos que o agricultor necessitava do ponto vista profissional e
ou para sua subsistência: Sementes, enxadas, catanas, candeeiros, petróleo,
sal, café, sabão, panos, vinho, aguardente etc. Os valores destas e outras
mercadorias eram registados em colunas de deve e haver em caderno de rol
oficial e do comerciante, ficando o deve com valores bem acima do haver! O Que
implicava dizer que os agricultores ficavam eternamente " presos "
àquela sucursal.
Regressei em Março de 1969
Raul Pica Sinos
Agosto de 2026"
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