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“Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma”


(Do Padre António Vieira, no "Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma", na Capela Real, ano 1669. Lembrado pelo ex-furriel milº Patoleia Mendes, dirigido-se aos ex-combatentes da guerra colonial.).

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"Ó gentes do meu Batalhão, agora é que eu percebi, esta amizade que sinto, foi de vós que a recebi…"

(José Justo)

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“Ninguém desce vivo duma cruz!...”

António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente

referindo-se aos ex-combatentes da guerra colonial

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Eles,
Fizeram guerra sem saber a quem, morreram nela sem saber por quê..., então, por prémio ao menos se lhes dê, justa memória a projectar no além...

Jaime Umbelino, 2002 – in Monumento aos Mortos na Guerra Colonial, em Torres Vedras
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“Aos Combatentes que no Entroncamento da vida, encontraram os Caminhos da Pátria”

Frase inscrita no Monumento aos Mortos da Guerra Colonial, no Entroncamento.


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EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

RECONHECIMENTO

ESTES SÃO OS EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART. FALTAM AQUI OS EMBLEMAS DAS UNIDADES DA ARMADA E DA FORÇA AÉREA QUE TANTAS VEZES FORAM AO ENXUDÉ, A TITE, A NOVA SINTRA E OUTROS AQUARTELAMENTOS, PARA ENTREGA E LEVANTAMENTO DE CORREIO, O SPM, REABASTECIMENTOS DE GÉNEROS E MATERIAL BÉLICO E OUTRO DIVERSO, OU PARA EVACUAÇÃO DE MORTOS E FERIDOS E TAMBÉM PARA FLAGELAÇÃO DO IN. E AINDA VÁRIAS UNIDADES DE INTERVENÇÃO RÁPIDA TAIS COMO PARAQUEDISTAS, FUZILEIROS, COMANDOS E OUTRAS COMPANHIAS, PELOTÕES OU SECÇÕES, PARA AJUDA EM MOMENTOS MAIS DIFICEIS, NÃO ESQUECENDO AS ENFERMEIRAS PARA-QUEDISTAS.
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sexta-feira, 29 de março de 2019

NOVA SINTRA - Desmatação da estrada e construção de aquartelamento


Bart 1914, Tite Guiné Bissau 
ESTRADA E AQUARTELAMENTO DE NOVA SINTRA

Tempos difíceis para todos aqueles que intervieram nesta operação tão massacrante e penalizante para as nossas tropas e do IN. Após todos estes anos as recordações permanecem vivas no espírito de todos nós. No nosso blog (bart1914.blogspot.com) estão contadas várias histórias sobre tão triste e trágico episódio da nossa permanência em Tite na Guiné.Todas as Unidades militares que fizeram parte desta operação de desmatação e abertura da estrada para Nova Sintra e construção do respectivo aquartelamento, têm no seu curriculo um role imenso de mortos, feridos, amputados, deprimidos em alto grau, originados pelas situações mais dramáticas e inimagináveis, vividas naquele local, "ONDE O DIABO AMASSOU O PÃO..." Ainda hoje há mães que continuam a chorar os seus filhos, jovens mulheres que tiveram as suas vidas rasgadas pela dor e outras que ainda hoje continuam a amparar e a amar os seus maridos embora com deficiencias várias, e filhos que não conheceram os seus pais. Os cemitérios de todos os cantos do País estão valorizados, dignificados e engrandecidos com as campas dos valorosos guerreiros que à Pátria deram a vida.Outros não tiveram a mesma sorte e continuam esquecidos em campas sem dignidade, cobertas de mato, espalhadas pela Guiné, como é sabido."Se todos eles serviram a Pátria que lhes foi ingrata, eles fizeram o que deviam e ela, o que costuma”












terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Ainda sobre o tema da entrega das instalações militares de Tite e Nova Sintra


"Este bichinho é muito giro, mas o v/blog está de "mestre" - facil de se ler, transpira "sabedoria" de quem viveu entre a vida e a morte quase hora a hora, quem viveu aterrorizado, quem VENCEU ...venceram barreiras,criaram laços de amizade que com a tristeza de juventude "perdida" ,tão bem souberam "usar" para viver de cabeça erguida, cada um à sua maneira, como verdadeiros herois... bem hajam pelo trabalho, pelo empenho, pelo contributo que cada um dá conforme pode e sabe ...a HISTORIA existe porque há factos, há feitos, independentemente se a esta distancia, 50, 52 anos, pensarem hoje de forma ligeiramente diferente - estiveram onde estiveram, fizeram o que fizeram, perderam muito das v/vidas...tristemente, alguns dos próprios companheiros e até amigos, mesmo de infância - sobreviveram,.. há que VIVER a VIDA para, mesmo com alguma "raivinha", saudade, mas ainda com muita garra, expandirem o v/blog que merece lugar de destaque numa "Torre do Tombo" mesmo que virtual..... 
bjs a todos"
Natércia Leite.
in facebook do bart 1914

domingo, 13 de maio de 2012

Pelo horror e pelo sacrificio e ainda em memória dos que tombaram nesta guerra estúpida e desnecessária

Do blog do nosso companheiro Pica Sinos, copiamos com a devida vénia, este artigo renovado que nos trás à memória o falecimento dum companheiro em Nova Sintra - o Neto.


GUINE - NOVA SINTRA

O PÃO QUE O DIABO AMASSOU


…Meu Capitão, eu tenho muito medo, não me deixe ir para Nova Sintra, tenho um mau pressentimento… -
…Vou falar com o Comandante, logo te digo…respondeu-lhe o Capitão.
…Então meu Capitão já tem resposta para mim? –
…Tenho! O Comandante não abre excepções. Vão todos.
…Ninguém fica para trás, olha que insisti bastante!
O Ramiro Neto morreu em Nova Sintra, a 13 de Maio de 1968.

Com “aviso prévio”. 7 Dias depois, aquando da primeira flagelação do inimigo (IN), às posições das nossas tropas (NT), estacionadas em Nova Sintra - Guiné, o nosso bravo camarada morreu. A morte foi originada pelo estilhaço de um rebentamento de uma granada de morteiro. Pensava ele estar protegido, na vala-abrigo que construíra, pela tampa de chapa de bidão.
O fragmento entrou pelo único buraco que deixou aberto. Foi a 13 de Maio de 1968.

Na zona operacional do comando do Batalhão de Artilharia (Bart1914), a tabanca de Tite, que ladeava a sul e a norte o aquartelamento das nossas tropas (NT), era o maior agregado populacional do perímetro operacional, seguindo-se as tabancas de Bissassema, Jabadá e Fulacunda, de entre as demais.
Esta dispersão populacional, contornada por rios, bolanhas e matas, rica no cultivo orizícola, em pecuária (bovino) e, na suinicultura (suínos), possibilitava, ao inimigo (IN), grande mobilidade no desencadear das acções de guerrilha, na flagelação aos nossos aquartelamentos, e, no controlo demográfico e político-administrativo das populações.
Consequentemente, ainda permitia sacar, dos habitantes, farto abastecimento em géneros, roupas (panos), e elevado recrutamento de carregadores para o transporte do material bélico.


Toda esta magnificência operacional do IN, obrigava a implementar, da nossa parte, um vasto e variado conjunto de operações de combate, e, simultaneamente desobstruir estradas e caminhos, há muito emaranhados por denso matagal, criar novos aquartelamentos na área, com foi o caso em Nova Sintra.
Anulada a guerrilha nos trilhos. Desobstruídas as estradas e os caminhos, reparados, reconstruídos ou mesmo construídos os pontões, veio permitir utilizar meios, até aí impossibilitados, nomeadamente os carros de combate – Daimlers – (jeeps blindados) e, viaturas ligeiras e pesadas para transportes das tropas.

100 METROS QUADRADOS DE HORROR

Dos nossos opositores, todas estas acções não podiam ficar sem resposta. Detentores do território, organizados, bem armados e municiados, procuravam, energicamente, impedir a construção do aquartelamento, montando, para o efeito, novas emboscadas e, a colocação de dezenas de minas no terreno e granadas accionadas por fio de tropeçar. Destruíram, por várias vezes, os pontões já implantados, colocaram abatizes armadilhados e, organizaram obstáculos por grossos ramos de árvores, fortemente ligados ao solo com as extremidades aguçadas.

No entanto nada destas acções, viriam a impedir as NT de consolidar a presença no terreno. Chegados ao local, despejadas as viaturas, os trabalhos iniciaram-se a ritmo acelerado. Isolou-se o perímetro com o arame farpado, construíram-se valas-abrigos, a norte e a nascente, talvez com 2 metros de largo e 5 metros de comprimento e, as latrinas. Deu-se começo às fundações para os futuros pavilhões e, postos de guarnição para a defesa das posições. Começou-se também a limpar terreno com vistas a abertura da pista de aterragem.

Conta o Ex-Furriel Domingos Monteiro:
…As moscas e os mosquitos eram “personagens” deveras e muito incomodativas de dia. Á noite faziam desesperar com as sucessivas picadas, nem mesmo a roupa que trazíamos vestida as conseguia travar!
Acrescentando:
…As horas que passavam na escuridão daquela selva, mais pareciam dias. As chuvas também estiveram presentes. Quando, passados 7 dias de medos e incertezas, a 13 de Maio de 1968, pela calada da noite, o perímetro de terra e lama onde as NT se aquartelavam, com cerca de 100 m2, rodeado de arame farpado, é atacado, em força, por cerca de 100 homens. Causando às NT, 1 morto e 19 feridos graves que, muitos foram evacuados, nessas mesma noite, por helicópteros directamente para Bissau. Do lado contrário, as mortes confirmadas foram em número de 26 e feridos 31…
…Na manhã seguinte e durante o dia os trabalhos continuavam. No perímetro patrulharam-se as estradas e os caminhos, aqui ali rastos de sangue e material bélico ligeiro que, foi deixado para trás. Os nossos alimentos durante dias, foram as rações de combate. Na água que bebíamos colocávamos comprimidos para evitar as diarreias e febres…

Por sua vez o Carlos Leite (Reguila) refere:
…Na sucessão dos dias tudo era igual, o trabalho com as pás e com as picaretas calejava-me as mãos, o medo era constante, mas a disposição para a luta sobreponha-o…
…O cantarolar da passarada não me parecia ter o mesmo encanto…
…No terreno lamacento, alguns sapos, eram “sticados” pela pá ou com a picareta…
Refere ainda:
…Pelas noites dentro o sofrimento era maior…
…Aqui ali ouvia o ladrar dos cães…
…O vento ora forte ora brando, fazia-me confundir o “som” da selva...
…Ouvia as flagelações do IN a outros aquartelamentos e questionava-me; quando será, novamente, a nossa vez...que foram muitas…
…Eram nestes momentos que a falta da família e dos meus amigos mais se sentia…

Com “aviso prévio”, foi no breu da calada noite de vento brando que, o nosso amigo e querido camarada Neto morreu.
A morte foi originada pelo estilhaço de um rebentamento de uma granada de morteiro. Pensava ele, na vala-abrigo que construíra, estar protegido pela tampa de chapa de bidão. O fragmento entrou pelo único buraco que deixou aberto. Foi a 13 de Maio de 1968.

Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dão o sangue derramado


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Nova Sintra - crónica pelo Joaquim Caldeira

RETIRADO DO BLOG : http://ccac2314.blogspot.com/

Levantamento de rancho

Nova Sintra. Já aqui referida muitas vezes e sempre pelas razões piores. Chegámos a passar fome. E o trabalho era incessante. Andávamos todos mal nutridos e esgotados além de cheios de medo de que aquele fosse o nosso último dia. A comida era uma desgraça em qualidade –Já nem nos preocupava a qualidade – e em quantidade. Certo dia,, hora de almoçar, peguei na minha lata de Coca-Cola, à qual tinha sido retirada a tampa, e me dirigi para a improvisada cozinha onde o cabo cozinheiro fazia o melhor que podia e tinha e, nesse dia, perdi a razão. A minha lata vinha meia de água e tinha quatro feijões a nadar. E era o meu almoço, igual ao de todos, capitão incluído. Talvez para ele houvesse cinco ou seis feijões dentro do caldo. A taça, era também a lata de Coca-Cola. Danei-me. Fiz uma chinfrineira danada – por isso é que digo que me danei – e aconselhei os soldados a recusar comer.

Aí, entra em acção o segundo comandante, alferes Barros, engenheiro de profissão, homem muito sensato e que eu admirava pela sua cortesia e fair-play. Pegou-me no braço e tentou arrastar-me para longe dos soldados. Eu não aceitei e continuei a reclamar e a aconselhar o levantamento de rancho. Estava cheio de fome e aquilo não era comida suficiente para o resto do dia que se adivinhava muito trabalhoso e difícil.

Com uma calma que só o bom do alferes Barros, lá me fez acalmar e sugeriu-me que repetisse a dose, se ainda desse para repetir.

A custo, aceitei a sugestão dele mas entendia que era injusto eu poder repetir só porque tinha reclamado e, os restantes terem que ficar só pela dose de água e quatro feijões. E não repeti.
Interveio o capitão que me disse que podia acontecer eu ser preso pelo delito que estava a cometer e que devia dar bons exemplos, dada a minha posição de comandante de secção, etc. etc.

E assim ficou a minha rebelião que, afinal não chegou a servir para nada.

A pista de Nova Sintra

Algum tempo depois da nossa estada em Nova Sintra recebemos instruções para ir fazer segurança ao rio onde estava um batelão com carga para nós. Esse batelão transportava alimentos, munições, material para abrigos e... uma máquina de terraplanagem. Coisa inédita. Eu nem imaginava que pudesse haver uma coisa daquelas naquela terra. Mas havia e foi-nos entregue. Para que serve? Bem. Foi muito útil pois permitia em três tempos escavar um buraco com dois metros de profundidade, vinte de comprimento e mais de dois de largura. Se tivesse que ser aberto à mão era uma eternidade, a avaliar pelo esforço que despendemos nos primeiros dias em que tudo foi feito à mão.

Entretanto, um ataque que sofremos causou baixas em homens, equipamentos, abrigos e... na máquina. Esteve cerca de oito dias inoperacional. Penso que foi uma granada que lhe rebentou com um rodado. Finalmente, foi reparada. E agora, para que serve? O seu condutor levou-a para sul do quartel, numa zona de pouco mato e muito inclinada em direcção à mata onde havia o poço de abastecimento de água e vai de começar a fazer terraplanagens. É para a pista. Pista? Mas aquilo é tão inclinado. Como é que os aviões ali aterram e descolam? Mas a verdade é que foi mesmo para a pista. E eu fiquei a saber que as aterragens eram efectuadas com o avião virado para a parte que descia e a descolagem no sentido inverso, a subir. Como é possível que desenvolvam uma velocidade que permita a descolagem em terreno tão inclinado e consigam parar em inclinação a descer? Poi é. Mas era assim mesmo. E resultou.

Foi dessa pista que, mais tarde, foram evacuados, por avião, os feridos e o morto que eu relatei no episódio da mina que deixou um tronco sem pernas e sem braços.

Um tronco sem pernas e sem braços
Lá vou eu, de novo, a caminho de Nova Sintra, deste vez comboiar alguns militares da unidade lá aquartelada. Meus, eram para aí vinte homens. De Nova Sintra apenas quatro. Mas alguém havia de fazer segurança para que eles chegassem bem. Saímos de Tite pelas três horas, numa madrugada chuvosa e escura. Pedi ao Zé Carlos, o enfermeiro, que seguisse ao meu encalce. Sempre poderíamos falar se fosse preciso.

Desta vez não me fazia acompanhar de guia, pois que o caminho era já sobejamente conhecido, embora nunca trilhássemos o mesmo. Lá íamos seguindo perto da picada que já nos era familiar, umas vezes à direita, outras à esquerda.

Tínhamos passado Gatongó e informei, via rádio, que tudo seguia normal. A chuva era cada vez mais intensa, mas chuva civil não molha militares. A previsão de chegada era pelas oito horas e tinha combinado que um pelotão de Nova Sintra viria ao meu encontro logo que houvesse luz para nos podermos juntar sem problemas.

BUMMMMMMMMM......... Grande estrondo. Alguém tinha pisado uma mina. Após os procedimentos que se impunham, tentei saber quem tinha sido o infeliz. Mas ninguém sabia quem teria sido e não se via nada que pudesse indiciar homem ferido. Tanto pior. Um soldado dos meus, já me não recordo de qual. Disse-me que tinha voado por cima de mim e estava bastante ferido num braço, provocado pela queda. Entreguei-o ao Zé Carlos e continuei as buscas, ajudado por quem estivesse são. Três homens vieram ter comigo. Um caminhava amparado pelos outros dois e pensei que estivesse encontrado o infeliz. Mas não. Era mais um, furriel de Nova Sintra, que nunca cheguei a conhecer, que tinha perdido os dois olhos. Já não tinha dúvidas de que ainda havia outro. Este tinha os dois pés. O Zé Carlos não tinha mãos a medir e o Lourenço, o radiotelegrafista, não parava de comunicar com o furriel Garcia, este em Tite, o que se ia passando.

Após cerca de meia hora de buscas alguém tropeçou numa coisa que parecia ser um corpo. Sem luz não era fácil saber do que se tratava porque até podia ser um animal que tivesse, ao fugir de nós, ter pisado a mina. Fui verificar e após ter revirado o que restava, apurei que era uma cabeça presa a um tronco sem pernas e sem braços. Despi o meu blusão se embrulhei-o o melhor que pude, pedi a alguém que o carregasse e pedi ao Zé Carlos que o mantivesse vivo. A força aérea não evacuava mortos. A única maneira, disponível, era injectar CORAMINA e, sem saber, abreviámos-lhe a morte. Pobre dele. Já não sentia sequer que vivia. Nunca cheguei a saber quem era. Chegados a Nova Sintra, consegui convencer a enfermeira paraquedista a levá-lo no avião, como se ainda estivesse vivo. Ela não era trouxa mas compreendeu o meu problema que sabia que eu teria de carregá-lo, de regresso a Tite, o que só poderia acontecer no dia seguinte, durante a noite.

E assim se passou mais um episódio. Júlio Garcia, tu lembras-te muito bem. Comenta este episódio, tal como poderás comentar as restantes. Tu também os viveste. Só o Zé Carlos não pode por ter falecido pouco tempo após termos regressado a Portugal.

Nova Sintra (10-05-1968
A noite estava muito quente e havia algum luar. Eu pousei a arma no meu buraco e fui bater um papo com os homens do morteiro 60. Eram o Machado e o Meleiro. Este era o municiador, em substituição do Rebouta que fora ferido uns dias antes. Faziam uma boa equipa por serem quase conterrâneos. O Machado, homem corpulento, era o apontador.
E lá me estive a conversar com os dois, falando de que? Já não sei. Mas não devia ser nada diferente do que cheirasse a guerra. Ou a mulheres, coisa que não víamos há muito.

O meu guia, soldado preto e natural da Guiné, passou por mim e informou-me que iria deitar-se Sugeri-lhe que se deitasse ao lado da minha arma que estava à entrada do abrigo pois que eu também não tardaria a ir. Havia muitos mosquitos e, ao menos deitado tinha a protecção da rede mosquiteira.

E foi então que começou o ataque que já mencionei e que fez um morto, o meu guia, e ferido todos os restantes, alguns com gravidade.

Mas não estou a recontar a história para encher espaço. Na verdade há nela algo de muito trágico e até hilariante, passados tantos anos.

Após cerca de meia hora a fazer fogo contínuo, o morteiro aqueceu tanto que o Machado gritou para o Meleiro. O cano está muito quente. Não o aguento. Mas o Meleiro, transmontano de Urrós, junto às margens do Douro, teve uma solução. Gritou-lhe que enrolasse a camisa ao cano. Isto resultou durante algum, muito pouco tempo. Depois o Machado voltou a gritar: Tenho que parar. Não suporto o cano em brasa.

MEIJA-LE, gritou o Meleiro.

Ora eu não sei se se escreve assim, embora tenha presente que se trata de uma forma do verbo mijar. Mas não importa para aqui a forma ou o conteúdo. O que importa é que o Machado descarregou a bexiga à volta do cano e assim pôde continuar de fazer fogo.

O resto da história já foi contado. É trágico demais para ser repetido.

Operação Nova Sintra
Quem havia de dizer que tínhamos andado a construir uma estrada- picada- para nos atolarmos nela.

Foi mesmo isso. Ainda não estávamos refeitos do desastre de Bissássema e já estávamos metidos a construir um quartel no meio do nada, no cruzamento do que teria sido Nova Sintra.

Esta foi ainda mais difícil que a anterior. Só sei que estava a fazer uma ronda pelos postos avançados quando fui alvo de um tiro de canhão que iniciou o grande ataque a Nova Sintra.

Esse tiro de canhão entrou no meu abrigo, matou o meu guia - eu estava fora - que sorte, e feriu toda a guarnição. Durante cerca de uma hora o fogo foi de uma intensidade que em Tite já havia quem rezasse por nós. No meio disto até ficámos sem comunicações porque o único rádio operacional foi destruído por uma bala de canhão que rebentou nas redondezas e ainda feriu o capitão.

Durante todo o ataque eu não ouvi resposta de fogo do meu abrigo. Só que não podia levantar a cabeça para ir lá. Quando, por fim lá cheguei tive um desabafo parecido com este. Aos berros gritei: Seus filhos da puta! Então ninguém faz fogo? o cabo Melo respondeu-me com voz sumida: estamos todos feridos, meu furriel. Entrei em pânico. E agora? Corri para o capitão a pedir ajuda médica e vi-o , com ar pensativo, um dedo na testa, a olhar para mim com cara de sofrimento. Fiquei furioso. Então este gajo está a pensar na morte da bezerra em vez de se agarrar ao rádio e pedir reforços e socorro? E disse-lhe: Meu capitão: Tenho um morto e o resto estão todos feridos. Respondeu-me com o dedo na testa; Também estou ferido. E tirou o dedo da testa e o sangue jorrava pelo buraco que estava por baixo.

Também foi um dos evacuados. Mas teve o cuidado de ser o último, por respeito para com os restantes feridos. Grande homem, este capitão, hoje coronel, grande amigo e alvo de sofrimentos familiares inenarráveis.

Depois deste ataque, seguiram-se muitos mais, de menos intensidade. Pouco haveria a realçar, não fosse a fome que passávamos. Até que fomos substituídos. Ainda lá voltei muitas vezes para guarnecer a unidade que nos substituiu e uma vez para comboiar pessoal de passagem por Tite com destino àquele inferno. Foi nessa ocasião que, durante a noite muito chuvosa, tive um morto e vários feridos numa mina. Falarei disso mais adiante.


Para ver as fotos e outros artigos publicados, vale a pena visitar o blog da CCAÇ 2314 http://ccac2314.blogspot.com/

Nova Sintra - ainda a foto

Por indicação do Alf. Vaz Alves, fui verificar o verso da foto em questão, que está temporariamente em meu poder,  para confirmar a data. E na verdade a data que lá está é de 5 de Junho de 1968, foto esta que foi oferecida ao Alf. Vaz Alves pelo então Ten. Cor Hélio Felgas, conforme se demonstra pela cópia acima.
LG.

domingo, 14 de agosto de 2011

Nova Sintra - memórias (continuação)

Do nosso companheiro Joaquim Caldeira da CCAÇ 2314, transcrevemos os relatórios que nos enviou.





Joaquim Caldeira

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Nova Sintra - as memórias

Caros companheiros
Acerca deste mote sempre quente, o de Nova Sintra, publicamos há dias um excelente artigo do n/Alf. Vaz Alves, acompanhado duma foto da época e do local de Nova Sintra, elucidativos do que ali se passou e que viveu na péle todo aquele drama, desde a desbravação da mata, o atravessar de rios e bolanhas, até chegar ao ponto “X” préviamente marcado, o do futuro aquartelamento de Nova Sintra. É certo que foram dias dificeis com ataques permanentes durante o trajecto por mata serrada, com mortes e feridos.
Entretanto surgiu o comentário do nosso companheiro Joaquim Caldeira, furriel da CCAÇ 2314, que põe em causa factos e datas e até mesmo a foto.
Se se quiserem dar ao trabalho de ler as crónicas assinaladas no lado esquerdo deste Blog, na rubrica “Etiquetas ordenadas pela frequência de visitas” e clicando na posição “Nova Sintra”, vão encontrar dois artigos muito interessantes de seu titulo “NOVA SINTRA 100 METROS DE HORROR” e “NOVA SINTRA – O PÃO QUE O DIABO AMASSOU”.
No primeiro, da autoria do nosso companheiro Pica Sinos, é relatado ao pormenor o inicio da Batalha de Nova Sintra, em que intervieram pelo menos a CCS do BART 1914 com Sapadores, Atiradores, Serviço de Transportes, Transmissões, etc, Pelotão de Morteiros, Pelotão Daimlers, CART 1743, CART 1802, Pelotão de Milicias e concerteza também a CCAÇ 2314, embora o Joaquim Caldeira não reconheça na foto nenhum companheiro da sua Companhia.
Mas neste artigo do Pica Sinos, os factos relatados são baseados em documentos oficiais de carácter Confidencial à época, o que quer dizer há 43 anos atrás. A memória pode-nos atraiçoar, mas os documentos não. E surgem nestes artigos, comentários de vários companheiros, que comprovam o que ali se passou.
Nesta crónica é assinalado o dia 6 de Maio de 1968 como o da partida da CCAÇ 1802 de S.João (destacamento avançado de Bolama), com 17 viaturas, e a sua chegada ao ponto do futuro quartel às 15 horas, onde já se encontravam as tropas vindas de Tite.
Saber quem pôs o pé primeiro, quem colocou a primeira pedra parece ter pouca ou nenhuma importancia dada a grande quantidade de feridos e mortos, em combate ou acidentes, que as nossas tropas sofreram naquelas paragens onde na verdade, “foi comido o pão que o diabo amassou”.
O que interessa foi o esforço, os sacrificios, feridos graves e ligeiros, estropiados e mortos, que tão desgraçadamente as NT sofreram em Nova Sintra.
Posto isto, parece-me que descrição do Alf. Vaz Alves é coincidente nos factos e nas datas com os relatos de outros companheiros – Sapadores, Atiradores, Morteiros, Reabastecimentos, Transmissões, Daimlers, etc, estacionados em Tite e que intervieram na Campanha de Nova Sintra.
E para que se relembre tudo o que foi relatado, transcrevemos a seguir aqueles dois artigos.
Abraços para todos
LG.
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Meu Caro Guedes
Faz o favor de ler o artigo que eu escrevi sobre Nova Sintra Vem lá referidas datas de quem é quem. Atenção os movimentos e as respectivas datas foram copiadas de sitrepes. O algodão não engana...
Podes puxar por Nova Sintra – O Pão que o diabo amassou
São 2 artigos ou então republica-los.
Dizer ainda que eu vejo na fotografia o Vaz Alves e não creio Que a fotografia fosse tirada noutra “estância de férias” na Guiné.
Uma coisa te garanto quem não este lá fui eu (e tu também não...) e ainda hoje tenho Pena de quem lá esteve a passar todo aquele horror
Tem um bom dia Pica Sinos

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100 METROS QUADRADOS DE HORROR,
FECHADOS POR ARAME FARPADO
Enfraquecida a acção da guerrilha na zona, resolvidos os problemas das acessibilidades e escolhido o local, agora o objectivo estava virado para a construção do aquartelamento em Nova Sintra.
Na manhã do dia 6 de Maio de 1968 parte de S. João a C. Caç. 1802, com 17 viaturas. Chega ao local para o novo aquartelamento cerca das 15 horas do mesmo dia. Já ali se encontravam as NT, saídas de Tite. Nenhuma destas duas forças militares, nos itinerários então percorridos, teve contacto com o IN.
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Havia a noção geral que a guerrilha jamais aceitaria a construção de um novo aquartelamento numa zona que sempre dominara. Todos tinham a noção que o IN voltaria a reunir forças para retomar a actividade e procurar repor o prestígio que gozava naquela região. Sabíamos do seu grande enfraquecimento, abalado pelas perdas bélicas e humanas, sobretudo desde a sua neutralização em Bissássema. Mas também se sabia que os seus recursos estavam longe de esgotados. Impunha-se começar os trabalhos na instalação do aquartelamento e proporcionar, com o feito, a melhor segurança para a defesa dos objectivos e das NT.
Despejadas as viaturas, os trabalhos iniciaram-se a ritmo acelerado. Isolou-se o perímetro com o arame farpado, construíram-se valas-abrigos, a norte e a nascente, talvez com 2 metros de largo e 5 metros de comprimento e as latrinas. Deu-se começo às fundações para os futuros pavilhões e postos de guarnição para a defesa das posições. Começou-se também a limpar terreno com vistas a abertura da pista de aterragem.
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Conta-me o ex-Furriel  Sapador, Domingos Monteiro, que
as moscas e os mosquitos eram “personagens” deveras e muito incomodativas de dia. Á noite faziam desesperar com as sucessivas picadas, nem mesmo roupa que trazíamos vestida as conseguia travar!
Acrescentando que …
As horas que contava, na escuridão daquela selva, mais pareciam dias.
As chuvas também estiveram presentes, quando, passados 2 dias de medos e incertezas, pela calada da noite, o perímetro de terra e lama onde as NT se aquartelavam, com cerca de 100 m2, é atacado, em força, por cerca de 100 homens, bem armados e municiados mas prontamente repelidos com pesadas baixas!
Pelas manhãs e durante o dia os trabalhos continuavam. Patrulham-se estradas e caminhos, aqui ali rastos de sangue e material bélico ligeiro deixado para trás. A cozinha de campanha enquanto não fez fumo, os alimentos eram das rações de combate, que sempre transportávamos. Na água que bebíamos colocávamos comprimidos para evitar as diarreias e febres. Um dado dia foram distribuídas 2 cervejas a cada militar, até nisto tive azar, porque ainda hoje não gosto desta bebida!
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Por sua vez o Carlos Leite (Reguila) refere
Na sucessão dos dias tudo era igual, o trabalho com as pás e com as picaretas calejava-me as mãos, o medo era constante, mas a disposição para a luta sobreponha-o. O cantarolar da passarada não nos parecia ter o mesmo encanto. No terreno lamacento, alguns sapos, eram “sticados” pela pá ou com a picareta, aqui ali ouvia-se o ladrar de um cão. Pelas noites dentro o sofrimento era maior, o vento ora forte ora brando, fazia-me confundir o “som” da selva. Eram nestes momentos que a falta da família e dos meus amigos mais se sentia. Ouvia as flagelações do IN a outros aquartelamentos e questionava-me – quando será a nossa vez?
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O aquartelamento de Nova Sintra, durante o mês de Maio, foi flagelado 7 vezes, causando 1 morto (a 13/05) e 19 feridos graves que, muitos destes, foram evacuados, nessas mesmas noites, por helicópteros directamente para Bissau. Do lado contrário as mortes confirmadas foram em número de 26 e feridos 31.
A 05/06/68 o aquartelamento de Nova Sinta foi visitado pelo CMDTChefe acompanhado pelo CMDT do Bart.
A 11/07/68 foi inaugurada a iluminação exterior e, a
19/07/68 a pista de aterragem por uma avioneta, um Dornier 27.
A luta, essa, estupidamente tinha que continuar, causando continuadamente mortes e feridos de ambos os lados, estragos e desgraças bem ao gosto daqueles que as fomentam.
Pica Sinos

Nota:As fotos são do museu do Jordão Justo
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Nova Sintra - O pão que o diabo amassou...


Meus amigos O prometido texto sobre Nova Sintra aqui está, escrito em duas partes. O Pica é o seu autor.
Para ele o nosso abraço.

NOVA SINTRA – O PÃO QUE O DIABO AMASSOU

O saudoso Ramiro Neto, destacado na cozinha do nosso Batalhão, dias antes da partida, disse: - …Meu Capitão, eu tenho muito medo, não me deixe ir para N.Sintra, tenho um mau pressentimento… -
…Não sei? Vou falar com o Comandante, logo te digo…respondeu-lhe o Capitão.
…Então meu Capitão já tem resposta para mim?
…Tenho! O Comandante não abre excepções. Vão todos. Ninguém fica para trás…olha que insisti bastante…não consegui demovê-lo!

Aquando da flagelação IN, 7 dias depois de estacionadas as NT em Nova Sintra, o nosso bravo camarada morreu. Morte originada pelo estilhaço do rebentamento de uma granada de morteiro. Pensava ele estar protegido pela tampa da chapa de bidão, que colocou na vala-abrigo construída. O fragmento entrou pelo único buraco que deixou aberto. Foi a 13 de Maio de 1968.
Quem esteve por lá sabe que, na zona operacional do comando do Bart 1914, a tabanca de Tite, que ladeava a sul e a norte o aquartelamento das NT, era (a seguir a Bissássema com dimensão para além do triplo), o maior agregado populacional desta área, seguindo-se os das regiões de Jabadá e Fulacunda.
Também é do conhecimento que esta dispersão populacional, contornada por rios, bolanhas e matas, rica no cultivo orizícola, em pecuária (bovino) e na suinicultura (suínos), possibilitava, ao IN, grande mobilidade no desencadear acções de guerrilha, para flagelação aos nossos aquartelamentos, para controlo demográfico e político-administrativo das populações. Consequentemente, ainda permitia sacar, das populações, farto abastecimento em géneros e roupas (panos), e elevado recrutamento de carregadores. Com vistas a desencadear as já citadas flagelações, com armas pesadas, às nossas posições aquarteladas na região, nomeadamente em Tite, Enxudé, posto avançado e porto fluvial de Tite, Jabadá, Fulacunda, Empada e ainda em S. João, destacamento avançado de Bolama. Assim como na montagem de emboscadas, colocação de minas e armadilhas com vistas a barrar ou mesmo anular o avanço no território das NT. Toda esta magnificência operacional do IN, obrigava, no ponto de vista militar, a implementar um vasto e variado conjunto de operações, que foram em número de 117, até à ocupação do terreno de N. Sintra, visando desobstruir estradas e caminhos há muito emaranhados por denso matagal, possibilitando fácil acesso das NT ao patrulhamento, batidas, emboscadas e outras acções de confronto, com vistas ao enfraquecimento e despejo do IN da região.
Desobstruídas as estradas de terra batida, reparados, reconstruídos ou mesmo construídos os pontões, permitiu utilizar outros meios, até aí impossibilitados, nomeadamente os carros de combate – Daimlers – (jeeps blindados) e de transportes das tropas em viaturas ligeiras e pesadas, concludentemente a uma mais rápida ligação aos aquartelamentos implantados na região, proporcionando eficazes controlos territoriais e populacionais, fixar tropas e materiais de engenharia no terreno, nomeadamente em Nova Sintra, visando a construção de um novo quartel.

Dos nossos opositores, todas estas acções não podiam ficar sem resposta. Detentores do território, organizados, bem armados e municiados, procuravam, energicamente, impedir a progressão das NT, montando, por efeito de nomadização, várias emboscadas, colocando dezenas de minas no terreno e granadas accionadas por fio de tropeçar. Destruíram, por várias vezes, os pontões já implantados, colocavam abatizes armadilhados, obstáculos constituídos por grossos ramos de árvores, fortemente ligados ao solo com as extremidades aguçadas, tudo obviamente com vistas ao impedimento da progressão das NT.

Cumulativamente desencadearam, aos diversos aquartelamentos e posições agrupadas nas regiões afectas (exemplo Bissássema), 47 flagelações, com destaque para Fulacunda e Tite, causando às NT, até ao final de Março de 1968, 8 mortos (2 por afogamento) cerca de meia centena de feridos, alguns de muita gravidade e com necessidade de serem evacuados para o continente, e ainda 3 capturados.


Sabemos que as moedas têm duas faces, as guerras também. Até ao começo da implementação do quartel em Nova Sintra, – Maio de 1968 – nas operações, de diverso tipo, desencadeadas pelas companhias aquarteladas em Tite, Jabada, Fulacunda, Empada, pelo destacamento de S.João e por Companhias de Pára-quedistas (2 vezes), estima-se que foram mortos 128 guerrilheiros, feridos, mais do dobro, presos ou capturados 117, dos quais foram soltos por falta de interesse estratégico/militar 112. Destruído 3 de acampamentos militares, 12 canoas e capturadas várias toneladas de material de guerra, pesado e ligeiro, onde se inclui 1 canhão s/recuo.

(Continua Pica Sinos As fotos são do museu do Justo e do Carlos Leite (Reguila)

Raul Pica Sinos disse ainda...
Estava de serviço no Centro de Cripto, quando foi atacado., uma das vezes, o aquartelamento em Nova Sintra. Nessa noite, o ataque às NT era constante e no quartel em Tite a correria das várias patentes para o Centro de Transmissões foi de modo a chamar a minha atenção e de outros. Apercebi-me que alguém estava agarrado ao microfone do rádio dizendo aos presentes (2 Capitães entre outros) …eles dizem (repetidamente) que façam troar Stª Barbara! Aquele conjunto de oficiais olhava uns para os outros interrogados. Pois não entendiam tal pedido. Nem constava a frase no livro criptado que eram portadores os oficiais, quando em operações e, que um dos Capitães, (vejo ao entrar no Centro de TMS com o ex-furriel Cavaleiro) desfolhava nervosamente. E o operador de rádio continuava a dizer …eles dizem, façam troar Stª Barbara…Façam troar Stºa Barbara.. Quando de rompante o Cavaleiro e em segundos disse: Óh pá que merda (era típica esta expressão do Chevalieir) …o que eles pedem é o fogo de artilharia. Pedem que os obuses funcionem. É isso é isso, É isso, disse um Capitão loirinho que por lá andava e tinha na ideia que era mais bravo que os outros. E assim foi, mas enquanto não souberam das coordenadas para fazer o fogo que era pedido, a nossa malta embrulhava. Ainda hoje não percebo porque é que o oficial em Nova Sintra não foi claro no pedido. Era tão simples dizer …ponha os obuses a funcionar porque estamos a ser atacados. Enfim

Os apontamentos do Marinho que me pede para publicar
Fui diversas vezes em D.O., Dakota e Heli, lançar artigos para o aquartelamento de Nova Sintra, tais como pregos, correio, pão, rações de combate e outros artigos em virtude de não poderem ser reabastecidos ou entregues por via terrestre. Uma das vezes que fui lançar artigos, tinha chovido muito e eu comentei para o piloto furriel Honório, que era um crime lançar os sacos de pão naquele terreno, todo encharcado e enlameado, a resposta do Honório foi…eles têm que se desenrasquem pois não temos outra hipótese. Não sei em que data, mas foi quando o Cap. Vicente estava a substituir o Cmdt da C.Caç 1802, evacuado, a mina levou-lhe uma perna.
O Cap. Vicente, sem passar cavaco a ninguém, partiu de Nova Sintra, com viaturas e parte de um pelotão da Companhia, passando por uma estrada que todos nós tínhamos muito medo, a estrada de IUSSI, ou seja “a mata do Jorge”, todos ficamos admirados, por ele não ter tido qualquer contacto com o In. O CMDT Hélio Felgas ao vê-lo em Tite, ficou em ponto de rebuçado. Deu-lhe uma grande descompostura, dizendo-lhe que ele com a sua leviandade pôs os seus subalternos em perigo, em risco de vida, respondendo o Cap. Vicente…eu sou um oficial da Academia e não um oficial básico…ele considerava que os oficiais que não passavam pela Academia eram básicos. Nesse mesmo dia estava eu a chegar com um carregamento que tinha ido levantar ao Enxudé e, logo que me viu disse-me…Tenho que ver o que vem nas guias. Quando as entreguei, que mal olhou, começou a mandar colocar nas viaturas que trouxera de N.Sintra o que queria, dizendo-lhe eu que tinha caixotes com dobrada.
Essa merda os teus companheiros não a comem. “ A dobrada era liofilizada que depois demolhada os pedaços com 2cm passavam a ter 10cms. Comemos nós em Tite”

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Nova Sintra - pelo Alf. Vaz Alves

Braga, 31 de Julho de 2011-08-08







Amigo Guedes
Um abraço antes de mais e as desculpas por só agora ir ao encontro do que me solicitaste. Já tinha há tempos o “rascunho” feito desta história, mas perdi-lhe o sitio onde o tinha guardado. Ontem, ao passar a vista no blog, envergonhei-me ao ler a tua carta e prometi a mim mesmo que de hoje não passava a história da foto do comandante Spínola.
Não sei se a foto tem alguma data no verso mas ela anda à volta do dia 7 de Junho de 1968.
A minha referencia vai para essa data uma vez que tinha passado um mês sobre o inicio da construção de Nova Sintra.
Nesse dia o comandante Felgas disse-me que no dia seguinte viria a Nova Sintra a Companhia Operacional de Tite e por sua vez a Companhia de Nova Sintra ia a S.João buscar reabastecimentos. Nessa altura a ementa estava limitada a arroz com chouriço  e chouriço com arroz.
A chegada dos helicópteros com a poeira do quartel ainda em construção, encheu-nos a panela de areia e arroz. Ao mastigar é que notávamos a diferença.
O comandante Spínola viu a situação e no dia seguinte enviou alguns helis com frango e outros alimentos.
A situação era um pouco “gágá” em termos de segurança, uma vez que fiquei só no quartel, a fazer a defesa e a segurança aos helicópteros, com alguns cozinheiros e elementos do meu pelotão, num total de cerca de uma dúzia de homens. Isto porque o meu pelotão (Nativos 66) tinha sido reduzido por ferimentos no 1º. ataque ao quartel, em 10 de Maio.
Nesse ataque vi uma série de granadas de morteiro a explodirem nas árvores em frente ao meu abrigo.
Essas que explodiram em cima das árvores, espalhavam os estilhaços e atingiam as pessoas em especial na cabeça. Uma das que não explodiu em cima, veio pela árvore abaixo, atingir o Sapador Neto, que faleceu dali a dois dias.
Algumas dessas granadas, pelo que me disse o rádio telegrafista, que estava com o meu pelotão, andaram por bem perto de mim, com os estilhaços a ficarem marcados na árvore do meu abrigo.
Nesta dia, melhor, a esta hora lembrei-me de Bissássema e até a sombra dos baga-baga, lembravam alguém a rastejar na nossa direcção. Aliás nesse ataque os “turras” chegaram a tropeçar no arame farpado.
Nesse período de Bissássema, eu não estava em Tite, porque fui destacado pelo Quartel General, para fazer exames aos que tivessem 3ª. ou 4ª. classe, como se dizia na altura.
Foi o período negro do Batalhão em que, além de Bissássema com a captura pelo IN do Alf. Rosa e dos Soldados Contino e Capítulo, (da CART 1743) rapazes das transmissões, aconteceram a morte do Alf. Carvalho, do Soldado Victor e do furriel Rato, que trabalhava ao meu lado na sala de operações, em Tite.
da esquerda para a direita: Rato, Vaz Alves e Bagulho

Durante esses quatro meses o Comandante Felgas pressionou o Quartel General de tal maneira que tive de voltar a Tite. Ele argumentava que eu lhe fazia falta, mas o que é certo é que logo a seguir me mandou para Nova Sintra, como que “castigado”, embora eu nada fizesse para sair para os exames. Conheci no entanto vários pontos da Guiné e cheguei a pernoitar em Madina do Boé (o Algarve da Guiné...).
Com estas e com outras já não te falava na foto.
Em primeiro plano estão o Alf. Domingos Sá, um antigo colega meu do Liceu de Braga e que faleceu num dos ataques a Nova Sintra, em finais de 1968.
Logo a seguir aparece o Cap. Vicente que estava a comandar a Companhia Operacional em Nova Sintra, a substituir um Capitão que tinha sido apanhado por uma mina anti-pessoal.
Voltando ao caso da foto, queres saber o porquê da foto com toda a gente em calções e tronco nu? É simples. Era assim que se andava há um  mês, com barba por fazer, vestidos o mais aligeirado possivel. Ninguém avisou da ida do Gen. Spínola e os guarda fatos estavam “fechados”, com as fardas nº. 1.
Aliás, o nosso banho era tomado com uma mangueira não sei de quantos polegadas e um motor a puxar água dum charco. Tenho a impressão que no meu album, que há tempos vos enviei, existe lá uma foto do banho, penso que com o Cap. Vicente, o Alf. Sá e eu.
Sem mais, aí vai mais um abraço e telefona quando receberes este “arrazoado”.
Vaz Alves
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do nosso companheiro Joaquim Caldeira, furriel da CCAÇ 2314, recebemos o seguinte email:

"Caro Leandro Guedes. Boa tarde e que estejas bem.
Como habitualmente fui espreitar o Blog do Bart 1914 e vi que, a foto do cabeçalho refere uma visita  do Gen. Spínola a Nova Sintra e que fala aos combatentes que iniciaram a construção do quartel.
Penso que talvez possa haver aí uma leve falta pois que quem iniciou a construção do quartel de Nove Sintra foi a CCAÇ 2314, depois da aventura de Bissássema e nunca o general, que eu recorde, visitou o terreno. Nem tão pouco o Ten.Cor. Felgas.
Também não me parece que, naquela fotografia esteja alguém da minha companhia.
Isso leva-me a pensar tratar-se de uma visita do Gen. a alguma companhia que deu continuidade à construção do quartel.
Não tenho nada contra o que a fotografia diz nem me importaria não fosse a história carecer de ser bem contada.
Apenas pretendo não restem dúvidas para os nossos vindouros.
 
Com amizade,
Joaquim Caldeira"
joaquimcaldeira@netcabo.pt
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Dadas as consideraçõs do Joaquim Caldeira, vamos contactar o Alf. Vaz Alves e tentar esclarecer algum ponto que seja necessário.
Entretanto, se alguém poder dar uma achega, nomeadamente o pessoal das transmissões ou da sala de operações, seriam bem vindas esses esclarecimentos. Ou também pessoal Sapador ou da  CART 1743.
Um abraço.
LG.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

José dos Santos Correia - CART 2771

Companheiros
Por sugestão do Carlos Marinho e com a devida vénia ao Correio da Manhã e seus jornalistas, transcrevemos a seguir um artigo que veio publicado na revista do ultimo domingo dia 31 de Julho, deste Jornal..
É o relato da passagem por Nova Sintra, do companheiro José dos Santos Correia, da CART 2771.
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A minha guerra

“"Cheguei a pensar que não regressava”

"Fui gravemente ferido. ao meu lado morreu um camarada, foi o dia mais difícil da minha vida, na Guiné, inferno de tiros, mosquitos e calor"

Por:José dos Santos Correia, Guiné (1970-1972)

Cheguei à Guiné-Bissau a 23 de Setembro de 1970 a bordo do navio ‘Uíge’, 1200 homens, ‘Os Duros’, como éramos chamados, a caminho do desconhecido. Éramos aguerridos e valentes, apesar de novos, e tínhamos mesmo de o ser: no meio daquele inferno de tiros, mosquitos e calor, com um copo de água o dia todo. Tínhamos mesmo de ser duros para sobreviver, porque não estávamos preparados para a guerra, mas lá fomos.
Nunca tive medo, a verdade é essa. Lembro-me até do furriel Nelo me dizer: "Ó Correia, não seja tão valente, porque mais vale um cobarde vivo do que um herói morto." Já passaram muitos anos, mas não se pode negar o que se viveu, a guerra é parte da minha, da nossa, história.
A minha companhia esteve em Nova Sintra – era miséria pura. Fiquei fragilizado ao ver aquilo, há coisas que marcam para sempre, mexem mesmo com o coração. Mas o mais difícil da minha jornada na Guiné foi o dia 27 de Junho de 1971. Saímos todos para o mato – ficou só o número mínimo de homens nos aquartelamentos para guardar – e fui gravemente ferido. E depois de grave, é morto. Fui ferido na operação que tinha por nome ‘Sardão Dourado’ – foi logo no primeiro dia da operação, levei um tiro nas costelas. À minha beira, morreu um camarada de Pombal, o Mota, que era muito calmo, muito mais calmo do que eu, não tinha nada de nervos.
Quando fomos atingidos, os colegas das radiotransmissões informaram logo de imediato Bissau, levantaram logo os helicópteros que estavam no aeroporto, estendeu-se logo uma espécie de lençol, no chão vermelho retinto, porque não tinha árvores, numa clareira, só tinha erva ou capim. Passados dez minutos, quando o helicóptero pousou, eu entrei, pelo meu pé, já o Mota foi carregado à mão e no ar. Já a caminho do hospital militar, a enfermeira, civil, disse logo para o piloto aviador, ou só para ela, não sei: "Este já passou."
Foi uma frase muito triste, tão triste como a própria noite. Tanto que eu só pensei: daqui a bocado sou eu. Porque eu punha a mão às costelas e aquilo era punhados de sangue. As palavras mexeram muito comigo. Ela disse a verdade mas eu pensei: pronto, já não vou voltar mais a Portugal. E já era casado quando fui para a guerra, mas ainda não tinha filhos. E menti sempre à minha mulher para não a preocupar, nem lhe disse que tinha sido ferido, dizia sempre que estava tudo bem e ela acabou por não saber.
Quando voltei, já estava recuperado, mas ainda hoje, ao passar sabão naquela zona, dói-me. Ou quando pego numa escada de alumínio para ir apanhar fruta, a escada não pode ir naquele ombro, porque toca naquele sítio. Da Guiné trouxe também um papel que atestava o facto de ter tirado a carta de condução, de ligeiros e pesados, e de louvor, por bom comportamento.
SEIS HOMENS PARA TRÁS
Perdemos muitos homens, alguns dos nossos foram mesmo acidentados por eles próprios. De caminho, nos primeiros 15 dias, foram logo dois embora. A montar e desmontar armas. Ao todo, perdemos seis camaradas. E tínhamos um furriel da Guiné, de origem africana, que pediu ao capitão para ir ao peixe, só que era inexperiente, levou uma granada de guerra, tirou-lhe a cavilha de segurança, deixou-a ficar mais de três segundos na mão e ela rebentou. Ficou irreconhecível. Mas além das memórias tristes, trouxe também comigo memórias de camaradagem. Trouxe da Guiné amigos de corpo e alma, que hoje reencontro nos almoços da companhia. Passamos horas a lembrar o que passou. ""

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Os ultimos dias em Nova Sintra

Meu Caro Raul Sinos
Devido a uma série de circunstâncias só agora me foi possível produzir uma pequena crónica sobre o dia 17 de Julho de 1974. - o dia em que deixámos definitivamente Nova Sintra. Tanto esforço da vossa parte para acabar da maneira como acabou.
Gostava de ter os teus comentários aos factos que descrevo. Afinal eles são parte da história da desgraçada guerra em que nos meteram.
Um abraço amigo do
Fernando Teixeira
2ª C. Art. do B. Art 6520/72
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Para perceber os últimos dias de Nova Sintra como posição do exército português é preciso recuar alguns meses para perceber o contexto em que se deu a entrega do aquartelamento ao PAIGC. Nestas notas, todas as ideias que exporei representam, antes de mais, a maneira como eu vi e vivi os acontecimentos. Provavelmente outros companheiros terão outros pontos de vista. O que vos exporei é aquilo que eu penso volvidos trinta e seis anos após os acontecimentos.
Um ponto que me parece crucial para a análise dos factos é o estado psicológico em que se encontrava a 2ª C.Art do B.Art 6520/72, a última companhia de Nova Sintra. Tudo será mais fácil de compreender quando se perceber que a Companhia que tinha sido mobilizada para uma comissão de 18 meses no CTIG, esteve no teatro de operações durante 26 meses. O resultado da incapacidade de recrutamento suficiente que se vivia já na altura. Eu próprio, um simples aspirante graduado em alferes, a meio da minha comissão em Nova Sintra fui “convidado” para ser graduado em capitão para poder ir comandar uma companhia algures no teatro operacional. A Metrópole já não tinha capacidade para fornecer os capitães necessários ao comando das companhias. Felizmente não me foi difícil evitar tão “benevolente” promoção a oficial de três riscos.
Os vinte seis meses passados neste teatro operacional pela 2ª C.Art do B.Art 6520/72 fizeram mossa em quase todo o pessoal. Felizmente a Companhia era comandada por um capitão-miliciano, em regime de rendição individual, personalidade madura e fortemente compreensível para com o pessoal que tinha à sua responsabilidade. Não fosse a sua postura e os últimos meses em Nova Sintra poder-se-íam ter tornado muito mais complicados para a 2ª C.Art.
O pessoal encontrava-se física e animicamente extremamente depauperado. As operações sucediam-se e muitos dos homens já tinham tal repugnância às rações de combate Mod. E20 que praticamente não lhes tocava. Os fatos de combate há muito tinham ultrapassado o prazo de duração. De tal maneira que quando fomos visitados pelo general governador e mandámos abrir fileiras para a tradicional revista às tropas em parada, o senhor não se coibiu de tecer fortes críticas pois aquilo com que se deparou era um bando de maltrapilhos. Refira-se que, dois dias depois, chegaram fatos de combate novos para toda a companhia. Afinal General é General.
Nunca pretendi perceber nada de guerra pois esse nunca foi o meu objectivo de vida. Limitei-me a saber o mínimo indispensável para trazer sãos e salvos os homens que me estavam confiados, coisa que nem sempre consegui. Contudo, durante a citada visita de pompa e circunstância do senhor general, apercebi-me que havia quem percebesse muito menos de condução de tropas do que eu. O referido senhor, do alto da sua pesporrência, sai-se com este conselho-ordem do mais ridículo que eu já vi: “ – A tropa deve fazer todos os dias pelo menos meia hora de ordem unida para manter a disciplina!”. Sim, mandar fazer ordem unida a homens que dia sim, dia não, faziam uma operação de 24 horas. Pura e simplesmente inacreditável. Afinal não estava a tropa disciplinada? Disciplinadíssima, digo eu! Como é que uma tropa que já tinha ultrapassado largamente o seu período de mobilização ainda ia atrás de mim para o mato, para mais uma operação de combate, quando eu lhe dava a voz de comando “ – Está a andar” se não estivesse disciplinada?
Outro aspecto da nossa tropa que me impressionou desde o dia em que aterrei em Nova Sintra foi o nível de escolaridade dos nossos homens. Dos 162 efectivos da Companhia, dos quais vinte eram quadros, cinquenta eram analfabetos. Sim, um terço da Companhia, não sabia ler, nem escrever, nem contar. Estávamos em 1973 e o pessoal tinha entre 21 e 22 anos de idade. Que me perdoem os mandantes da guerra ávidos de sangue e vitórias quixotescas mas, a partir dessa constatação, um dos meus principais objectivos nestas “férias” tropicais passou a ser o ensino dos mais elementares rudimentos escolares que o pessoal não tinha adquirido enquanto criança. Neste particular, a guerra saldou-se por uma vitória para eles. Os cinquenta fizeram o seu exame da quarta classe depois de muita luta.
Como refiro acima, a permanência naquele teatro operacional causou forte mossa na maior parte do pessoal. Outra coisa não seria de esperar. Para que melhor se perceba este estado não resisto a citar alguns dos casos que mais me impressionaram por demonstrarem bem aonde o estado anímico tinha chegado. Meros exemplos tirados ao acaso.
Um dos nossos companheiros porque queria telefonar à família, um dia resolve fardar-se, fazer a mala e sub-repticiamente sai sozinho do aquartelamento, pelo mato fora, rumo a S.João. Antes de chegar a este destacamento pisou uma mina ficando mutilado. Valeu-lhe um caçador que, pegando nele às costas, conseguiu fazê-lo chegar a S. João donde foi evacuado.
Outro, depois duma quezília sem importância, resolve vingar-se defecando para dentro do poço que abastecia de água a Companhia. Depois de umas centenas de comprimidos de Halazone, esses comprimidos desinfectantes que tão bem conhecemos, deitados para o poço e largos dias a beber água da bolanha, lá se voltou a utilizar a água desta nossa fonte habitual.
Um dos nossos cozinheiros, porque lhe passou uma coisa má pela cabeça, resolve confeccionar o café da manhã (já de si de péssima qualidade) com uma das suas botas dentro do caldeiro.
Outra vez, no meio de uma operação de emboscada nocturna reparo que um grupo de combatentes não tinha mais nada para nos comprometer a todos do que fazer uma fogueira no meio da mata. Queixavam-se de frio no calor tórrido da Guiné.
Por fim, já em Bissau, uns dias antes da Companhia regressar a Portugal, um dos homens do meu próprio grupo de combate, num acto absolutamente tresloucado resolve atirar com duas granadas para dentro de um recinto onde decorria um baile, matando, assim, várias pessoas. Era um homem absolutamente problemático que há muito tempo deveria ter sido evacuado.
Meros relatos ao acaso que, em meu entendimento, dão uma pálida ideia do estado psicológico de muitos dos efectivos.
Foi no meio deste ambiente, em que todos, de uma maneira ou de outra, se entreajudavam que um dia, estando eu na Enfermaria da unidade, a observar uma partida de xadrez entre dois camaradas, oiço qualquer coisa que me pôs todo arrepiado. Havia um rádio sintonizado na Rádio Conakry de onde falava a célebre “Maria Turra”. De repente percebo que a dita “Maria” dá a notícia que tinha ocorrido uma revolução em Portugal e que os principais objectivos dos vencedores era a deposição do governo do Estado Novo e o fim da guerra colonial. Eram oito da noite. Corria o dia 25 de Abril de 1974. Corro ao encontro do comandante da Companhia abraçando-o esfuziantemente. Para nós era o fim daquele inferno em que tantos dos nossos camaradas ficaram estropiados ou morreram.
A seguir vem a angústia da espera pelo noticiário da BBC, essa fonte de verdade que nos ligava ao mundo civilizado. Rodeámos no mais sepulcral silêncio esse enorme receptor Philips preto, multibanda, propriedade do Comandante da Companhia. E, à hora do costume, lá vem a notícia com todos os pormenores do que se havia passado nesse dia em Portugal. As lágrimas correram-me pela cara abaixo tanta era a alegria. Depois o pânico pelo receio de poder ocorrer um contragolpe e tudo poder voltar ao mesmo ou ainda pior. Só quando percebemos a monstruosa demonstração cívica que tinham sido as comemorações do primeiro 1º de Maio, descansámos. Percebemos finalmente que o processo era irreversível. Agora era a angústia por conseguir adivinhar como iria decorrer todo o processo do fim da guerra no terreno.
Todas as noites, qual ritual, rodeávamos o rádio preto para ouvir a BBC relatando a evolução dos acontecimentos no nosso País. Foi com especial atenção que ouvimos a notícia de que o avião do Presidente Léopold Senghor, logo a seguir à tomada de posse do primeiro Governo, tinha transportado Mário Soares, o então novel ministro dos Negócios Estrangeiros, para dar início às conversações de cessar-fogo com o PAIGC. O brilho da luz da Paz ia aumentando.
As conversações andavam para trás e para diante. O pessoal tinha perdido aquela tensão que caracteriza o estado de guerra. Uma situação que poderia permitir uma abertura perigosa da defesa. Lembro-me das conversas que tive nessa altura com o nosso Capitão, conversas, estas em que trocávamos os nossos receios de que, para forçar um acordo de Paz, o PAIGC fizesse um último esforço ofensivo para forçar os acontecimentos. Nunca me senti tão preocupado no mato. Comandava, agora, um grupo de homens que já não eram soldados em combate mas, antes, um grupo de pessoas que, definitivamente, já só tinha o pensamento na Metrópole.
O estado psicológico da tropa tinha feito uma rotação de 180 graus. As negociações, essas, evoluíam.
A certa altura, eu que nunca tinha usado galões no meu fato de combate para não ser reconhecido, recebo instruções para que, sempre que fosse para o mato, passasse a usar os meus galões dourados de alferes. Uma maneira de ser facilmente reconhecido e poder dialogar com as tropas do PAIGC se, por acaso, nos encontrássemos. Afinal as desconfianças ainda eram mútuas o que fez com que nunca houvesse nenhum encontro.
A certa altura vamos tomando conhecimento que se iam finalmente abandonando as posições do Exército Português, das fronteiras para o interior, rumo a Bissau. As notícias vão chegando mas nada em relação a Nova Sintra. Afinal quem olhasse para uma carta militar perceberia que nós constituíamos a defesa Sul imediata da capital e, fatidicamente, seriamos dos últimos. E assim veio a acontecer. Não fomos a última companhia do Batalhão. Por acaso, fomos a primeira. Depois Fulacunda. A seguir Gã Pará e, finalmente, Jabadá. Tite havia de permanecer mais três meses como sede do COP 6.
Um dia chegaram as instruções do modo como deveriam decorrer as formalidades com o PAIGC para lhe fazermos a entrega daquele aquartelamento denominado Nova Sintra.
No dia aprazado deveria um oficial dirigir-se à Primeira Bolanha para se encontrar com os Comissários Políticos que se faziam acompanhar pela respectiva tropa. Depois deste encontro protocolar deveriam dirigir-se ao aquartelamento entrando no arame junto ao 4º Grupo de Combate. Foi escolhido o alferes mais antigo que tinha a particularidade de falar crioulo o que poderia facilitar as coisas. Finalmente, íamos ficar frente a frente com o inimigo. Decorria o dia 16 de Julho de 1974.
Percebemos que o PAIGC ainda desconfiava do Exército Português. Rodearam-se de todos os cuidados e mais algum neste encontro. Dentro do aquartelamento a ansiedade ia aumentando à medida que o tempo ia passando e ninguém aparecia na vereda que ligava a Primeira Bolanha ao arame. Finalmente, surgiram lá ao fundo o nosso oficial encarregue de receber as tropas do PAIGC acompanhado pelos Comissários e, finalmente, a tropa.
Garanto que foi uma visão muito estranha. Afinal eram aqueles os nossos inimigos com quem nos guerreávamos até à uns meses atrás. À entrada do arame fazem-se as apresentações e as continências da praxe em tais ocasiões. Finalmente estava frente a frente com o IN. Nesse momento percebi que não havia ódio nos seus olhos. Percebi que afinal só tínhamos estado em lados opostos de uma mesma guerra.
Depois, dentro do arame veio o convívio entre todos. Aqueles homens que todos pensávamos serem uns seres estranhíssimos eram homens iguais a nós.
Nova Sintra na actualidade
Nessa tarde ainda discuti com o oficial artilheiro do PAIGC o último ataque que ele nos tinha feito. Com uma precisão de se lhe tirar o chapéu, diga-se em abono da verdade. Afinal apanhámos 50 rabos de granadas de canhão sem recuo dentro de um quadrado de 30 x 30 metros. Para nossa sorte, a uns 70 metros do meu grupo de combate. Comparando as nossas cartas militares verificámos que elas tinham diferente precisão. Em matéria de topografia saímos a ganhar com bastante pena dele. Lastimou-se dizendo-me que se tivesse as nossas cartas enfiaria as granadas todas dentro do arame. Uma mera conversa técnica. Uma conversa entre oficiais do mesmo ofício sem qualquer ódio ou rancor.
Depois do jantar acabámos a noite a jogar à sueca com o “inimigo”. Que partidas nos prega a vida. A meio do jogo, eu que detesto jogar às cartas, dei comigo a filosofar. Vista agora à distância, aquela guerra assemelhava-se muito à guerra do Solnado, não fossem os nossos companheiros mortos ou estropiados. De lado a lado, não nos esqueçamos. Sempre pensei no ódio figadal que deveria existir entre os combatentes de ambos os lados. Posto perante o “inimigo” percebi que não havia nenhum ódio ou rancor. Tudo tinha-se desvanecido. Acabei por ficar envergonhado pelos pensamentos que, durante muito tempo, me ocorreram sobre o modo como lidaria com o inimigo se algum dia fosse posto perante algum. Ainda hoje me envergonho, apesar de os compreender esses maus pensamentos.
A confraternização das NT com o IN
Depois da sueca dormi a última noite em Nova Sintra no meu buraco semi-subterrâneo. No dia seguinte, depois da cerimónia solene do arrear da bandeira perante a 2ª Cart. do B.Art. 6520 e a tropa do PAIGC formadas lado a lado, arrancámos para Tite.
Assim terminava a saga de Nova Sintra. Corria o dia 17 de Julho de 1974.
Fernando Teixeira
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Meu bom Amigo e Camarada Fernando Teixeira
Obrigado pelo teu artigo sobre Nova Sintra e não só.
Nesta hora já o li por duas vezes e não deixei de me emocionar.
Vou mandar o teu texto para o Guedes a fim de ser publicado no nosso Blog
São depoimentos iguais aos teus que fazem história
Obrigado Amigo Pica Sinos --------------------------------------------- do Hipólito: .
Ficamos emocionados, certamente. São, efectivamente, relatos destes, pelo seu realismo e simplicidade, que calam bem fundo a quem conheceu e viveu toda a problemática da guerra no sector de Tite. Como diz, e muito bem, o Fernando Teixeira para quê tanto esforço, sangue, suor e lágrimas de todos nós para acabar assim a desgraçada guerra em que nos meteram. Faltará que alguém nos conte, igualmente, a transmissão de poderes em Tite, propriamente dito, para se escrever mais uma página da nossa história. Um abraço e um bem haja, pela sua disponibilidade, ao Fernando Teixeira. Hipólito .