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Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma! (Patoleia Mendes, furriel milº Angola ).

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"Ó gentes do meu Batalhão /

Agora é que eu percebi /

Esta amizade que sinto /

Foi de vós que a recebi…"

(José Justo)

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"NINGUÉM DESCE VIVO DUMA CRUZ!..."

António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente

referindo-se aos ex-combatentes da guerra colonial


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EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

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domingo, 24 de novembro de 2013

Bissássema - Pelo Zé Justo.


 Tite 05 de Abril de 1968................3 da manhã no Centro Cripto pág 5 de 7 Tanto se passou desde a última vez que me dediquei a fazer mais um pouco de simples prosa no meu “Diário”. Muitas novidades, muitos feridos e mortos, muitos costumados pesadelos... Não posso deixar de recordar a madrugada do dia 3 de Fevereiro de 68. Foi o dia fatídico de Bissassema. O dia em que mais ainda me fez sofrer... Já muito vi n’um ano de Guiné já vi a morte algumas vezes marcar presença a poucos metros, mas nunca tive tão apavorado como daquela vez. Volto em pensamento à noite de 2 de Fevereiro... Estava no posto de rádio a jogar o meu pseudo Ping-Pong (bola contra a parede do posto de rádio) que normalmente me retinha por uns momentos ocupado, quando o furriel Cavaleiro entrou bastante excitado ??!! Disse-me. – Justo, está quieto com isso, pois ouvem-se fortes rebentamentos na direcção de Bissassema e é provável que seja ataque à nossa malta de lá. Saí, e de facto comprovei os medonhos rebentamentos, trazidos por vento favorável. Tanta vez tinha-mos ouvido esta “música” que já não era de maneira nenhuma uma novidade, mas dessa vez causaram-me forte impressão, pela enorme quantidade e por ouvirem-se com uma nitidez impressionante, o que não era natural, mesmo com vento favorável, pois Bissassema ficava a mais de 15 kms. Logo o pressentimento de que algo de anormal se passaria, me assaltou, recordo que me senti bastante estranho, facto que me admirou por ser tão forte. Não parecia uma simples flagelação, mas mais um fortíssimo ataque. Uma longa hora durou o pandemónio a que assistimos sem qualquer notícia, ou comunicação via rádio que nos fosse benéfica. O contacto via rádio era praticamente impossível, pois os DH5 só eram ouvidos durante o dia e à noite deixavam completamente de se ouvir. Depois de findos os tramites normais em casos de ataque (tentativa de reforço, comunicação por mensagem Zulu (grau máximo de prioridade via rádio) para Bissau, tentei finalmente dormir. Não consegui com facilidade conciliar o sono, embora me sentisse exausto. Pensei em coisas horrorosas o que contribuiu para mais dificilmente ainda conseguir a tranquilidade mínima para conciliar o sono Hora e meia, tinha durado apenas o meu sono. Acordei com o barulho provocado pela entrada de roldão do alferes Carvalho pelo nosso quarto dentro, n’uma excitação que na altura não compreendi. Falava, ou melhor , gritava ordens, pragas e gesticulava imenso. Poucos minutos bastaram para me aperceber do que se passava. ...Bissassema tinha sido tomada e ocupada pelas tropas do PAIGC, e a s nossas forças retiraram desordenadamente em consequência de numeroso grupo do IN, que tinha atacado com uma força e efectivos enormes. Tinha-mos sido avisados pelo Gomes Furriel de TMS, que tinha ido bem como o Contino Op. Cripto e o Capitulo Rádio-Telefonista, formar a secção de TMS e Cripto no destacamento para contacto com o nosso Batalhão. Dar um exemplo do aspecto do Gomes é dificil. Branco, mortalmente branco, tremendo e mal conseguindo articular as palavras que lhe saiam inaudíveis, conseguiu por alto relatar alguns pormenores do que foi uma das piores derrotas militares sofridas pelas nossas forças. Pelas primeiras impressões, temia-se que tanto o Contino como o Capitulo tivessem caído nas mãos dos “turras”. Mais tarde tivemos a confirmação, quando de manhã começaram a chegar os que tinham conseguido iludir a vigilância dos guerrilheiros e puderam regressar a Tite. Chegaram fugidos ao Enxudé, vindos da vários caminhos, pois poucos conheciam o caminho exacto, tendo também que evitar caminhar em direcção que lhes fosse desfavorável por levar a acampamentos do IN. O que vi quando ao procurar noticias de tudo e todos os camaradas, será uma imagem que nunca mais esquecerei. Rostos que tinha visto sorrir, estavam marcados pelos vincos profundos da dor, do desespero e desanimo. As lágrimas que lhes vi na face, os olhos vermelhos e inchados, cobertos de lama e na maioria descalços e rotos, parecendo figuras de filmes de terror, com forças apenas para agarrarem desesperadamente a G3, a sua própria e única salvação para manter a vida, quando em redor somente a morte. Para mais esses, que vi entrarem à porta de armas do quartel de Tite, na manhã de 3 de Fevereiro de 1968 vão as lágrimas que não derramei, mas que verdadeiramente senti... “3 Fev 68 – Ataque Bissassema Resultado da operação feita na véspera em que fizeram parte CCAÇ 2314; CART 1743, Pelotão Sapadores da CCS e 3 pelotões de milícia nativa.Em consequência do forte ataque o IN ocupou Bissassema, caindo prisioneiros o Contino, Capitulo e Alferes Rosa. Na retirada desapareceram o Furriel Cardoso e um Sargento da milícia de Tite. Mais tarde o Sargento foi encontrado morto no Rio Geba. O cadáver foi recuperado sendo impossível o mesmo no que respeita ao Furriel Sousa do Pelotão de Morteiros. Foram ouvidos na rádio Konacry (rádio oficial e de propaganda do PAIGC, situada na República da Guiné) o Contino, bem como o Alferes Rosa e o Capitulo. Em vários ataques posteriores à reocupação de Bissassema pelas nossas tropas, foram mortos 22 guerrilheiros e apanhado diverso material de guerra. Um ferido IN veio para Tite, tendo morrido dias depois em virtude dos ferimentos”.

 Zé Justo fotos Google
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Nota: Estes textos foram publicados alternados por vários dias. Para ver o Diário completo, abrir em Etiquetas “TITE - Diário” e começar a leitura pelo último Post e não pelo primeiro devido à sequência decrescente de datas e numeração.

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