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Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma! (Patoleia Mendes ).

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"Ó gentes do meu Batalhão /

Agora é que eu percebi /

Esta amizade que sinto /

Foi de vós que a recebi…"

(José Justo)

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"NINGUÉM DESCE VIVO DUMA CRUZ!..."

António Lobo Antunes, ex-combatente

referindo-se aos ex-combatentes da guerra colonial


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EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

FOI NA TERÇA-FEIRA 26 DE DEZEMBRO DE 1967, NO DIA POSTERIOR AO DIA DE NATAL

    De tempo a tempos, o meu espírito consola-se por contar histórias de situações passadas há muitos anos. Também por outras, de tempos mais recentes, mas não sabendo explicar o porquê de não conseguir “sentir”, o mesmo fascinio, comparativamente às mais antigas, ao descrevê-las.
    Esta história já a escrevi há uns anos, reduzida e enquadrada com outras realidades, entendi agora rescrevê-la com mais pormenor.
Passou-se numa terça-feira do ano de 1967, no dia posterior ao dia de Natal e, a muitos milhares de quilómetros, num local onde imperava, a tristeza, a fome, o sofrimento, a saudade da família e dos amigos.
    Nessa terra, o seu povo, com seus usos e costumes, o cheiro da terra que era (é) vermelha, a fauna, a flora, o amanhecer acompanhado com o chilrear da passarada, o entardecer, a cor do sol quando se preparava para “dormir”, também eram realidades que contrastavam com as outras descritas, nunca, enquanto me conhecer, também as esquecerei.
    Era o dia 26 de Dezembro de 1967, uma terça-feira, dia posterior ao dia de Natal. Depois da noite de serviço, em trabalho da especialidade (transmissões criptadas), e para descomprimir, o Natal passara-o sozinho, após o jantar de confraternização com um grupo de camaradas, resolvo “falar com os meus botões” em passeio matinal até à fonte, onde as bajudas (jovens adolescentes) se costumavam abastecer de água potável e, tomarem banho, sendo possível ao raiar do dia, ver reluzir o sol na água que caía nos seus bonitos corpos e torneados seios desnudados.
    Antes deste local, num espaço pejado de enormes árvores centenárias, encontrava-se o edifício da autoridade administrativa. Para este edifício nunca me despertou a vontade em visitá-lo. Olhei-o sempre de longe. Aliás as instruções eram “o que se passa com os civis e respectiva autoridade administrativa só aos mesmos diz respeito”.
    Nele situava-se o “gabinete” do Chefe do Posto. Homem de estrutura meã, magro e feio, onde a sua cor da pele se confundia com a cor dos brancos. Na região, era o responsável civil pela aplicação das leis e normas vigentes. Também “juiz” e executante das penas que determinava. Um fachista da pior espécie.
    Ainda hoje me interrogo, tendo em conta o “desempenho”, deste funcionário, na brutalidade dos castigos que ministrava à população nativa, no porquê dos ataques que o inimigo (PAIGC) infligiu na “minha estância de férias”, e, não foram poucos, nunca se ter observado flagelamentos contra aquele posto administrativo.
    Nesse dia, 26 de Dezembro de 1967, dia posterior ao dia de Natal, por este senhor, Chefe do Posto, vejo infligir num idoso, habitante numa tabanca por perto, um número considerável de reguadas sem descanso, que só parou quando me aproximei daquele facínora, olhando-o com postura de escandalizado e reprovador, afastando-se quiçá saciado, sem arrependimento e, sem qualquer sentimento pelas filhas e mulher que as obrigou na presença e, que constantemente choravam a sorte do seu ente querido.
    As mãos deste idoso, no final da tortura, ficaram tão inchadas que, o resultado era comparado ao sopro infligido numa luva de borracha.
    Nunca soube a razão que motivou tão desmesurada violência.
    Foi a 26 de Dezembro de 1967, numa terça-feira, no dia posterior ao dia de Natal.

Raul Pica Sinos

3 comentários:

leandro guedes disse...

Não me lembro deste casso concreto, mas lembro-me sim que este Administrador tinha como que a vida das pessoas nas mãos.
E lembro também que ele era antipático, cabo verdiano e como tal não muito bem visto pelos locais. Como aconteceu e acontece presentemente.
Lembro ainda que ele tinha uma filha jovem que fazia as delicias da oficialada, que por tal motivo convidavam pai e filha para alguns jantares na mésse.
LG.

Albertina Granja disse...

A cena de violência aqui descrita neste texto, é na verdade reveladora da existência, naquela época, de tremenda brutalidade..., mas ao lê-la não pude deixar, de imediato, de a associar aos tempos da "escola primária", em que se passava rigorosamente a mesma coisa...
Todos com certeza se lembram, sobretudo quem frequentou a escola primária nas décadas de 50/60, que as ditas "réguadas" eram o pão nosso de cada dia...
Na minha escola, por exemplo,além de apanhar réguadas quem porventura ousasse ter um comportamento menos correcto, também não se escapavam delas aqueles que tivessem erros nos "ditados", já que o lema era: cada erro uma réguada.... e havia quem levasse às dúzias....
Era de facto muito duro de se ver e interrogo-me como é que criaturas (ainda crianças)aguentavam tamanha brutalidade.....!!!!!
Mas enfim...., são tempos que já lá vão.....

Pica Sinos disse...

Srª D. Albertina
Tem razão quanto à violencia que nós em crianças fomos sugeitos. Mas deixe que lhe diga.... mais violento que as reguadas que vi aplicar ao anciâo, que me pareceu ser de idade já muito avançada e, que as suas mãos sangravam de inchadas por tal a brutalidade, foi a presença da mulher e 2 filhas que foram obrigadas a ver espancar o marido e pai.
O acto provocou em mim tal indignação que hoje ainda não esqueço, ao contrário das váriadissimas vezes que apanhei com a regua na escola primária.
Obrigado por ter comentado. Tenha uma ano 2012 cheio de felicidade