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Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma! (Patoleia Mendes, furriel milº Angola ).

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"Ó gentes do meu Batalhão /

Agora é que eu percebi /

Esta amizade que sinto /

Foi de vós que a recebi…"

(José Justo)

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"NINGUÉM DESCE VIVO DUMA CRUZ!..."

António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente

referindo-se aos ex-combatentes da guerra colonial


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EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Solidão


Pela mão do José Justo, chegou-nos um excelente artigo sobre a infancia e a velhice, publicado no Expresso online.
Por qualquer razão técnica não o conseguimos publicar.
Com a devida vénia ao Expresso e ao seu jornalista Pedro Neves, sugerimos a todos a leitura deste artigo e a consulta dos videos que lhe estão juntos.
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Quando abrir o site, deixe estabilizar até aos 100% e depois pode navegar.
Mas o texto na totalidade é o seguinte:

“Solidão
“Se uma pessoa sentir quando está morrendo que,
embora ainda viva, deixou de ter significado para os outros,
essa pessoa está verdadeiramente só”
Norbert Elias
Há pouco mais de dois anos filmei o Sr. Arménio. Vivia num quarto de pensão, em frente à estação de Campanhã, no Porto. Vivia só. Vivia uma vida de rotinas que deixavam passar o tempo. Vivia uma vida em que um dia se seguia ao outro. Pouco mais. O Sr. Arménio esperava, lentamente, que o seu tempo terminasse. Temia mais a vida que a própria morte. Temia a angústia, o isolamento, o abandono, o desprezo. O Sr. Arménio sentia saudades. Sentia saudades todos os dias. Não aguentava a memória de dias felizes, dos dias em que uma mão lhe afagou o cabelo, em que a mãe o pegou ao colo, em que o pai lhe deu um beijo. Já tinham passado tantos anos desde que tinham morrido. Mas eram uma recordação bem viva na sua cabeça. O Sr. Arménio tinha uma vida de memórias passadas, desprovida de vida no presente. O Sr. Arménio não conseguia vislumbrar o futuro. As quatro paredes, onde cabia uma cama, um pequeno armário e um lavatório, esmagavam-no, faziam-no escutar o silêncio dos dias, o ruído da solidão que lhe invadia a cabeça. Pedia à Nossa Senhora que o levasse, que lhe tirasse as dores físicas da idade. Contudo, o que mais pedia era que o ajudassem a sair da solidão, do isolamento a que tinha sido vetado pelos amigos que já não tinha, pela família que perdera. Todos os dias pedia a morte.
Trabalhou muito, dizia. Cavou terra, ajudou a natureza crescer. Dizia que quando um indivíduo morre não leva nada com ele que não o seu próprio corpo. O resto fica, permanece. Ou desaparece, por vezes sem deixar rasto.
Foi quando pensei que queria entender porque se teme mais a solidão que a própria morte. Como vive alguém que já teve alguém, que já não tem, que já não tem ninguém. Como vive com os seus pensamentos e como convive com as memórias de uma vida passada.
Estes pensamentos fizeram-me reflectir no meu próprio futuro. Todos caminhamos para a velhice, não há como fugir ou ignorar.
Tenho a sorte de, aos 34 anos, ainda ter dois avós vivos e com saúde. Vivem os dois, casados há 65 anos. Têm-se um ao outro. Têm também o resto da família com eles. É difícil querer-se mais. Não consigo suportar a ideia de que um dia um deles vai ficar só, vai ter de reorganizar o resto da sua vida de um modo para o qual não está preparado. Não fomos feitos para viver sós.
Durante mais de dois meses, procurei pessoas que vivessem sós e que estivessem dispostos a contar as suas histórias.
Alguns acharam que não tinham nada para contar. Mas têm. Têm sempre. Muitas vezes não têm é quem os queira ouvir, aprender com eles e com as suas experiências, ouvir os seus medos e anseios.
Andei pelo interior e pelo litoral, pelo campo e pela cidade. São duas realidades diferentes, modo de estar distintos. Mas a solidão está lá. Só o modo como se encara é diferente. Passa a fazer parte da vida. Umas vezes aceita-se melhor, outras vezes pior.
Percebi que os que a aceitavam melhor eram os que, de alguma forma, tinham apoio. Eram aqueles que recebiam visita da família ou dos vizinhos, do lar ou da segurança social. No fundo, eram aqueles que tinham com quem falar, nem que fosse por alguns minutos, que sabiam que não iriam passar oito anos mortos no chão da sala ou da cozinha, pois alguém haveria de os encontrar. Ninguém quer ser deixado ao abandono. Nem depois de morto.
A série documental que vai ser publicada nas próximas semanas tem como objectivo fazer-nos reflectir, pensar sobre o tipo de sociedade em que vivemos, para onde caminha o mundo que estamos a construir. Pensar se respeitamos suficientemente os nossos idosos, se os fazemos sentirem-se úteis, se queremos aprender com eles o que não podemos aprender com mais ninguém e em mais lado nenhum. Um dia, também eles foram jovens. Um dia, também nós seremos velhos.
Um país que não respeita as suas crianças ou os seus idosos é um país que não tem respeito por si próprio. E que não merece respeito.
Pedro Neves"

3 comentários:

Albertina Granja disse...

Tentei ler o artigo através do link indicado ,mas não se consegue abrir, nem mesmo os videos que, na verdade, são dignos de serem vistos....
No entanto, consultando, na net o Jornal expresso, encontrei este artigo de Paulo Neves, que a seguir transcrevo e que julgo ser este o artigo a que aqui se alude:

"A solidão é um dos maiores flagelos das sociedades modernas. Afecta novos e velhos de todas as classes sociais, embora, como sempre e em tudo, sejam as mais baixas quem mais sofre com o isolamento.
E porquê? Simplesmente por muitas vezes não terem sequer dinheiro para um bilhete de autocarro, para uma cadeira de rodas, para uma assistência social digna. O mundo atual preocupa-se mais com o capital do que com as pessoas. Vivemos num mundo em que os governos injetam milhões na banca mas esquecem os mais desprotegidos.
Esta série documental de vídeos tem como objectivo fazer-nos refletir, pensar sobre o tipo de sociedade em que vivemos, para onde caminha o mundo que estamos a construir. Pensar se respeitamos suficientemente os nossos idosos, se os fazemos sentirem-se úteis, se queremos aprender com eles o que não podemos aprender com mais ninguém e em mais lado nenhum.
Um dia, também eles foram jovens. Um dia, também nós seremos velhos."

Pedro Neves
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É na vedade um belo tema sobre o qual todos nós devemos reflectir....

Já agora e porque em relação ao referido artigo já existem na net vários comentários, tomo a liberdade de aqui transcrever um deles, que acho particularmente interessante e que, em poucas palavras, demonstra com muita clareza esta triste realidade:

"Na verdade em Portugal os jovens de hoje ligam pouco aos "velhos" , sejam familiares ou conhecidos , e no entanto esses jovens caminham para a velhice , é o curso normal da vida , toca a todos os que conseguem chegar lá . Não sei como se perderam estes valores ao longo do tempo em Portugal , a verdade é que nos nossos dias os filhos quando os pais estão velhos e cansados , e precisam de alguma assistência no dia a dia , são despejados pelos filhos nos "asilos" lares de 3ª idade , e pronto , lavam daí as sua mãos como Pôncio Pilatos fez com Jesus Cristo , só que os pais não precisam só de cuidados , também precisam de amor e carinho , esse bem precioso que os pais dão aos filhos que amam . Já entrei nalguns desses lares , e verifiquei que não faltam cuidados de higiene e saúde, mas falta um bem precioso chamado Amor."

VALE MESMO A PENA PENSARMOS BEM NESTE ASSUNTO...........

José Justo disse...

Guedes clikei no endereço a azul, e tudo bem, abre os vários videos na perfeição.
Por vezes a coisa complica-se !!!!
Um queijo

leandro guedes disse...

À Albertina e ao Justo, os nossos agradecimentos pelos seus esforços para que este artigo fosse publicado.
Na verdade vale a pena ler os comentários.
Muito obrigado.