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Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma! (Patoleia Mendes ).

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"Ó gentes do meu Batalhão /

Agora é que eu percebi /

Esta amizade que sinto /

Foi de vós que a recebi…"

(José Justo)


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EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

José dos Santos Correia - CART 2771

Companheiros
Por sugestão do Carlos Marinho e com a devida vénia ao Correio da Manhã e seus jornalistas, transcrevemos a seguir um artigo que veio publicado na revista do ultimo domingo dia 31 de Julho, deste Jornal..
É o relato da passagem por Nova Sintra, do companheiro José dos Santos Correia, da CART 2771.
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A minha guerra

“"Cheguei a pensar que não regressava”

"Fui gravemente ferido. ao meu lado morreu um camarada, foi o dia mais difícil da minha vida, na Guiné, inferno de tiros, mosquitos e calor"

Por:José dos Santos Correia, Guiné (1970-1972)

Cheguei à Guiné-Bissau a 23 de Setembro de 1970 a bordo do navio ‘Uíge’, 1200 homens, ‘Os Duros’, como éramos chamados, a caminho do desconhecido. Éramos aguerridos e valentes, apesar de novos, e tínhamos mesmo de o ser: no meio daquele inferno de tiros, mosquitos e calor, com um copo de água o dia todo. Tínhamos mesmo de ser duros para sobreviver, porque não estávamos preparados para a guerra, mas lá fomos.
Nunca tive medo, a verdade é essa. Lembro-me até do furriel Nelo me dizer: "Ó Correia, não seja tão valente, porque mais vale um cobarde vivo do que um herói morto." Já passaram muitos anos, mas não se pode negar o que se viveu, a guerra é parte da minha, da nossa, história.
A minha companhia esteve em Nova Sintra – era miséria pura. Fiquei fragilizado ao ver aquilo, há coisas que marcam para sempre, mexem mesmo com o coração. Mas o mais difícil da minha jornada na Guiné foi o dia 27 de Junho de 1971. Saímos todos para o mato – ficou só o número mínimo de homens nos aquartelamentos para guardar – e fui gravemente ferido. E depois de grave, é morto. Fui ferido na operação que tinha por nome ‘Sardão Dourado’ – foi logo no primeiro dia da operação, levei um tiro nas costelas. À minha beira, morreu um camarada de Pombal, o Mota, que era muito calmo, muito mais calmo do que eu, não tinha nada de nervos.
Quando fomos atingidos, os colegas das radiotransmissões informaram logo de imediato Bissau, levantaram logo os helicópteros que estavam no aeroporto, estendeu-se logo uma espécie de lençol, no chão vermelho retinto, porque não tinha árvores, numa clareira, só tinha erva ou capim. Passados dez minutos, quando o helicóptero pousou, eu entrei, pelo meu pé, já o Mota foi carregado à mão e no ar. Já a caminho do hospital militar, a enfermeira, civil, disse logo para o piloto aviador, ou só para ela, não sei: "Este já passou."
Foi uma frase muito triste, tão triste como a própria noite. Tanto que eu só pensei: daqui a bocado sou eu. Porque eu punha a mão às costelas e aquilo era punhados de sangue. As palavras mexeram muito comigo. Ela disse a verdade mas eu pensei: pronto, já não vou voltar mais a Portugal. E já era casado quando fui para a guerra, mas ainda não tinha filhos. E menti sempre à minha mulher para não a preocupar, nem lhe disse que tinha sido ferido, dizia sempre que estava tudo bem e ela acabou por não saber.
Quando voltei, já estava recuperado, mas ainda hoje, ao passar sabão naquela zona, dói-me. Ou quando pego numa escada de alumínio para ir apanhar fruta, a escada não pode ir naquele ombro, porque toca naquele sítio. Da Guiné trouxe também um papel que atestava o facto de ter tirado a carta de condução, de ligeiros e pesados, e de louvor, por bom comportamento.
SEIS HOMENS PARA TRÁS
Perdemos muitos homens, alguns dos nossos foram mesmo acidentados por eles próprios. De caminho, nos primeiros 15 dias, foram logo dois embora. A montar e desmontar armas. Ao todo, perdemos seis camaradas. E tínhamos um furriel da Guiné, de origem africana, que pediu ao capitão para ir ao peixe, só que era inexperiente, levou uma granada de guerra, tirou-lhe a cavilha de segurança, deixou-a ficar mais de três segundos na mão e ela rebentou. Ficou irreconhecível. Mas além das memórias tristes, trouxe também comigo memórias de camaradagem. Trouxe da Guiné amigos de corpo e alma, que hoje reencontro nos almoços da companhia. Passamos horas a lembrar o que passou. ""

1 comentário:

Matos disse...

Olá. O meu pai chama-se Joaquim Mário Matos Vieira (Torres Novas) e integrou o CART 2771 - Batalhão 2924. Terá estado na Guiné entre 70 e 72. Estou a ler este blog e lembro-me de ele falar muitas vezes nos "Duros". Há por aqui algum camarada de guerra que o conheça? Cumprimentos.
Nuno Matos - nnmatos@gmail.com