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Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma! (Patoleia Mendes, furriel milº Angola ).

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"Ó gentes do meu Batalhão /

Agora é que eu percebi /

Esta amizade que sinto /

Foi de vós que a recebi…"

(José Justo)

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"NINGUÉM DESCE VIVO DUMA CRUZ!..."

António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente

referindo-se aos ex-combatentes da guerra colonial


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EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

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terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Enfermaria em Tite - pelo Justo

A Enfermaria de Tite

O Guedes sugeriu, e eu lá vou puxar pelas semeas, a ver se sai prosa...

Eu da enfermaria de Tite francamente só me lembro de um “cubículo” muito pequeno que ficava perto da porta de armas!!!

Já li no Blog a descrição de um edifício fora do quartel, e embora me lembre do dito cujo nunca imaginei, nem disso me lembro, de ser uma enfermaria??!!

Referindo portanto a “enfermaria cubículo” recordo, para já, três tristes episódios a que ligo aquele espaço:

O do nosso camarada que durante a penosa construção da estrada de Nova Sintra, pisou uma mina antipessoal, ficando com ambas as pernas decepadas.
Quando entrei na enfermaria quase desmaiei com aquele quadro, qual inferno de Dante. Os gemidos daquele companheiro...e ao olhar para o sitio onde deveriam estar as suas pernas, só vislumbrava um monte de terra, capim e sangue, que o enfermeiro ajudado por outros camaradas, tentavam desesperadamente, por todos os meios, aliviar o infeliz.

Relatado, já no quartel por um dos elementos da brigada de obras, o que se passou foi que em marcha, de súbito terem ouvido um rebentamento. Como habitualmente o pessoal deitou-se nas bermas e posicionou para responder ao fogo de uma possível emboscada.
Como o rebentamento foi ouvido em Tite, do posto de radio contactamos o pelotão, sendo a resposta, que se tinha verificado um forte rebentamento, mas nada mais se seguiu, sendo levados a pensar que algum animal, no mato, tinha detonado uma mina.
Pouco tempo passado, comunicaram para o quartel que havia um ferido gravíssimo, e que com a explosão da mina o corpo tinha sido projectado para fora da picada, sendo os gemidos que alertaram o pessoal.

Outro quadro triste, foi o daquele camarada da companhia 2314, que durante um ataque, foi atingido por um estilhaço de granada, que lhe penetrou o anus, e que no dia seguinte de manha vimos as suas pegadas de sangue e matéria corporal, marcadas em grande parte do percurso ate a enfermaria.

Este companheiro, tinha poucos dias de Guine, e disseram-me que devia estar de reforço num dos postos avançados no exterior do primeiro arame farpado. Já em fuga procurando o abrigo mais próximo, foi surpreendido por um rebentamento nas suas costas, que por fatal destino o atingiu tão severamente. Cruel destino...

O estilhaço de granada torna-se uma arma altamente mortífera. A alta velocidade a que se desloca fruto do rebentamento e o facto de ir quase ao rubro, como metal fundido, tem um poder de penetração e destruição no corpo humano medonha.

Outro caso, mas este embora parecendo que acabaria tristemente, assim não aconteceu:
O pessoal da “picagem” de estrada (para detectar minas anticarro e antipessoais) no caminho para o Enxude, por vezes tentava caçar umas rolas, que eram sempre bem recebidas para mais um petisco entre amigos, pois da comida do rancho geral, nem vale a pena tecer comentários.

Acontece que um companheiro com o entusiasmo de matar um passaroco, ia disparando, disparando, disparando...e sem se aperceber, a linha de fogo foi baixando, ate que...deu um tiro na cabeça de uma nativa de uma das tabancas que ficavam no percurso, e de que não recordo o nome.
Já na enfermaria, foi pedido helicóptero para evacuação da “mulher grande” (nativa adulta) para Bissau, o que aconteceu.
Claro que todo pessoal pensou que seria mais uma vitima das circunstancias!!!...surpresa??!!...passaram-se poucos meses e para espanto de todos, a nossa mulher grande apareceu em Tite com duas “nhecas” (galinhas), para oferecer, não lembro a quem, acho que ao enfermeiro do batalhão que por sinal andava sempre pendurado nas tabancas, e que convencia as nativas a tomar comprimidos LM* para “não lhes secar o leite”!!!!
(Nalgumas raças da Guine, a mulher após ter um filho, não tem relações conjugais durante dois anos, pois acreditam que o leite secara e não podem alimentar os filhos).
Por aqui me fico. Talvez venha a recordar mais algum episódio, que trarei a estampa.

*LM - Comprimido “tipo aspirina” fabricado no Laboratório Militar, que dava para tratar todas as maleitas dos militares!!!!

José Justo

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