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Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma! (Patoleia Mendes, furriel milº Angola ).

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"Ó gentes do meu Batalhão /

Agora é que eu percebi /

Esta amizade que sinto /

Foi de vós que a recebi…"

(José Justo)

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"NINGUÉM DESCE VIVO DUMA CRUZ!..."

António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente

referindo-se aos ex-combatentes da guerra colonial


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EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Quando o Pica Sinos assentou praça...




AS REFEIÇÕES ESTAVAM A “MILHAS” DAS COZINHADAS PELA MINHA QUERIDA MÃE

Para fugir à guerra, quando aos 18 anos de idade, dou obrigatoriamente o nome para o serviço militar, confesso que me passou pela cabeça desertar para um qualquer país da Europa a exemplo do que fizeram muitos jovens do meu círculo de amizades. Não tive essa coragem, entrando nas fileiras, como recruta, a 2 de Maio de 1966, na Serra da Carregueira (Sintra).
Aqui, desde inicio a disciplina imposta era muito rígida. Não havia facilidades para ninguém. As marchas de quilómetros, o rebolar pelas silvas e por terrenos acidentados propositadamente escolhidos, à minha pessoa não afectou grandemente. A prática, durante cerca de um ano das modalidades desportivas – luta greco-romana – no Ginásio Clube Português e mais tarde – no raby – no Sport Lisboa e Benfica, permitiu-me enfrentar sem grandes dificuldades a “radicalidade” da instrução militar. Os ombros, esses sim, tinham que suportar as dores originadas pelo “coice” ocasionado pelo disparo da espingarda mauser. As refeições estavam a milhas dos cozinhadas da minha querida mãe, nada tinham a haver com os bifinhos de cavalo com ovo e batatas fritas que a Georgina me presenteava muitos dos dias da semana. Também me incomodava seriamente acordar de madrugada, quando menos previa, para o exercício militar, desajustado à guerra de guerrilha praticada em África.
Concluída a recruta, passei para um regimento na cidade de Leiria. Tirei a especialidade de escriturário. Para fazer face às viagens nos fins-de-semana a Lisboa, era organizador de excursões cujo lucro era apenas o do custo da viagem na vinda e volta. De regresso ao quartel não faltava o avio da Georgina. Um naco de queijo, chouriço e umas latas com sardinhas, atum em azeite ou com pasta de carne, para servir de reforço às más refeições que o exercito também ali serviam.
Quando em 16 de Setembro do mesmo ano, já inaugurada a Ponte que liga Lisboa a Almada (Ponte Salazar, mais tarde 25 de Abril) sou colocado no Batalhão de Transmissões na Trafaria para tirar a especialidade de Cripto (especialidade esta que ainda hoje consiste na aplicação das técnicas que visam a transformação da escrita legível para ilegível, manual ou em termos mecânicos), as coisas aqui começaram a ser ligeiramente melhores. Também podia, com mais frequência, ver a “miúda” e os meus amigos, na medida em que só ficava no quartel quando de (faxina) serviço.
Dado com pronto e colocado no Quartel-general (QG), em Lisboa, em de Março de 1967, entre três cabos e dois sargentos, das muitas mensagens decifradas, quis o destino que fosse eu a decifrar aquelas que ditavam: a minha mobilização para a Guiné, a morte de dois soldados na Serra da Carregueira, por acidente de arma de fogo, no estágio das manobras do aperfeiçoamento militar, da Companhia de Comandos e Serviços que mais tarde viria a integrar o Bart 1914.

A 8 de Abril desse mesmo ano, no cais de Alcântara em Lisboa, despeço-me da família que me acompanhou ao embarque no paquete Uíge, que ao som da fanfarra militar e do acenar dos lenços, largou amarras e encetou a sua “marcha”, com destino à Guiné Bissau. A guerra essa “era já ali!”

Pica Sinos

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