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Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma! (Patoleia Mendes ).

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"Ó gentes do meu Batalhão /

Agora é que eu percebi /

Esta amizade que sinto /

Foi de vós que a recebi…"

(José Justo)


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EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART
EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

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terça-feira, 4 de março de 2008

O Centro cripto e os seus acólitos ...

Foto do cais do Enxudé, porto fluvial por onde eram feitos os principais reabastecimentos a Tite. Estes reabastecimentos também eram feitos em pequena escala, através da aviação (avionetas Dornier´s e aviões bimotores Dakotas), porque Tite tinha um pequeno aerodromo de terra batida. O correio (aerogramas e não só) era normalmente recebido por via aérea, e constituia o mais desejado e festejado acontecimento em Tite.

(I)
Bissau, 14 de Abril de 1967. Oito dias depois do embarque no Uige em Lisboa! Á nossa esquerda a cidade. Desembarca, em último lugar, a Companhia de Comandos e Serviços do BART 1914, não sabendo a maior parte dos jovens soldados o seu destino. Chegamos ao Enxudé, já noite, porto de mar (só mais tarde soubemos nome), situado a cerca de 8/10 quilómetros do quartel onde a Companhia ficaria sitiada. Um conjunto de veículos de grande e médio porte depressa foram carregados de “periquitos” com sua bagagem. A grande velocidade, o rumo foi Tite. Ou seja, a localidade que em Janeiro de 1963, tiveram inicio as acções de guerrilha do PAIGC na Guiné.

(II)
Á minha e espera e do Justo, o Sopinha! Quem são os Criptos? Quem são? Sorridente abraçou-nos e acalmou-nos. Um “velho” comparativamente à nossa juventude, só tinha mais dois anos.
Não nos deixou mais, o Sopinha, acompanhou-nos à nossa camarata, apresentou-nos a outros camaradas das transmissões e fomos ao bar beber um copo. No dia seguinte, já no Centro de Cripto, em reunião de trabalho, fez o ponto da situação da operacionalidade do centro, dos problemas vividos, e mais tarde, ajudou-nos na montagem do quarto, onde dormimos, chorámos e sonhámos até à hora da partida.
Creio, em Setembro desse mesmo ano, a Companhia Operacional onde o Sopinha estava integrado, regressou Lisboa. Sendo substituída por uma outra a Companhia de Caçadores a….1549, incorporando outro Operador de Cripto, o camarada Contínuo‚.
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 Tivemos a oportunidade e a honra de assistirmos em Tite, no mês de Julho de 1967, ao seu casamento por procuração, No dia do casamento, fizemos uma boda, participando também o Furriel Cavaleiro e o Alferes Carvalho. A sua esposa infelizmente morreu no passado ano de 2006.
O Sopinha já está reformado, trabalhou durante largos anos na Associação empresarial, a Groquifar.
‚ Ao Continuo aconteceu, segundo a CHERET, algo que jamais devia acontecer a um Operador de Cripto. Foi capturado juntamente com o Capitulo e o Rosa, pelo PAIGC, no mês de Fevereiro de 1968, numa operação desencadeada em Bissassema. Foi levado para a Guiné Conacry, onde esteve prisioneiro até as tropas portuguesas o libertarem. Muito se especulou e se tem especulado sobre este acontecimento. Nunca ouvi a versão na figura principal.
O Contínuo, sempre morou e mora para os lados de Carcavelos, a sua esposa Luísa foi, durante muitos anos, minha colega nos Supermercados Pão de Açúcar. Em conversa telefónica, prometeu-me, quando eu proporcionar um almoço ou jantar entre os cinco (Cavaleiro, Continuo, Justo. Pica e Sopinha) poderá eventualmente contar umas coisas. Até lá, tenham boa saúde, disse!

(III)
O Centro de Cripto em Tite estava situado no edifício das transmissões. Em sua frente, o Mural da homenagem aos mortos em combate, o Hastear de Bandeiraƒ e a Porta de Armas.
Os Operadores de Cripto que nele trabalharam era, foram durante algum tempo em numero de três, tinham como função a aplicação das técnicas da transformação da escrita para ilegível, manual ou em termos mecânicos, definindo o grau de segurança e prioridade, de modo a ser apenas legível, por um outro camarada da especialidade onde quer que se encontrasse.
Na hierarquia de comando, um Furriel„ e um Alferes… que acumulavam a chefia com as restantes áreas das transmissões.
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ƒ O hastear da Bandeira (em frente à janela do nosso quarto) era feito pelas oito da manhã acompanhado por cornetim, mas….tinha dois inconvenientes. O primeiro – muito grave – dava a conhecer ao IN a localização exacta da bandeira e o agrupamento dos homens. A segunda – não menos “grave” – acordar de “madrugada” a malta cripto. Pela primeira razão, o toque da corneta deixou de existir, e ainda bem…o Justo podia curtir as suas ressacas já mais à vontade.
„ Acreditem que me é difícil escrever sobre o Cavaleiro. Homem bem simpático, sorridente, amigo do seu amigo, aparentemente sempre satisfeito, mas uma forma de estar, sobre ele, muito própria. Se dizemos bem….diz que estamos a “engraxar”…. Não gosta! Se dizemos mal….bem aqui, como qualquer outro, também não gosta. Se não dizemos uma coisa e outra, que estamos disenteressados, que não ligamos “puto”, etc.
O Cavaleiro, como todos os outros, em Tite, sofria! Não só por ele…. Mas também por ver os outros sofrerem!
Jamais o Cavaleiro disse uma palavra de desagrado à minha pessoa.
Filho de Barbeiro, extremamente educado, visão aos acontecimentos avançada.
Não esqueço uma…. de muitas coisas que partilhamos:
Com o conhecimento da morte do meu pai, foi o primeiro a disponibilizar-se na construção das condições para eu assistir ao enterro em Lisboa. Por diversas razões pessoais não quis. Sendo a principal a de ter dúvidas de regressar à Guiné, e se saberia suportar as consequências de daí derivariam.
Hoje, reformado, mora numa vivenda nos arredores de Viana do Castelo. Segundo diz todo o dinheiro que consegue poupar vai para a agência de viagens. Um grande abraço Camarada.
… Numa das ocasiões de formação às milícias que comandava, o Alferes Carvalho, morreu. Eu não estava presente quando o acidente ocorreu, mas contaram-me, que houve troca, na espingarda metralhadora G3, do projéctil impulsionador das granadas de mão, originando o seu rebentamento.
Estava no hospital em Bissau quando o soube do acidente. Não sou pela morte física de quem quer que seja. Sofri pela forma inglória da sua morte, mas…era personagem que não me inspirava simpatia.

(IV)
Em sede, disse que os operadores de cripto eram três, durante algum período de tempo assim foi, deixou de ser quando o Continuo foi capturado. Não sei se ele sabe, mas derivado à situação, imediatamente, numa mensagem classificada como secreta e de prioridade zulu, mandamos, justificadamente, a todos os operadores no território, alterar o sistema de cripto vigente para o sistema alternativo. No dia seguinte tivemos como “visita” o Comandante da Cheret sitiado em Bissau, a cumprimentar-nos, inteirar-se pormenorizadamente da situação e sugerir ao Comandante da Companhia um louvor disciplinar, como mais tarde veio a acontecer.
O tempo passava vagarosamente, os dias parecem não ter “horas”. É hoje, é amanhã que seremos atacados? Quando é que chega de Bissau “frescos” em condições de se comerem? Não querias mais nada, come vianda (arroz) , diz um, vai à merda, diz outro. O Furriel Cavaleiro, procura dedicar mais tempo aos trabalhos do Centro de Cripto, ajudando-nos nas tarefas do dia a dia, na conferencia e na distribuição do material cripto pelas Companhias Operacionais, situadas em outras localidades na região operacional de Tite, etc. O elemento em falta jamais foi substituído até ao fim da comissão. E aqui chegados:
A história repetiu-se com a chegada dos “periquitos” com a sua bagagem que nos vinham substituir………………… Quem são os Criptos?† Quem são?
O embarque para Lisboa é efectuado a 3 de Março de 1969, no mesmo navio, com a chegada a nove de Março.

Raul Pica Sinos
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† Quando do regresso não percorri o mesmo caminho Tite/Enxudé, na medida em que fui distribuir material cripto a Fulacunda, via a Bolama. Mas isto é outra história, bem gira, penso contar numa outra ocasião.
do Zé Justo:
Raul...ainda não tens os deditos inchados de tanto teclar ??...não paras rapaz !!Gostei de mais uma narrativa, esta mesmo directa aos Criptos.Recordaste a morte do alf. Carvalho...teve mesmo galo, um estilhaço minusculode dilagrama, apanhou-lhe a jugolar e olha...Kaput.Estava junto á porta de armas quando ele entrou no jipe todo enrolado eagarrado por dois gajos dos Boinas Verdes que tinham estado na carreira de tiro(eu dessa vez não fui dar uns tiritos, porque o alf. disse-me que só iam oscomandos e eu que aguentasse). O buraco de entrada do estilhaço no pescoçoera pequenissimo e mal sangrava. Ainda hoje penso que há horas do diabo.Lembras-te que soldaram o caixão e não lhe tiraram a aliança, e que a mulherandou a perguntar por ela.Já não me lembro bem, mas penso que o milicia que disparou o dilagrama comcartucho normal, não morreu, ficou todo roto,foi evacuado para Bissau, maspassados meses parece que voltou para Tite.O nosso amigo António Cavaleiro é que ficou cá com um pósinho à Guiné quefaz favor, tem toda a razão, muito daquilo é para esquecer, mas gaita, poucosmas muito bons bocados também passamos, principalmente com os petiscos...e comos CAPRICHOS !!Tenho mais histórias, estou a ganhar balanço para as narrar.Um abraço
Zé Justo

do Cavaleiro:
Olá Pica Sinos. Uma vez mais os meus sinceros parabéns pela forma como rediges. És exemplar. Relativamente ao conteúdo do artigo gostei muito de ler, até porque me "avivaste" a memória de situações que já se me tinham varrido completamente!. Tenho uma dúvida, o alferes Carvalho morreu de acidente involuntário ou foi provocado? Não sei porquê mas fiquei com a ideia que tinha sido ele que, quando em formação lá com os seus heróis, despolotou propositadamente uma granada e morreram uns tantos....Se não foi assim, esquece! Também não interessa. Sabes bem que não nutria simpatia por aquela "ave-rara! Enfim....é pessoa para apagar da memória! Outras situações que narras, agora e nas anteriores, algumas delas não consigo recordar, nomeadamente aquela da morte de teu Pai. Não me vou pronunciar acerca do que dizes da minha pessoa. Respeito o julgamento duma vivência de quase dois anos. Uma vivência amiga, com algumas rixas pelo meio, ultrapassadas imediatamente e.... aí é que residia a nossa arte de saber estar, de saber desculpar e de saber compreender as situações. Bolas no fundo, todos nós estávamos lá contrariados e revoltadíssimos! As divisas e os galões eram e continuo a vê-los sempre da mesma forma É e era através da inteligência, do carácter e da personalidade das pessoas que eu os distinguia e distingo. Depois........sou um "gajo" esquisito!!!, não é Pica Sinos?!!! Entendo-te perfeitamente. Vou pedir apenas para rectificares a profissão de meu saudoso Pai. Ele não era ferroviário (não sei aonde foste buscar essa!), mas sim barbeiro, proprietário de uma barbearia, a mais antiga da cidade e situada na zona histórica (Praça da República), que por sinal ainda continua na posse da família. Olha Pica Sinos, proporcionaste-me um fim de tarde fora do comum. Agarrei-me a esta coisa e...........agora vou ler o jornal, se não .......começam as notícias a ficar desactualizadas e sem interesse Esta vida de reformado.......o tempo não chega a nada!Um forte abraço extensivo a toda a família e....um bom resto de domingo.
A.Cavaleiro (Viana do Castelo)

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