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Se servistes a Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis e ela, o que costuma! (Patoleia Mendes, furriel milº Angola ).

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"Ó gentes do meu Batalhão /

Agora é que eu percebi /

Esta amizade que sinto /

Foi de vós que a recebi…"

(José Justo)

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"NINGUÉM DESCE VIVO DUMA CRUZ!..."

António Lobo Antunes, escritor e ex-combatente

referindo-se aos ex-combatentes da guerra colonial


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EMBLEMAS DAS UNIDADES OPERACIONAIS ESTACIONADAS EM TITE E AINDA DAS COMPªS DO INICIO DO BART

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domingo, 30 de março de 2008

Livro do Alf. António Julio Rosa

Foto da capa do livro, que está exposta no blog da força aérea, abaixo mencionado
Já encontrei o nome do livro do alf. Rosa, que foi indicado pelo Pica Sinos. A editora é Campo das Letras
Aqui vai um excerto dum texto do blog dos especialistas da Força Aérea, que podem procurar em "Blogs simpácticos"

"Memórias de um Prisioneiro de Guerra"

É bonito e comovente recordar o passado!
Camarada,Victor Barata,antes de mais quero dar-te os parabéns por criares este espaço que nos tem trazido apontamentos dignos de serem contados passados tantos anos, que,para além nos recordarem tempos antigos,têm passagens que só a Guerra nos proporcionou.
Ando algum tempo para entrar neste "NOSSO" Blogue,mas,embora tenha sido,com muito orgulho,ZÉ,fiz a comissão em Angola,e não sabia se seria possível entrar nesta,que agora digo,"Nossa" casa,mas depois de falar contigo,confirmei que continuamos a ser uma grande e unida família,OBRIGADO!
Fiquei surpreso com a mensagem anterior,desconhecia a existência de tal obra,mas já consultei a editora no intuito de me dizerem onde posso adquiri-la, em Gouveia ou se é possível enviar á cobrança.


Aproveito também para vos falar do Livro "Memórias de um Prisioneiro de Guerra" escrito por um camarada(1) do exército que foi capturado juntamente com mais dois companheiros.
É uma obra que é digna de ser lida para se poder avaliar o sofrimento destes homens que na flor da sua juventude, passaram alguns anos em cativeiro.
O local que lhes destinaram para ficarem prisioneiros,chamava-se"MAISON DE FORCE",em Kindia,era uma prisão de trabalhos forçados.
Na página 82/83 desse livro, pode ler-se isto:
"Os guardas daquele estabelecimento prisional,na Guiné Conacry,levaram-nos para o interior e fecharam-nos em celas individuais.Estas eram de tamanho muito reduzido e só deixavam ver um pátio central,através das grades,colocadas na parte superior da porta de ferro.Fiquei muito confuso e levantaram-se-me muitas dúvidas: Que mal teria eu feito àquele país,para me terem prisioneiro?!... Seria que nos iriam sujeitar a trabalhos forçados,como sugeria o nome da prisão?!...Estava deveras muito apreensivo
quando,inesperadamente,alguém abriu aporta da cela!...
Com espanto,vi um guarda acompanhado por um homem,de raça branca,com uma barba loira enorme.Pensei imediatamente:Só me faltava haver aqui cubanos!... Afinal estava enganado!... Estendeu-me a mão para me cumprimentar e perguntou-me se estava bom.A minha expectativa manteve-se!... Quem seria aquela personagem?...Ao apresentar-se-me dissiparam-se as dúvidas:
-"Sou o Lobato(2)!...Sou piloto da Força Aérea e estou aqui,como prisioneiro,há mais de quatro anos!..."
Vale a pena ler,hoje,o que os nossos Camaradas sofreram ontem,mas que felizmente,julgo estarem bem se saúde,que bem merecem.
Obrigado Victor.
Saudações ESPECIAIS!
António Ferreira OPC 2/68

(1) António Júlio Rosa,natural de Abrunhosa-a-Velha,Concelho de Mangualde.
Alferes Milº. Atirador/Artª.

(2)António Loureiro Sousa Lobato
Sargº.Pil.Av

VB-Ferreira tu e TODOS os militares,independentemente da província onde estiveram ou o RAMO DAS FORÇAS ARMADAS que representaram,têm sempre esta porta aberta para o que entenderem dever contar.
de biavisa:
Visito o seu blog porque acho útil dar-nos a conhecer o que se desconhecia. Talvez por ser proíbido e tendo tido 2 irmãos na guerra,não na Guiné, nunca me lembro de lhes ouvir histórias semelhantes. Porque regressaram sãos e salvos, talvez optassem por pôr uma pedra no assunto. E naquela altura, até talvez fosse melhor pois sabiam o que tinha sido doloroso para nós. Hoje e apesar dessa guerra ser uma parte negra da nossa história, que eu acho devemos esquecer, gosto dos relatos que fazem para ficarmos, na matéria, menos ignorantes.

Hoje é domingo, os dias são mais longos...

Foto de prisioneiros portugueses, na Guiné Conakry, onde se incluem o Continuo, o Capitulo e o Rosas, da CCaç 1743.

do Zé Justo:
Gooooooooood Morning...Vietnam !!Lembras-te deste filme Raulão, adorei a interpretação do gajinho, gandamáquina de actor.Ele é bom actor e tu bom escritor !! Gostei da ideia de deixares aos teus,relatos de dois marcantes anos da tua vida.Eles nunca se aperceberão na realidade do que foram esses tempos, mas devemos lembrar as asneiras de quem nos governou (e ainda outros governam).Lembro-me sempre que aos 16 anos já me martelava a cabeça o raio da guerra.Quanto mais os anos passavam, mais perto da tropa estava, e cada vez mais pensava no que me esperava.Depois corria a história (lembras-te) de que, quem se pirásse e fosse apanhado ia no mínimo para o forte de Elvas, e era condenado entre outras torturas, a subir e descer montes de vezes uma rampa de terra bastante ingreme com um barril meio cheio de água ás Costas !! Imagina o balançar da água dentro do pipo e tudo isto debaixo das caloraças Alentejanas.Andava a estudar na Veiga Beirão, e via os meus amigos ano-após-ano a desaparecerem do nosso convívio, rumo áquelas por um lado belas terras e que tanto mal nos fizeram por outro.Rapaz, elogios tu não precisas, mas gostei bastante da tua ideia. Já li os novos textos e já adicionei ao DVD Guiné.O DVD já está bastante mais completo do que o que vocês têm.Logo que ponha mais umas coisitas vossas e minhas, regravo tudo e mando uma cópia para cada um.Amigos Guedes e Cavaleiro...vamos lá a BOTAR FALADURA no Blog, têm que dar um ar da vossa graça, então essas recordações ??Volto a pedir-vos que no próximo almoço com o pessoal, divulguem o Blog, o trabalhador incansável, o Guedes e nós, merecemos mais colaborações.Hoje é Domingo, os dias são mais longos...vá lá um sorrisosinho prá objectiva !! Um abração para vocês
Zé Justo

e diz o Cavaleiro:
Nunca deixes aquilo que amas por aquilo que desejas, Pois aquilo que desejas te deixará pelo que amas! Hoje as 00:00h, o teu amor verdadeiro dará conta de que te ama! Algo acontecerá entre 1 e as 4. Amanhã prepara-te para a maior sorte da tua vida... (Fico à espera, mano...)

e diz o Pica Sinos:
Grande Justo. Sinto que já estás operacional. Ainda bem fico contente.Sei que a malta se vai encontrar, talvez dia 17 de Maio, um Sábado, numa localidade perto das Caldas da Rainha (Salir do Porto) .O convite deve estar quase a chegar.Dá para pensares em dares lá um pulo? Ou é muito penoso para ti? O que é pensas disso?Olha meu amigo. Esta coisa de andar pelas net(s) descobri muita coisa sobre a operação que não sei o nome que levou prisioneiros o Contino o Capitulo e o Alferes Julio Rosa. Inclusivé tenho fotografias deles na prisão em Conacry. Vou escrever brevemente um texto sobre esta operação e desta vez não posso deixar de citar fontes uma vez que encontrei depoimentos do "outro lado" e do Alferes Julio Rosa dando notas do acontecimento. (Aqui um recado para o Guedes - O ALferes tem um livro publicado sobre este acontecimento. Há morada? como podemos adquirir o dito livro?)Junto uma fotografia para "abrir o apetite"Bom, Justo: o que é que quero de ti? Quero que abras essa cabeçinha e que contes mais do que aquilo que escreveste nas fotos que tens no CD. Decerto te lembras de mais coisas que possam marcar esse dia. Aceita um abraço
Pica Sinos

sexta-feira, 28 de março de 2008

segunda-feira, 24 de março de 2008

Conversas com a namorada, II...

Foto dum Choro

Tite, 31 de Março de 1968

Minha Querida Milocas
………………….
Há três dias para trás, fui assistir ao choro, nós chamamos velório, de um soldado que morreu. É impressionante quando se faz um enterro nesta terra. Muitos nativos, penso que familiares e amigos que vivem noutras, bem distantes, localidades se deslocam para fazerem o choro. Depois de visitarem o morto, vão saindo aos pares, a chorar e cantar dando voltas na tabanca onde está o corpo, outros dançam ao som do batuque.
Toda a população da tabanca e os visitantes oferece algo de seu, porcos, galinhas, cana (aguardente), vinho, panos, etc. e deixam-se ficar sentados nas tabancas em redor.
Há beleza na cerimónia, pois durante o choro há várias “lutas” entre os nativos de povoações diversas, não quero deixar de falar nas corridas com os braços abertos no ar acenando e parando rapidamente voltados para os presentes para os admirarem.
Todos vêm vestidos de bons panos, só as mulheres mais chegadas ao morto têm o peito descoberto. Muitos dos homens pintam de forma exagerada o cabelo com o pó do arroz. Mas o mais que me impressionou foi a mãe do desafortunado, aparentando ter cerca de setenta anos, de quando em quando dava cambalhotas, outras vezes sentava-se no chão batendo fortemente com as mãos contra a terra. Era impressionante a sua dor e sofrimento pela perda do seu filho.
Por fim chegou a hora do enterro, muitas das oferendas foram depositadas na campa. O choro entre eles durou mais três dias. E segundo me disseram repete ao fim de três meses. Assim vai a nossa africa toda ela cheia de surpresas.


Tite, 07 de Abril de 1968
………………
Esta noite que passou, a de segunda para terça, não me deitei, pois gostei de passar uma noite servindo de ajudante de padeiro. Amassei pão, depois foi a vez de brincar, enquanto os meus camaradas trabalhavam no dito cujo, eu fazia especialidades, tais como: uma rosca, uma carcaça e um caracol. Nada de risotas, as coisas até ficaram engraçadinhas, só queria que provasses quando as mui nobre especialidades saíram do forno!
Depois quando já eram umas seis horas da “matina”, já o café pronto, agarrei nos meus feitos e, vai daí botei manteiga. Só te digo que quentinhos como estavam e barradinhos com “teiguinha” sabiam demais……….


Tite, 22 de Maio de 1968
……………...
Tenho assistido aos jogos das equipas de futebol que se construíram em Tite. Uma até tem equipamento vindo de Bissau. Impressionado com tanta destreza, ontem para distrair e variar fui também eu dar uns pontapés na bola, acontecendo-me um percalço. Mas eu conto o desenrolar da jogada para que melhor possas compreender:

A bola estava nas mãos do guarda-redes adversário que a passou a um defesa da sua equipa. Este correu com ela ficando no meio campo. Ao ter encontro com um camarada da minha equipa foi desarmado. Corre para a baliza contrária, passou a bola cá ao rapaz. Eu senhor da bola corro em profundidade, finto um, dois, três, qual Eusébio, quando me preparo para rematar à baliza, em vez de dar o pontapé na bola dou no chão e o golo fica por marcar. Não só sofri pelas críticas dos restantes membros da equipa como pelos assobios da assistência que entenderam todo, injustificadamente, que nada jogo. E como sofro agora com dores no pé de inchado que está, mas não te preocupes que isto passa.

Raul Pica Sinos

quinta-feira, 20 de março de 2008

Páscoa Feliz 2008

A todos os meus amigos e familiares desejo uma Páscoa Feliz, com fortes votos de boa saúde e bem estar, não esquecendo paz e amor.
A todos um grande abraço.

notyet disse...
No que me toca, retribuo com grande abraço
22 de Março de 2008 10:45

Zé Justo disse...
Meu caro, amêndoas e miminhos quanto baste nesta Páscoa, para ti e todos os Guedesinhos.
22 de Março de 2008 17:41

alcindaleal disse...
Leandro desejo-lhe a si, à Ana e restante família uma excelente Páscoa! Quero aproveitar este espaço para enviar a todos os combatentes em Tite e colaboradores deste blogue o meu muito obrigada pelas narrativas e BOA PÁSCOA! Aproveito para lhe dizer que o e-mail que lhe enviei hoje foi devolvido,mudou de endereço? Cumprimentos (Alcinda: não mudei de email, só que estava cheio).
22 de Março de 2008 18:27

Raul disse...
No que a mim me toca quero agradecer os votos de Pascoa Feliz que retribuo a Alcindaleal. Quero também agradecer a simpatia manifestada por ler as narrativas que os colaboradores do Blog produzem e onde me incluo.Peço-lhe que não deixe de fazer criticas ou de fazer observações sempre que entenda por conveniente
23 de Março de 2008 20:50

O regresso...


NEM TODOS, E DIFERENTES
NO REGRESSO DA VIAGEM À GUINÉ

Tens em troca órfãos e órfãs
E campos de solidão
E mães que não têm filhos
Filhos que não têm pais
Zeca Afonso


A tarde já vai alta. Sem fanfarra e sem lenços a acenar soa a sirene do navio. São menos os que partem naquela primeira segunda-feira do mês de Março de 1969. Não são os mesmos homens de outrora, a guerra tornou-os diferentes.

Ficam para trás as águas barrentas, o navio já vai distante. Na ânsia da partida não tive tempo para me despedir daquela terra de cor vermelha, do seu cheiro, das árvores centenárias, dos pássaros, das bolanhas, do seu magnífico pôr do sol, do silêncio das noites estreladas, do seu povo. Imagem que a guerra não conseguirá apagar.

Dos ausentes, em tempo, “Em nome da Pátria”, através de um qualquer oficial subalterno, naquela que foi sua morada, a notícia da morte. A família e os amigos choram a sua sorte.

Com a data de cinco meses antes, a mim, e aos demais que me acompanham na viagem, é-me entregue um “papel verde”, “O Comandante Militar atesta o seu apreço pelos serviços prestados á Pátria na Província da Guiné”. Aos que ficaram para a vida inteira mutilados, estropiados não sei se a “Pátria” também lhes atestou o seu apreço.

As mesas e beliches nos porões do Uíge, pelo seu uso, não se notam que são de madeira, negra é a sua cor. Os vomitados do enjoo já não importa, a limpeza precária e a falta do banho diário, o barulho dos motores, pouco ou nada incómoda. Repete-se a vida no convés. Só nas conversas se observam excepções, são de contentamento e alegria.

Todos acordam cedo naquela manhã de 9 de Março, a brisa do mar gela-me a cara, os meus olhos já avistam a terra que me viu nascer. Uns choram, outros abraçam-se, procuro um lugar, como muitos, na amurada do navio. Já vejo o Tejo e os “cacilheiros”. Todos estrategicamente se calam para após a passagem da ponte, dizerem em uníssono……JÁ PASSOU.

O navio prepara-se para atracar, aqui, alem vêm-se cartazes….Estou aqui Manuel….., Leiria Esperamos por ti…….Família Santos Aqui……Massarelos Presente. Os gritos de alegria com o desembarque comovem. Mães, Pais, Filhos, Mulheres, Noivas, Amigos, todos se abraçam. A nuvem negra parece ter passado o sofrimento acabado.

Quartel do RAL 1 nos Olivais. O aeroporto de Lisboa está por perto, entregamos o que resta dos fardamentos. Despeço-me dos meus camaradas com um até breve. Vou para casa onde a família me espera. A guerra, essa sim, durou mais cinco anos.

Raul Pica Sinos
A foto e as legendas são do Justo
Zé Justo disse...
Raulão, tinhas o teu amor esperando ? eu desembarquei com 2$50 no bolso e a dever 40 e tal paus da lerpa...que nunca paguei !!!
22 de Março de 2008 17:44
Raul disse...
Não me lembro se tinha trazido algum dinheiro, penso que sim, mas não precisava pois tinha familia no RAL1 á minha espera. Ainda te lembras da cena ao entregar a roupa? Eles queriam que a malta entregasse mesmo estragada a roupa que nos tinham distribuido. Aqui vale-nos o Cap.PP em mandar rasgar tudo ao meio pois faziam já faziam duas peças. Que grande cena. Depois a coisa acalmou e houve malta que deixou lá a roupa em monte e veio embora. Esta cena foi o máximo. Raul Pica Sinos
23 de Março de 2008 19:15

Conversas com a namorada...


“ CONVERSAS COM A NAMORADA”

Tite, 15 de Janeiro de 1969

Minha Querida,
……………………………… Segundo informações no dia 28 de Fevereiro vamos para Bissau, embarcaremos a 03 de Março e devemos desembarcar a 8 ou a 9 se não houver avaria do navio tal como aconteceu na volta.
No entanto nada disto tenhas como certo, pois sabes que já várias vezes esteve marcada a nossa viagem para Lisboa e foi alterada. Diziam que a comissão era de dezoito meses, já lá vão 20 meses.
……………………. Como de costume outro grande susto. Talvez o maior desde que cá estou, pois durante cerca de quarenta minutos ouvi rebentamentos. Agora já passou, mas nada está garantido que não nos venham “visitar” em breve. Quem sabe? Daqui a 4, 5, 15 dias? Este tempo de espera, a saber que a partida está muito próxima, dá-me cabo da cabeça.

Tenho para dizer que hoje vi o caso mal parado, na medida em que já estava deitado e a dormir quando às duas horas e cinquenta e cinco minutos vieram-nos “aborrecer”. Minha querida Milocas, não te quero assustar mas se eu disser que hoje nos atacaram com seis canhões sem recuo, quatro morteiros 82 e outras armas ligeiras que também fazem grandes estragos não estou a mentir. Resultado: 14 feridos dos quais, dois em estado grave, evacuados para Bissau, uma caserna parcialmente destruída, uma outra no fundo do quartel com os lavabos que já eram, um jeep danificado, estilhaços dos projécteis nas paredes e nas portas e duas tabancas no exterior ardidas foi numa primeira analise o resultado verificado. De todos os ataques tenho tido medo, mas este foi demais. Talvez por cair uma granada do morteiro a cerca de três metros do meu quarto e ver faúlhas por todo lado.

Tite, 21 de Janeiro de 1969

Querida Milocas,
…………………………. Hoje escrevo para um dia poder recordar. Hoje sinto que devo fazer um balanço dos ataques que as nossas tropas já sofreram, os respectivos mortos, feridos e também desaparecidos:

19 de Julho de 1967, em Tite, três feridos;
03 de Fevereiro de 1968, em Bissassema, cinco mortos, nove feridos e três desaparecidos;
02 de Março de 1968, em Tite, dois mortos e sete feridos;
16 de Julho de 1968, em Tite, um morto e seis feridos; no Enxudé seis feridos;
16 de Outubro de 1968, em Tite, um ferido;
01 Novembro de 1968, em Tite, um morto e três feridos;
01 de Janeiro de 1969,em Tite, 1 morto e um ferido;
Um morto, soldado sapador deslocado em Nova Sintra.
15 de Janeiro de 1969, em Tite, catorze feridos.

Com consequências apenas materiais;
27 de Maio de 1967, em Tite;
28 de Maio de 1967, em Tite;
06 de Novembro de 1967, em Tite;
31 de Agosto de 1968, em Tite e
15 Janeiro 1969, no Enxudé.
Por acidente; dois mortos em Tite e um no Enxudé.
Em resumo: 14 mortos (inclui também naturais), 47 feridos (inclui também naturais) e 3 desaparecidos.

Querida Milocas, parece-me que já é uma “boa dose” de desgraça, isto é apenas ataques, não contados os tirinhos e rajadas que por vezes nos vêm cá dar. Mas deixemos agora a guerra e vamos falar dos nossos assuntos………………….

Despeço-me com muitas saudades, com muitos xoxos e muitos xis corações do noivo amigo que muito te ama

Raul Pica Sinos

quarta-feira, 19 de março de 2008

Dia do Pai...

Do amigo Zé Justo para todos nós, pais, avós etc.

Diz ele:

"Amigos, salvé este dia, e não nos esqueçamos da outra parte... as nossas mulheres!"

Um abraço Zé Justo.

A respeito do dia do Pai, vou transcrever aqui um poema de José Fernandes Castro. É dirigido a uma Filha ou a um Filho.

MINHA RAZÃO DE VIDA (José Fernandes Castro)

Minha filha meu poema Meu doce tema... d´inspiração.

Amor por mim inventado Musa dum fado... feito paixão...

Meu pedacinho de vida Com olhos lindos... da côr do céu

Minha roseira florida Prémio que a vida... me ofereceu.

Minha filha minha amada. Minha alvorada... de encantamento.

Meu respirar de alegria Meu novo dia... meu novo alento...

Tens no rosto tal beleza Que à natureza... fazes ciúme

Tens perfil de terna flor E o teu amor... é meu perfume

Meu quadro d´amor sublime Por ti se exprime... meu coração

Meu sonho realizado Fado cantado... com devoção...

Meu sol de cada manhã Meu talismã... minha verdade

Poema mais que desperto Caminho aberto... prá felicidade

Por pouco não se deu uma desgraça...

Foto de granadas defensiva e ofensiva

Ao reler uma das várias crónicas do Raulão Pica Sinos, lembrei um acontecimento caricato e quase dramático.
Todo o pessoal andava e tinha sempre junto ás camas a G3 e várias granadas de mão, pois nunca se sabia o que de um momento para o outro aconteceria, e...a “melhor defesa é sempre o ataque”.
Eu e o Pica tínhamos as G3 no Centro Cripto, mas no nosso quarto, debaixo da cama do Pica, tínhamos um stocksinho das ditas granadas como “prevenção”, pois o nosso quarto e Centro Cripto, ficavam mesmo defronte à porta de armas, e logo a seguir a área das tabancas.
Circulava de mão em mão pela malta uma “gracinha” feita por um habilidoso dos mecânicos de armamento - era um “expert” em armamento e desmanchou várias granadas de morteiro para fazer candeeiros, que vendia ao pessoal - tratava-se de uma granada de mão ofensiva, cuja carga de córdite e o detonador tinham sido extraídos, mantendo-se todo o mecanismo de disparo do manípulo com mola e tudo.
Ao principio este “maduro” - ái os vinte anos !! - gozava que nem um louco ao chegar ao pé de um grupo de pessoal, fingindo-se bêbado, aos tombos e a berrar... isto é tudo uma merda... estou farto...vou-vos matar...e sempre com a granada bem à vista na mão fechada.
Puxava a cavilha de segurança, que mandava ostensivamente para cima do pessoal, e de imediato lançava a granada para o meio do grupo !!! claro que a debandada e o pânico eram quase gerais, no entanto, e... parece incrível...mas vi alguns ficaram estáticos a olhar para a granada no chão !!
Havia sempre quem se insurgisse com a “brincadeira”, pelo perigo inerente, e tanta vez a gracinha se repetiu, que já ninguém ligava, pois era topado por todo o quartel.
O alferes Carvalho era viciado na caça, e quando saía para o mato, além duma “bruta” caçadeira semi-automática (que eu adorava) levava no cinto presa com um elástico cinzento largo, uma das tais granadas de mão...mas...claro verdadeira.
Uma tarde, depois de vir da caça o alferes deu-me a granada para levar para o C.Cripto. Estava aflito para ir à casa de banho, e como o Ovar do Centro de Mensagens, estava mesmo á porta, dei-lhe a granada e pedi para entregar ao Pica que estava de serviço. Acto contínuo...ele agarra na granada, mete o dedo na argola de segurança...e LANÇA-ME A GRANADA AOS PÉS !!!...fiquei atónito, e paralisado...passados uns segundos, consegui agarrar de novo na granada, e levei-a para dentro...todo eu abanava !!
Resumindo...pouco depois, quando convenci o Ovar que a granada era real, ele ficou boquiaberto, a cara de gozo com que tinha estado...passou a branca, amarela...sei lá !!
Então ele explicou-me, todo a tremer... que como a granada tinha à volta o elástico cinzento, e a tal granada desarmada, de tanto andar de mão em mão tinha uma fita isoladora CINZENTA à volta para segurar a cabeça que estava sempre a cair...ele pensou tratar-se da...dita falsa !!
Felizmente a argola de segurança tinha as pontas bem dobradas, o
que dificultou...e muito...a sua extracção...senão...decerto que haveria estupidamente...que juntar mais duas baixas no Batalhão 1914 !!

Zé Justo - Março 2008

terça-feira, 18 de março de 2008

Vamos ler um pouco ?


Do nosso amigo Justo:
"Tal como me enviaram, partilho connvosco. É só fazer clique no título para ler ou imprimir. "

A Divina Comédia -Dante Alighieri
A Comédia dos Erros -William Shakespeare
Poemas de Fernando Pessoa -Fernando Pessoa
Dom Casmurro -Machado de Assis
Cancioneiro -Fernando Pessoa
Romeu e Julieta -William Shakespeare
A Cartomante -Machado de Assis
Mensagem -Fernando Pessoa
A Carteira -Machado de Assis
A Megera Domada -William Shakespeare
A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca -William Shakespeare
Sonho de Uma Noite de Verão -William Shakespeare
O Eu profundo e os outros Eus. -Fernando Pessoa
Dom Casmurro -Machado de Assis
Do Livro do Desassossego -Fernando Pessoa
Poesias Inéditas -Fernando Pessoa
Tudo Bem Quando Termina Bem -William Shakespeare
A Carta -Pero Vaz de Caminha
A Igreja do Diabo -Machado de Assis
Macbeth -William Shakespeare
Este mundo da injustiça globalizada -José Saramago
A Tempestade -William Shakespeare
O pastor amoroso -Fernando Pessoa
A Cidade e as Serras -José Maria Eça de Queirós
Livro do Desassossego -Fernando Pessoa
A Carta de Pero Vaz de Caminha -Pero Vaz de Caminha
O Guardador de Rebanhos -Fernando Pessoa
O Mercador de Veneza -William Shakespeare
A Esfinge sem Segredo -Oscar Wilde
Trabalhos de Amor Perdidos -William Shakespeare
Memórias Póstumas de Brás Cubas -Machado de Assis
A Mão e a Luva -Machado de Assis
Arte Poética -Aristóteles
Conto de Inverno -William Shakespeare
Otelo, O Mouro de Veneza -William Shakespeare
Antônio e Cleópatra -William Shakespeare
Os Lusíadas -Luís Vaz de Camões
A Metamorfose -Franz Kafka
A Cartomante -Machado de Assis
Rei Lear -William Shakespeare
A Causa Secreta -Machado de Assis
Poemas Traduzidos -Fernando Pessoa
Muito Barulho Por Nada -William Shakespeare
Júlio César -William Shakespeare
Auto da Barca do Inferno -Gil Vicente
Poemas de Álvaro de Campos -Fernando Pessoa
Cancioneiro -Fernando Pessoa
Catálogo de Autores Brasileiros com a Obra em Domínio Público -Fundação Biblioteca Nacional
A Ela -Machado de Assis
O Banqueiro Anarquista -Fernando Pessoa
Dom Casmurro -Machado de Assis
A Dama das Camélias -Alexandre Dumas Filho
Poemas de Álvaro de Campos -Fernando Pessoa
Adão e Eva -Machado de Assis
A Moreninha -Joaquim Manuel de Macedo
A Chinela Turca -Machado de Assis
As Alegres Senhoras de Windsor -William Shakespeare
Poemas Selecionados -Florbela Espanca
As Vítimas-Algozes -Joaquim Manuel de Macedo
Iracema -José de Alencar
A Mão e a Luva -Machado de Assis
Ricardo III -William Shakespeare
O Alienista -Machado de Assis
Poemas Inconjuntos -Fernando Pessoa
A Volta ao Mundo em 80 Dias -Júlio Verne
A Carteira -Machado de Assis
Primeiro Fausto -Fernando Pessoa
Senhora -José de Alencar
A Escrava Isaura -Bernardo Guimarães
Memórias Póstumas de Brás Cubas -Machado de Assis
A Mensageira das Violetas -Florbela Espanca
Sonetos -Luís Vaz de Camões
Eu e Outras Poesias -Augusto dos Anjos
Fausto -Johann Wolfgang von Goethe
Iracema -José de Alencar
Poemas de Ricardo Reis -Fernando Pessoa
Os Maias -José Maria Eça de Queirós
O Guarani -José de Alencar
A Mulher de Preto -Machado de Assis
A Desobediência Civil -Henry David Thoreau
A Alma Encantadora das Ruas -João do Rio
A Pianista -Machado de Assis
Poemas em Inglês -Fernando Pessoa
A Igreja do Diabo -Machado de Assis
A Herança -Machado de Assis
A chave -Machado de Assis
Eu -Augusto dos Anjos
As Primaveras -Casimiro de Abreu
A Desejada das Gentes -Machado de Assis
Poemas de Ricardo Reis -Fernando Pessoa
Quincas Borba -Machado de Assis
A Segunda Vida -Machado de Assis
Os Sertões -Euclides da Cunha
Poemas de Álvaro de Campos -Fernando Pessoa
O Alienista -Machado de Assis
Don Quixote. Vol. 1 -Miguel de Cervantes Saavedra
Medida Por Medida -William Shakespeare
Os Dois Cavalheiros de Verona -William Shakespeare
A Alma do Lázaro -José de Alencar
A Vida Eterna -Machado de Assis
A Causa Secreta -Machado de Assis
14 de Julho na Roça -Raul Pompéia
Divina Comedia -Dante Alighieri
O Crime do Padre Amaro -José Maria Eça de Queirós
Coriolano -William Shakespeare
Astúcias de Marido -Machado de Assis
Senhora -José de Alencar
Auto da Barca do Inferno -Gil Vicente
Noite na Taverna -Manuel Antônio Álvares de Azevedo
Memórias Póstumas de Brás Cubas -Machado de Assis
A "Não-me-toques"! -Artur Azevedo
Os Maias -José Maria Eça de Queirós
Obras Seletas -Rui Barbosa
A Mão e a Luva -Machado de Assis
Amor de Perdição -Camilo Castelo Branco
Aurora sem Dia -Machado de Assis
Édipo-Rei -Sófocles
O Abolicionismo -Joaquim Nabuco
Pai Contra Mãe -Machado de Assis
O Cortiço -Aluísio de Azevedo
Tito Andrônico -William Shakespeare
Adão e Eva -Machado de Assis
Os Sertões -Euclides da Cunha
Esaú e Jacó -Machado de Assis
Don Quixote -Miguel de Cervantes
Camões -Joaquim Nabuco
Antes que Cases -Machado de Assis
A melhor das noivas -Machado de Assis
Livro de Mágoas -Florbela Espanca
O Cortiço -Aluísio de Azevedo
A Relíquia -José Maria Eça de Queirós
Helena -Machado de Assis
Contos -José Maria Eça de Queirós
A Sereníssima República -Machado de Assis
Iliada -Homero
Amor de Perdição -Camilo Castelo Branco
A Brasileira de Prazins -Camilo Castelo Branco
Os Lusíadas -Luís Vaz de Camões
Sonetos e Outros Poemas -Manuel Maria de Barbosa du Bocage
Ficções do interlúdio: para além do outro oceano de Coelho Pacheco. -Fernando Pessoa
Anedota Pecuniária -Machado de Assis
A Carne -Júlio Ribeiro
O Primo Basílio -José Maria Eça de Queirós
Don Quijote -Miguel de Cervantes
A Volta ao Mundo em Oitenta Dias -Júlio Verne
A Semana -Machado de Assis
A viúva Sobral -Machado de Assis
A Princesa de Babilônia -Voltaire
O Navio Negreiro -Antônio Frederico de Castro Alves
Catálogo de Publicações da Biblioteca Nacional -Fundação Biblioteca Nacional
Papéis Avulsos -Machado de Assis
Eterna Mágoa -Augusto dos Anjos
Cartas D'Amor -José Maria Eça de Queirós
O Crime do Padre Amaro -José Maria Eça de Queirós
Anedota do Cabriolet -Machado de Assis
Canção do Exílio -Antônio Gonçalves Dias
A Desejada das Gentes -Machado de Assis
A Dama das Camélias -Alexandre Dumas Filho
Don Quixote. Vol. 2 -Miguel de Cervantes Saavedra
Almas Agradecidas -Machado de Assis
Cartas D'Amor - O Efêmero Feminino -José Maria Eça de Queirós
Contos Fluminenses -Machado de Assis
Odisséia -Homero
Quincas Borba -Machado de Assis
A Mulher de Preto -Machado de Assis
Balas de Estalo -Machado de Assis
A Senhora do Galvão -Machado de Assis
O Primo Basílio -José Maria Eça de Queirós
A Inglezinha Barcelos -Machado de Assis
Capítulos de História Colonial (1500-1800) -João Capistrano de Abreu
CHARNECA EM FLOR -Florbela Espanca
Cinco Minutos -José de Alencar
Memórias de um Sargento de Milícias -Manuel Antônio de Almeida
Lucíola -José de Alencar
A Parasita Azul -Machado de Assis
A Viuvinha -José de Alencar
Utopia -Thomas Morus
Missa do Galo -Machado de Assis
Espumas Flutuantes -Antônio Frederico de Castro Alves
História da Literatura Brasileira: Fatores da Literatura Brasileira -Sílvio Romero
Hamlet -William Shakespeare
A Ama-Seca -Artur Azevedo
O Espelho -Machado de Assis
Helena -Machado de Assis
As Academias de Sião -Machado de Assis
A Carne -Júlio Ribeiro
A Ilustre Casa de Ramires -José Maria Eça de Queirós
Como e Por Que Sou Romancista -José de Alencar
Antes da Missa -Machado de Assis

domingo, 16 de março de 2008

Por falar em... recordando!


A “suite” que ocupava no edifício das transmissões não tinha mais que seis metros quadrados (3x2). Era provida de um beliche duplo, o indispensável mosquiteiro, armário com gavetas e mesa-de-cabeceira, ambos de madeira com pintura pró abstracto. Duas janelas, uma com vistas para a porta de armas, a outra sem qualquer vista a não ser para a chapa de zinco da caserna que estava perto. A decorar uma das paredes, cuidadosamente e estrategicamente aplicadas, várias fotografias de mulheres em papel de revistas, fazendo inveja a qualquer decoração de cabina de tractores/TIR de longo curso, sendo, não raras as vezes, reclamadas para troca pelas mais variadas patentes militar, capitão inclusive.
Por falar em capitão……. As mensagens dirigidas ao comandante do batalhão por norma eram entregues a um capitão (não miliciano) da Companhia de Comandos e Serviços. Também era norma os operadores de cripto determinarem se o assunto era de molde, a acordar, durante a noite, ou não o dito cujo, sendo certo que em caso de dúvidas não hesitávamos em pôr as pernas ao caminho até pavilhão dos oficias.
Uma das noites, pelas três horas da madrugada, entendi acordar o indivíduo entregando-lhe uma mensagem classificada como urgente e secreta. O homem não gostou: “na próxima vez que me acordares às três da manhã levas com uma bota na cabeça” disse. Não sei que cara lhe mostrei, mas na verdade seguiu-se muitas vezes (nem sempre com a razão de ser) o odioso despertar a horas menos bem sem que as botas “voassem” do respectivo sítio.
Por falar em revistas……. Uma dada ocasião, o Alferes das transmissões, de joelhos em cima da cama superior do beliche, virado para a “exposição fotográfica” procedendo à operação de descolagem e colagem de fotografias, em jeito de brincadeira pergunto…….O meu alferes pertence aos “serviços secretos”? Porquê retorquiu. Os saltos dos seus sapatos têm a marca “SS”……. Não me pareceu que tivesse gostado da brincadeira, na medida em que, pronto respondeu: …….”Deves ter mais cuidado com o que dizes. E…… já agora, avisa lá a Maria Emília, (minha namorada) que deixe de falar com uma tal Lurdes (colega no emprego) sobre o que se passa em Tite”……. Ainda hoje estou para saber com é que ele obteve tal informação. Claro que não deixei de desabafar com a minha namorada a vida em Tite. Avisei, isso sim para Lisboa que a Lurdes tivesse mais cuidado nas conversas fora do contexto a duas.
Mas voltando ao quarto…….Já vos disse que o companheiro que partilhava comigo o quarto, era o Justo. Zeloso dos seus pertences, tinha o cuidado nas gavetas do armário que lhe estavam destinadas, colocar sabonetes desprovidos da respectiva embalagem para que a roupa absorvesse os aromas. A minha ia “à boleia” uma vez que ocupava as gavetas de baixo. Nos momentos de “insónias” tendo em conta “bejecas já despejadas” de entre uma das muitas conversas, o Justo era da opinião de montar na janela fronteira à porta de armas, uma metralhadora “Breda” …… “no caso de infiltração do IN, logo faríamos accionar o gatilho”…….“Umas granadas de mão também não era mal pensado”.
Por falar em granadas de mão……Lembro-me uma vez, com o propósito de caçar “rancho melhorado” numa das bolanhas existentes na estrada que ligava Tite ao Enxudé, junto ao arrozal, não a mais que a um quilómetro do quartel, resolvemos dar uns tiros aos patos que por ali costumavam estacionar. Com a nossa aproximação, logo levantaram voo, por mais tiros que fossem disparados, não vimos cair nenhum. Mas….não viemos sem petisco, as duas granadas de sopro que jogamos na água foi acto previamente estudado, para……no caso de insucesso com os “cantantes” a alternativa estava no caçar peixes, o que aconteceu.
Voltando atrás……evidentemente que expliquei ao belicista que partilhava o quarto comigo que a ideia da metralhadora não era boa. Fazia mais sentido construir entre o tecto falso e o telhado de zinco uma “placa” de toros de madeira e terra de modo a amortecer os impactos causados pelos morteiros 82 que o IN infligia nos ataques ao aquartelamento.
Por falar em ataques do IN……. No “barracão” do Palma, foi festa rija a passagem do ano 1967/68, felizmente sem “fogo de artificio” dirigido ao quartel. Das muitas bebedeiras existentes, uma sobressaiu! Assistido pelo médico e de levado às costas para a cama, o meu companheiro destas conversas esteve em coma alcoólico cerca de dois dias.
Já me esquecia……a placa de toros de madeira e terra que construímos nunca foi testada a sua eficácia, pelo menos no nosso tempo da permanência em Tite.

Raul Pica Sinos
A foto foi cedida pelo Justo

quarta-feira, 12 de março de 2008

Faleceu o ultimo veterano Francês, da guerra de 1914/1918

Foto da estátua existente em Vila Real de Trás-os-Montes

Faleceu hoje com 110 anos, o ultimo veterano Francês da 1ª. guerra mundial, 1914/1918, de seu nome LAZARE PONTICELLI.
De origem Italiana, cedo embarcou para França, tendo-se naturalizado Francês.
Alistou-se com apenas 16 anos na Legião Estrangeira, para combater os alemães.
O ultimo presidente Francês, Chirac, "ofereceu-lhe" um funeral de Estado quando morresse.
Ele recusou. No entanto posteriormente aceitou uma pequena homenagem no seu funeral, segundo é referido no site abaixo indicado.
Assim o seu funeral será feito com Honras do Estado Francês, pelo Presidente Sarko.
Glória a este homem e a todos que com ele combateram, nas várias batalhas.
Segundo o site http://dersdesders.free.fr/ , existem ainda espalhados pelo mundo, 13 outros sobreviventes deste conflito. Morreram nesta guerra dez milhões de pessoas.

Lembro aqui os valorosos combatentes Portugueses, que se cobriram de Glória nos campos da Flandres, Verdun e não só, nesta terrivel guerra onde foram usados pela primeira vez gases letais que provocaram morte, sofrimento e dor. Lembro ainda a este propósito um belo filme que narra uma história veridica desta guerra "O longo noivado de domingo", passado há pouco na rtp-2.
Lembro também aqui o comandante Português Carvalho Araújo e os seus Homens, que ao leme do caça-minas "NRP-Augusto Castilho" avançaram sem temor sobre um submarino alemão, no dia 14 de Outubro de 1918, em defesa dum outro navio Português, o S.Miguel.
A este propósito o comandante do submarino alemão, teria dito mais tarde que nunca tinha visto tamanha valentia e determinação, num ataque desta natureza. Existe em Vila Real, na avenida principal, uma estátua a este valoroso oficial da Marinha Portuguesa e aos seus Homens, cuja lápide tem inscrito esta opinião do comandante alemão.

José Botelho de Carvalho Araújo, nasceu no Porto em 18 de Maio de 1881 — e faleceu no oceano atlantico em 14 de Outubro de 1918, neste combate.
biabisa disse...
Também o meu avô apenas casado há 5 anos morreu na Grande Guerra. Era capitão do exército. A minha avó ficou viúva aos 22 anos e com 2 filhas. Uma, a minha mãe, apenas com 4 anos. A outra apenas com pouco mais de um. A minha avó nunca mais casou, apesar de ter tido alguns pretendentes. Morreu aos 98 anos, sem nunca ter tirado o luto. Vidas do antigamnte!

Eramos muitos na minha viagem para a Guiné !

Foto do embarque, no Uige, em 8 de Abril de 1967.
Este parte,
Aquele parte,
E todos,
Todos se vão,
Oh terra ficas sem homens,

que possam cortar o pão.
Zeca Afonso


Corria o mês de Março de 1967, no Centro Cripto do Quartel-general (QG), em Lisboa, entre três cabos e dois sargentos, quis o destino que fosse eu a decifrar a mensagem que ditava a minha mobilização para a Guiné, ficando incorporado no Batalhão de Artilharia 1914, composto por três Companhias Operacionais e uma de Comandos e Serviços, em trânsito no Regimento de Artilharia Costa (RAC), em Parede, Carcavelos.

Não me espantou! A situação era mais que previsível para os jovens militares da minha idade. Dou a notícia em casa à minha mãe, à namorada hoje minha mulher e companheira de sempre. Com o meu pai, na altura internado no Centro de Saúde do Telhal, despedi-me com um abraço e um beijo, sabendo eu que era incerto encontrá-lo de novo com vida, por mim, ou por ele tendo em conta a sua debilitada saúde, mas lúcido o suficiente para me encorajar contando episódios que passou na sua vida de militar.

Após o curto período de férias, a 7 de Abril de 1967, um dia antes do embarque, já no quartel em Parede, entre dezenas de militares, procuro o cripto Justo e conheço o furriel de transmissões de nome Cavaleiro. Aqui, além uma cara já conhecida. É-me indicado o Sargento a quem tenho que me apresentar. …Onde andou rapaz? ….não fez a instrução de aperfeiçoamento operacional (IAO), devia cá estar há um mês! Pergunte no QG….foi a minha resposta. Depois, foi arrumar na bagagem o camuflado distribuído e sair para jantar.

8 de Abril de 1967, cais de Alcântara em Lisboa, despeço-me da família que me acompanhou ao embarque, segue-se a formatura, um emproado oficial superior e sua comitiva fazem a revista da praxe, o embarque das tropas sucede-lhe. Ao som da fanfarra militar e do acenar dos lenços, o paquete Uíge largou amarras. A Torre de Belém fica para trás, a ponte sobre o Tejo já não se vê, a terra é coisa sumida, os olhos há muito que estão rasos de água.

Tive a sorte de não ser colocado nos lugares do navio que outrora eram destinados às cargas. O meu camarote suporta oito beliches duplos. Não tenho preferência da cama, uma qualquer serve para descansar. As refeições foram tomadas em refeitórios outrora salas de jantar para passageiros em terceira classe. Os lugares destinados às outras praças, os porões, (ao contrário dos oficiais e dos sargentos que seguiam em primeira e segunda classes respectivamente), eram degradantes. Colocadas ao comprimento dos porões, mesas de madeira que tinham lotação para uma vintena de militares, os beliches, também em madeira, acompanhava-os na altura. Os vomitados do enjoo eram constantes, a limpeza precária, que em conjunto com a falta do banho diário o cheiro era nauseante, asfixiante, o barulho dos motores, etc., o ambiente era insuportável.

Durante os oito dias (mais três que o normal por avaria num dos motores) que a viagem durou, foi neste contexto que os jovens militares fizeram a sua vida no navio. Inconformados com o destino, no convés, uns passeavam, outros conversavam e ainda outros jogavam ou viam jogar às cartas. Uma ou duas vezes fizemos exercícios de salvamento em caso de naufrágio. Os peixes voadores que quase sempre acompanharam o barco eram também motivo de entretenimento. Em 14 do mesmo mês, chegamos ao destino para o qual fomos obrigatoriamente mobilizados. O pior estava para vir……a guerra. Aqui o sofrimento a todos tocou!

Raul Pica Sinos

segunda-feira, 10 de março de 2008

Alcinda Leal, comentou...

ALCINDA LEAL...comentou...

Amigo Guedes, reparei no comentário da tua amiga Alcinda Leal, que simpácticamente tem colaborado no nosso blog. Diz ela:
“Quase todos os homens da minha família foram à guerra e nunca ouvi histórias sobre esses tempos !!”

Tudo tem uma explicação;
Primeiro e talvez o mais importante, o Estado Novo batia e rebatia na tecla, que nós não estávamos em guerra !!?? os militares no Ultramar tinham como única função POLICIAR e manter a ordem !!!???.
Depois tudo era feito às escondidas e no máximo segredo; Os militares mortos vinham para a Metrópole e eram desembarcados de noite (isto para as famílias que PAGAVAM...e bem...para terem os seus mortos), o mesmo para os feridos graves com destino ao Hospital Militar em Lisboa. Tudo feito com o maior secretismo e com o cuidado de evitar o máximo de testemunhas.
Noticias de ataques aos quartéis, evolução da guerra, desertores e refractários...nada disso era notícia, e ài de quem comentasse em público tais coisas, tinha logo a PIDE à perna.
Os militares, e - custe isto a muita gente - eram mal vistos pelos indígenas e pela população civil branca, suportavam-nos mas sempre à distância. As mãesinhas ainda aceitavam o relacionamento das filhinhas com militares, mas se fossem oficiais...dava um certo estatuto às meninas!!
Nós éramos instruídos para nunca falar de assuntos militares quando escreviamos para a família, pois, “havia sempre tendência para o exagero, e isso iria preocupar sem razão os familiares” além disso batiam na tecla de que, o correio era analisado e se o militar falasse de mais...sobre ”factos militares”... já sabia.
Todos nós, terminada a comissão, e chegados a casa, queriamos era esquecer o que por lá passamos, a vontade de falar não seria muita, e quando por vezes se relatavam episódios de guerra - qual guerra !!?? - ninguém acreditava.
Na minha vida profissional, contactei com imensos ex-militares, e quando falávamos sobre isto, todos confirmavam, que também eles sentiram o alheamento das pessoas, excepto aqueles a quem tinha morrido um parente. Passavamos por mentirosos...e a armar ao herói.
Outro pormenor importante, era posto a correr que o “policiamento nas colónias” fazia muitos jovens conhecer outras paragens, novas gentes, conheciam moças através do Movimento Nacional Feminino (madrinhas de guerra), iam ganhar dinheiro, que nunca conseguiriam com aquelas idades na Metrópole (isso era verdade, mas para os Sargentos e Oficiais), que morriam “muitos” militares em acidentes, porque como “tinham dinheiro” podiam comprar cerveja e por vezes abusavam !! e outras patacuadas, que se não fossem tão imbecis, até davam para rir.
Claro que o álcool teve influência em acidentes graves e mortais, mas que guerra se fez sem o Doping ?, alcool, droga, droga/alcool (no Vietnam). Era também o álcool que fazia de nós por vezes heróis, e nos mantinha “em pé” para suportar dois longos e miseráveis anos, longe do que era o nosso verdadeiro mundo, de não pensar muito, que amanhã estavamos metidos num caixão. Nunca faltou cerveja e whisky nas cantinas, no entanto, frescos, farinha, carne e até alcool para a enfermaria, volta e meia...nada.
Outro factor estratégico do Estado Novo era o de colocar os filhos dos colonos brancos em zonas de pouco ou nenhum conflito, o que levava a distanciar ainda mais as pessoas da realidade da guerra.
Para o meu trabalho sobre a GUINÉ 67-69 fui adquirindo livros sobre o tema GUERRA COLONIAL o que me ajudou bastante a esclarecer e confirmar muitas situações. Não inclui tudo, mas li, entre outras, uma frase que nunca esquecerei...comentava um colono branco...”nem pensem em por os nossos filhos na guerra, então depois, quem é que toma conta dos pretos”. Esclarecedor, não ??
Para finalizar, em boa hora o ex-companheiro e amigo Leandro Guedes começou com o este nosso Blog sobre o BART 1914. Ao ler alguns escritos meus, e dos outros camaradas de armas, que ele fez o favor de inserir, minha mulher e filha, ficaram estupefactas, pois nunca lhes tinha contado nada. Passados 40 anos, e martelados pela vida, já não dói tanto !!
“Inter pares” somos diferentes, e por tudo isto, passamos, sofremos juntos e quando regressados, começamos a sentir uma revolta e indiferença que magoavam muito.
...Iamos defender a “mãe Pátria”, demos o melhor de nós...a juventude (3 anos), a saúde, largas dezenas de milhar ficaram estropiados, perto de 10.000 perderam a vida, e chegando cá...indiferença, desemprego, traumas, o ódio de muitos ditos retornados, muitos empregadores sabendo que o candidato tinha estado no Ultramar, pura e simplesmente lhe dava o estatuto de “apanhado da cabeça”, casos crónicos de alcoolismo, e muito mais que foi constando.
Com uma “mãe” destas, nossa amiga, preferia ser órfão !!

Zé Justo

alcindaleal disse...
Maior clareza de explicação não era possível! O senhor elenca um conjunto de razões que, de facto explicam tudo! gostei do seu artigo e gosto sempre de vos ler,porque me esclarecem muito e ,penso, para vós também é bom por que, inter-pares, fazem a catarse depois de tantos anos e nós aprendemos a conhecer este período negro da nossa história! Obrigada!

Há horas do diabo !!


Nos dois anos em Tite, uma grande verdade aprendi...- por pouco se vive...por pouco se morre.
Infelizmente a história do nosso Batalhão e das Companhias e Pelotões que nos apoiaram, ficou marcada por várias mortes e feridos...dos outros, os “todo rotos” nunca saberemos.
Muitos de nós ficámos a dever a vida a situações de pura sorte, outros por falta dessa mesma sorte, encontraram a morte.

Este camarada, pertencia a uma Companhia operacional que em substituição, tinha chegado a Tite há cinco dias.
Como habitualmente, quem destacava o pessoal para o reforço nocturno dos postos avançados, sempre que havia “piriquitos” metiam-nos logo à alinhar - a velhice é um posto - e claro, descansavam um pouco mais os “velhinhos” e eles depressa começavam a tomar contacto com a realidade da guerra.
Nessa noite, mais uma vez estavamos a ser atacados, e em força - foram referenciados mais de trezentos rebentamentos de artilharia dentro do perímetro do quartel - ouviam-se os assobios característicos das granadas antes de caírem, o cheiro intenso a córdite, um fumo branco muito espesso, as balas tracejantes da pesada dos “turras” (eles a nós chamavam-nos Tugas) os gritos, as ordens, e tudo o que nos movimentava nessas ocasiões.
Camaradas que estavam abrigados num dos abrigos perto do parque-auto, começaram a ouvir gemidos e gritos, claro que era difícil alguém sair do abrigo durante o ataque, mas os gemidos persistiam, e dois homens de grande coragem, saíram a rastejar na direcção dos mesmos.
Um moço, que vinha a fugir do fundo do parque-auto, onde estava a fazer um petisco com outros da Companhia, tinha sido atingido por um estilhaço que lhe penetrou pelo anus !!. Desgraçadamente morreu, e no outro dia, vimos as suas pegadas marcadas a sangue e tecido orgânico, no passeio elevado do edifício das tms, quando amparado pelos dois homens que o resgataram se dirigiram para a enfermaria.
Um estilhaço de granada tem um poder de penetração e destrutivo no corpo humano imenso, isto porque tem uma forma bastante irregular, cheio de arestas vivas, está ao rubro, e é projectado a uma velocidade tremenda.
Revés do destino; ele tinha cinco dias de Guiné; tinha-se desenfiado do reforço para que tinha sido indigitado, e foi apanhado pelo rebentamento da granada a poucos metros do abrigo.

Nunca esquecerei e aqui presto a minha homenagem aos Homens que com o seu gesto corajoso o socorreram e ampararam no seu trajecto terminal da vida, ainda longo até á enfermaria, e debaixo de fogo.

Zé Justo

domingo, 9 de março de 2008

Ser atropelado no mato, também foi possivel...



Da porta do Centro de Cripto, não poucas vezes avistei um rapazola, mais ou menos da minha idade, a mostrar habilidades de equilíbrio numa bicicleta, fazendo inveja a qualquer “Marcos Chagas” ou “Cândidos Barbosa”, nas correrias que fazia em redor da tabanca e na frente do quartel.
Se bem me lembro, a bicicleta estilo “pasteleira”, tinha alguns dentes partidos na roda pedaleira, não tinha luzes e campainha. Mais tarde vim a saber que quando era necessário accionar os travões, eram os pés chamados a intervir. Mas ser atropelado por tal “veículo” no….mato, era coisa que jamais pensei que me poderia vir a acontecer.
Várias vezes o crioulo foi avisado pelos próprios naturais do perigo de tais correrias, tendo em conta as crianças que brincavam nos terrenos fronteiriços às tabancas. Mas o moço nada….“cá ouvia”.
O rapaz “tinha alguma razão” para ser vaidoso. Tal relíquia não era fácil encontrar no redor de Tite. Os naturais que se deslocavam de Foia, Nã Balanta, Iusse, Bissassema, Brambanda, Nhala, Louvado e Bária para entregarem a sua produção agrícola e frutícola na tasca do branco Silva, vinham a pé, quilómetros a pé com os carregos às costas os homens e “no” cabeça as mulheres, pois não tinham condições de possuir “este” ou qualquer outro veículo.
Bem…ser atropelado nas “ruas de Tite”, ou mesmo dentro do quartel, não era tão difícil como isso. Haviam uns quantos “artistas” que tinham o pé “pesado” quando conduziam veículos, sobretudo os jeeps. Não me refiro aqueles que saíam para operações ou que faziam transportes de e para o Enxudé. Mas refiro-me ao capitão que também, entre outras responsabilidades, tinha o comando das transmissões e ainda um furriel chamado Guedes. Que dentro do quartel ou fora, quando se deslocavam ao aeródromo era a “abrir”. Mas ser atropelado por uma bicicleta………
Um dia….já no “lusco-fusco” em passo de corrida (*) direito ao quartel, para espanto meu, surge pela minha direita, em grande velocidade, o “corredor de bicicleta”. Ao aperceber-se cá do rapaz, procura travar “a fundo” com os pés…mas o resultado foi derrapagem por largos metros. Por muito que me esforçasse para evitar o atropelamento não consegui, porque o “artista” escolhia exactamente o mesmo lado que eu para evitar o impacto. Estou em condições de garantir que o rapazola não voltou a andar de “bicicleta” durante o resto da minha “estada” em Tite. A bicicleta……já era, (ele que me desculpe hoje o mau feitio), mas enquanto não a vi partida em cacos……não descansei e….ainda tive tempo de ver a porta de armas aberta.

Raul Pica Sinos

(*) Como sabem o “lusco-fusco” é aquele pequeníssimo período que vai de entre o dia e a noite. Também estão recordados que a porta de armas fechava quando o sol se punha e a noite surgia. Quem não entrava a horas de ser identificado possivelmente dormia na rua.
NOTA: A foto foi gentilmente cedida pelo justo

Manhã na praia, arroz de marisco às refeições


Junho de 1967, O calor da noite é muito, a humidade também. Numa das mesas da cantina uns quantos reguilas jogavam às cartas e bebiam cervejas não só com o propósito de matar a sede mas também para “compensar” a desidratação. A noite vai alta, o grupo já é restrito, alguém informa …………”depois de amanhã chega ao Enxudé um carregamento de géneros”……… Diz célere um outro…….e se fossemos dar uns mergulhos à “praia”?
Oito horas da manhã, o calor do sol já se faz sentir, na porta de armas dois camiões GMC, dois honimogues e outros tantos jeeps aqueciam motores. Há muito que o pelotões: Daimler, de sapadores, minas e armadilhas tinham saído para “picar” a estrada que liga Tite ao porto do rio Geba. Alguém dá ordem de marcha……”Hó Guerra a tua GMC vai na frente, os outros carros não saem do trilho”. Vamos embora!
Pelo caminho a beleza das bolanhas, e das névoas que as rasavam, as aves, sobretudo patos, aos milhares, levantam voo incomodados com o barulho à nossa passagem, aqui e ali nenúfares multicoloridas do tamanho das rodas de camião, os pássaros pequenos beijam-nas na procura de alimentos. Passamos Foia, aldeia também de pescadores. Já estamos perto.
Finalmente o rio Geba. Aqui a água é barrenta não tem ondas. Junto ao barco, não só tropas mas também naturais com algumas cestas de fruta na esperança de alguém de nós a comprar. As crianças brincam por perto na margem. Enquanto os carros são carregados por uns, nós aprestamo-nos……….em cumprir com o nosso objectivo…….dar uns bons mergulhos na “praia”.
Numa pequena e emprestada embarcação a remos, afastamo-nos para o meio do rio, à cautela são lançadas na água várias granadas de sopro, o objectivo, não vá o diabo tecê-las, é afastar eventuais “alfaiates” (crocodilos) que na zona abundam. Os saltos para a água, as “amonas” e as corridas são as brincadeiras que sucedem.
Saciados, preparámo-nos para o regresso. Hoje o rancho vai ser melhorado. O almoço e o jantar foram feitos pela equipa de natação. A ementa é arroz de marisco. Pois é! Quem nos emprestou o barco, em troca compramos uma “saca de batatas” cheia de ostras e alguns camarões. O arroz foi “cravado” ao branco Silva, o Contige, o padeiro, “deu” uns pães, a patuscada foi até às tantas, depois uns quantos foram levados às costas para os seus beliches de dormir.

Raul Pica Sinos

Nota: A foto foi cedida pelo camarada Justo
do Pica Sinos:
Justo Boa Noite. Deu-te a Pica e ainda bem....Tá muito giro.Fartei-me de rir eu a Maria Emilia. Tá muito bom.Espero que te dê a Pica para outros.O da "praia e arroz de marisco" seria bom que colocasses uma foto ou desenho do repasto. Eu não tenho fotos das almoçaradas e muito menos das jantaradas que foram muitas. Este almoço/jantar, até deu para uns quantos - a pedido do Cap. Paraiso Pinto - que tinham chegado de uma operação cheios de fome, comerem ainda sopa que também tinhamos feito.Eu ainda não me esqueci do teu "coma" um dia destes quando me der a mim também a Pica, vou ver se escrevo alguma coisa.Um abraço AmigãoRaul Pica Sinos

39 anos Amigos, 39 anos...

Meus Amigos-
Como é que não devemos estar idosos, velhotes, sexagenários...
Já passaram 39 anos desde que regressamos à santa terrinha... Deve estar a fazer por estes dias, ontem, hoje ou amanhã, que me corrija quem souber.
Para todos um grande abraço com votos de muita saúde.
Lembrando sempre aqueles que lá ficaram...

quarta-feira, 5 de março de 2008

... Rumo ao abrigo, goss, goss (rápido, rápido...)

Foto do buraco provocado na parede dum edifico, por uma granada de rocket

A guerra na Guiné 7.000 guerrilheiros era sem dúvida muito mais intensa e sistemática, que em Angola 6.500 guerrilheiros e Moçambique 6.500 guerrilheiros.
Devia-se isso principalmente a:
Pequenez do território 36.128 Km2, portanto mais controlável pela guerrilha.
Ser o PAIGC o único grupo armado que nos combatia; (ver mapa Africa)
Fazer fronteira com dois países que nos eram hostis - Senegal a norte e Guiné Conakry a sul - e dos quais o IN recebia apoios.
Como se não bastasse, tinha um clima terrível; calor e humidade intensos, pragas de mosquitos, formigas gigantes vorazes, dificuldade de abastecimento e conservação de frescos, água só filtrada e com um sabor horrível, tomava-mos duche e quando nos estava-mos a limpar já suava-mos de novo, etc.
O PAIGC concentrava a luta de guerrilha, principalmente nos ataques nocturnos aos quartéis, com armas pesadas - de véspera engajavam os civis das tabancas próximas para carregarem as granadas e muitos fugiam a coberto da noite antes de espoletarem as granadas de morteiro (esta cena vai dar outra história curiosa).
A nossa vida diária, e logo que começava a escurecer, era ir para dentro, ou estar muito perto dos abrigos subterrâneos (ver foto), ou de alguns edifícios reforçados com sacos de areia entre o telhado e a cobertura.
O quartel estava sempre iluminado com duas principais linhas periféricas: o quartel propriamente dito, e uma linha posterior onde se situavam os postos de defesa avançada.
A força motriz era fornecida por dois enormes geradores que funcionavam alternadamente 24 horas por dia, e tinham sempre um electricista de dia, que além da manutenção normal, tinha a função importantíssima de, quando se ouvissem as “saídas” (nome dado aos estrondos dos primeiros disparos dos morteiros e canhões sem-recuo) desligar todas as luzes, excepto da vedação posterior, para pudermos ver e repelir tentativas de aproximação e invasão do quartel.
A parte mais mortífera dos ataques, eram os primeiros rebentamentos, O PAIGC instalava-se de noite, a alguns kms do quartel e como tinha a referência das luzes, podia calibrar e apontar as armas pesadas, sem pressas e com toda a precisão. Daí as primeiras granadas a cair, sempre tocavam os pontos mais vitais (numa operação, foi capturado a um guerrilheiro morto, um mapa pormenorizado do nosso quartel, assinalado com o comando, tms, etc. e até da prisão, com uma exactidão impressionante !!??)
Uma noite, como sempre, estava no abrigo subterrâneo a jogar á Sueca e era hábito haver sempre alguém que se encarregava de ganhar algum “patacão” com um mini comércio de vinho, cerveja e alguns petisquitos de ocasião.
Só que naquela noite, mau grado, não apareceu ninguém a “abrir a tasca” e estava tudo a seco. A “secura” na Guiné tinha dois grandes inconvenientes; O calor chegava aos 40 e tal graus, e “não bebo, logo penso...portanto...não rebentes a tola”.
Claro que as jogas da Sueca eram levadas muito a sério, e sempre para as bebidas...quem perde paga, e segue a música.
Dispus-me a ir á cantina buscar quatro belas e grandes cervejas de 6 dl.
Tinha acabado de pagar, quando um barulho intenso denúncia as “saidas” bum...bum...bum...bum, aí estava mais um ataque...logo se apagam todas as luzes e desato a correr e a contar intimamente 1.2.3... - tinha aprendido na recruta, com um alferes que tinha estado na Guiné, que quando apanhados nesta situação, devemos começar a correr para o abrigo mais próximo, a contar e chegando ao 10-12-15 deitar no chão, fechar a boca e tapar fortemente os ouvidos com as mãos, por causa da descompressão de rebentamentos muito próximos.
Corri que nem um desalmado, sempre a contar, mas aos vinte e tal, parei de contar...mas não me deitei no chão, sempre na ânsia de chegar até ao abrigo das transmissões.
Sem luzes e numa noite bastante escura, corria e guiava-me mais pela intuição e o desespero de me abrigar, do que pela visão, quando um rebentamento tremendo de granada, na paliçada junto à porta de armas, me projecta não sei para onde, e senti um calor enorme. Ainda fiquei mais em pânico, pois as ondas de choque dos rebentamentos próximos, levantavam muita terra, e parte dessa “chuva” caiu-me em cima.
Com a projecção, caí, mas logo me levantei e recomecei a correr. Dois ou três passos dados, senti uma pancada enorme na cara e na mão direita, que me deixou completamente tonto !! cheio de dores começo às apalpadelas, e passados segundos, apercebo-me que em vez de estar a correr na direcção da rua, com o rebentamento, tinha ficado virado para a parede do edifício já muito perto do abrigo, e tinha corrido a bom correr...DE ENCONTRO Á PAREDE.
Por fim lá me abriguei, incólume, mas sem uma sapatilha e a cabeça toda empoeirada.
Desta vez o ataque tinha feito desgraça entre nós, um deles foi o “piriquito” da Compª operacional, com 5 dias de Guiné, que se tinha desenfiado do reforço e morreu com um estilhaço que lhe entrou pelo anus...incrível.
A seu tempo vou contar esta triste história, mais uma ironia do destino.
No dia seguinte, na cantina e enquanto comentávamos a noite desgraçada da véspera, , perguntei como descargo de consciência das quatro cervejas que tinha pago e ficaram em cima do balcão, claro que já previa que tinham sido “capturas pelo IN”, mas não !!! o cantineiro (mas uma vez...os nomes) abre a arca e pôe-me as cervejas no balcão !!! fiquei de boca aberta...não comentei...e acabamos os dois por beber as 4 loirinhas.
Não acredito num gesto destes na cantina de um quartel na Metrópole, onde os gajinhos das cantinas eram uns lateiros-mete-nojo.
Se a maldita da guerra, terá uma única coisa de bom, será a forte amizade entre irmãos de armas e sofrimento, durante dois anos, num teatro estúpido de guerra.
O que me dói, e ofende a minha inteligência, é; porque se provocam carnificinas, e passados anos os então inimigos, passam a irmãos !! não será possível a tal irmandade antes do morticínio ?? tá bem...pronto, já sei que não sou deste planeta !!

Zé Justo

do Cavaleiro:
Olá amigo Justo.Parabéns! Estás um exímio contador de histórias de guerra. Tenho-vos uma inveja!! Estou a adorar ler os vossos escritos. É para mim um belíssimo exercício dememória. Começo a recordar-me de certas passagens que as tinha enterradocompletamente. Eu.....que até era avesso às recordações da Guiné......atéestou a gostar. Para já....não contem com a minha colaboração. Um dia destes......., talvez.Quando tiver a cabeça formatada e direccionada para a Guiné, nessa alturapoderão contar comigo! É que isto de escrever....não é quando eu quero massim quando a cabeça, com as ideias arrumadas me atirar para cima do teclado,mesmo sem eu querer! E nessa altura vai ser difícil parar!! Já estou a ouvir o teu comentário Justo!....."cuidado este gajo está mesmoapanhado"!!! Se calhar.........Um grande abraço.CavaleiroAh, é verdade! Já me esquecia de te dizer que já vi por duas vezes oLORD OF THE DANCE. Mas.....não vai ficar por aqui, pois a minha neta já otroca pelo RUCA! Simplesmente fabuloso. Adorava assistir ao vivo àqueleespectáculo! É evidente que um espaço daqueles só em Hide Park! Natureza,verde, luz, música, dança, alegria, enfim....um espectáculo de sonho!Obrigado Justo.
alcindaleal disse...
Há tempos vi na TV a notícia de uns antigos combatentes na Guiné lá iam agora levar comida, roupa e livros,de jipe ...Nenhum dos senhores faz parte desse grupo?Algum pensou nisso alguma vez?Cumprimentos
Leandro diz:
Alcinda- Nunca participei nas actividades que refere, nem nunca tive grande vontade para o fazer. Mas tenho amigos que têm ido à Guiné nessa nobre actividade de ensinar criancinhas, durante as suas férias anuais. É o caso da Menta, prof. do ensino básico, que com o marido iam regularmente à Guiné com essa função, inseridos num grupo. E o marido nunca esteve na Guiné.
Talvez por isso lá ia...
Leandro G.
Raul Pica Sinos disse...
Ganda JustoSabes que não estavas sózinho. Eu como tu também era um "borrado" de primeira. Hoje recordo sorrindo quando a malta vinha do arame farpado depois das respostas ao ataque. Para lá era vê-los na ganga descalços semi-nus de G3 na mão e cartucheira às costas. Para cá devagarinho e aos pulinhos pois as pedras do piso de terra batida magoavam que se fartava.Ainda tens memória de quereres montar uma metralhadora na janela do nosso quarto? Devia ser lindo.Continua rapaz
Raul Pica Sinos